O Brasil é um moinho

O verticalmente prejudicado Sarcozy - ou pelo menos sua testa
O verticalmente prejudicado Sarcozy – ou pelo menos sua testa

Estão bem adiantadas, felizmente, as conversas entre os governos do Brasil e da França para comprarmos mais 36 jatos para a nossa Força Aérea, a um módico custo de € 4 bilhões.

Também da França, compraremos a tecnologia para construir submarinos, inclusive nucleares, adicionando à despesa outros insignificantes € 4,32 bilhões.

Fechando o pacote, mais 50 helicópteros virão pela bagatela de € 1,76 bilhão. A conta da defesa contra não-sei-o-quê soma simbólicos € 10,08 bilhões, ou R$ 26 bilhões e uns trocados.

A menos que os submarinos impeçam a entrada de armas e drogas pelo nosso litoral, a leste, e os aviões façam o mesmo nas demais fronteiras, a oeste, o país ficará mais seguro, mas as cidades continuarão em guerra civil.

Nossa soberania está garantida, mas nossa volta para casa depois do trabalho não. Talvez isso previna uma improvável invasão do Uruguai ou da Venezuela, mas o Comando Vermelho e o PCC continuam um perigo muito mais real e imediato. Assim como a dengue, o analfabetismo, o tráfico de drogas e o Sarney.

Imagine a situação de uma empresa que enfrenta seríssimas dificuldades financeiras, mas decide investir num sofisticado sistema de backup para seus arquivos. Claro que tal medida representa uma prevenção necessária mas, em tempos difíceis, gravar manualmente os dados mais sensíveis em alguns DVDs, uma ou duas vezes por semana evita tragédias maiores. Pagar salários é sempre mais urgente.

Em situações de crise, onde o cobertor é curto, precisamos apagar os incêndios mais urgentes e deixar alguns riscos entregues à própria sorte. Quando a coisa aperta em casa, a gente adia a viagem de férias e até vende o carro. Mas não deixa de pagar o plano de saúde.

6a00e554b11a2e88330120a5512eb5970b-320wiPois é como enxergo esta situação. Num país onde se passa fome, este valor alocado à defesa representa mais da metade do orçamento destinado à Saúde para 2009 e cerca de 60% do que será gasto em Educação neste ano.

Enquanto discute-se um novo imposto para tapar o primeiro rombo – conta essa que eu e você pagaremos -, o segundo garante um país mais ignorante no ano que vem. E nos seguintes.

Estamos menos vulneráveis a inimigos externos, enquanto que os internos continuam afiando seus dentes, espalhando medo e terror pelo país, mordendo a esmo.

Trocamos nossas enferrujadas lanças por outras novinhas em folha, numa quixotesca prevenção contra moinhos sulamericanos, nossos inimigos imaginários.

De triste figura, nosso cavaleiro não tem nada. Entrega os anéis – porque dedos não tem mesmo – enquanto prepara sua Dulcinéia sem diploma para um eventual matrimônio em 2010.

ATUALIZAÇÃO (26/09/09): Dois caças Rafale deram um mergulho no Mediterrâneo hoje (exatamente iguais a esses que o Lula e o Jobim querem comprar). Como o Lula já disse para quem quiser ouvir – inclusive para o próprio Sarcozy – que os aviões escolhidos serão mesmo os franceses, mesmo antes de a licitação terminar, não será a queda de dois deles que vai fazê-lo mudar de idéia, não é mesmo? Afinal, nenhum dos dois vai pilotá-los, não é mesmo?

9 pensamentos em “O Brasil é um moinho”

  1. Apesar de também ser baixo, 1,70, achei hilária a maldadezinha que você fez com as fotos do Sacorzy!!
    falando sério, é simplesmente inacreditável o dinheiro que se está gastando com a “defesa”!!! Você tocou na ferida, mas ninguém liga para isso.
    Quarta passada assisti (eu e os outros motoristas que também pararam no sinal vermelho), inconformado uma moça ser assaltada no centro de Curitiba, no carro ao lado do meu, baixei o vidro e escutei e vi tudo me controlando.
    estamos reféns de tudo e anestesiados, ninguém mais faz nada nem reage aos desmandos que sofremos.
    Estou pensando o que fazer, precisamos reagir. e já!!! temos que voltar a acreditar que podemos fazer deste país um lugar bom de viver.
    Assisti em Angola, sou natural de lá, os negors enfrentarem o exército português sem armas, lutando por um ideal e reagindo, mesmo sabendo que alguém iria morrer, mas o sonho da liberdade era forte.
    A luta continua porque a vitória é certa tem que ser nosso lema para continuarmos acreditando num país ético e igualitário.
    Fraterno abraço,
    AMoreira.’.

  2. Um ponto a se considerar é que desde a época do finado programa F-X que o Brasil empurra com a barriga a compra de novos caças. Quando LULA assumiu a presidência redirecionou a verba do programa (que sequer existia) para programas sociais como o fome zero.
    Óbvio que o aspecto social é urgente, mas cabe considerar que o Brasil possui um importante papel político e econômico, principalmente na América Latina e que recentemente a Venezuela de Hugo Chaves comprou caças Su-27 e se assumiram como principais clientes das armas russas na América do Sul.
    De fato, não é interesse do Brasil iniciar uma guerra com a Venezuela :); mas deixar o espaço aéreo desprotegido é no mínimo irresponsabilidade por parte da defesa.
    É notável a ineficiência do poder público no que diz respeito às grandes necessidades desse país como: combate à violência, à fome, ao tráfico de entorpecentes e etc. Mas inevitavelmente é necessário reconhecer a importância dessas aquisições.
    Sensacional seu ponto de vista, gostei muito do texto :).

  3. Ótimo texto, parabéns! A comparação com o Dom Quixote é muito oportuna. Espero que não tenhamos realmente que engolir a Dulcinéia/Dilma.
    Mas nesse contexto, quem seria o Sancho Pança…?

  4. André,
    Depende de nós não contraírmos Dulcinéia em matrimônio! Quando ao Sancho Pança, há vários candidatos. Alguém tem um palpite…?
    Felipe,
    Eu concordaria contigo se as nossas fronteiras fossem inexpugnáveis à entrada de armas e drogas – o que não é o caso, definitivamente.
    Ainda assim, 36 caças não fazem frente a nenhuma potência. É muito para a paz e pouco para a guerra.
    Abraços, Rodolfo.

  5. Estes jatos, submarino e helicópteros são basicamente nada para um sistema de defesa.
    Talvez valha a pena pela transferência de tecnologia, se ela for bem feita…

  6. Talvez o seu argumento esteja baseado no fato que armamentos de guerra convencional são pouco eficientes no combate de guerrilha.
    Na “guerra” contra o tráfico de drogas deveriam ser usados armamentos e táticas de guerrilhas. Porém, acho que essa compra e o repasse de tecnologia foram essenciais… lembre-se que muito do desenvolvimento tecnológico vem da tecnologia militar, se soubermos copiar direitinho… o conhecimento se tranformará em mais riqueza.
    té mais!
    e parabéns pela coluna na revista… é o poder do FREE..

  7. Oi Júlio, tava sumido, hein? Obrigado pela menção à coluna da Você S/A!
    Sua análise é perfeita para um país que não tem nada mais imoportante para fazer com DEZ BILHÕES DE EUROS. No caso do Brasil, esse dinheiro certamente teria melhor aplicação em problemas mais urgentes – ainda que fosse comprando tecnologia alheia.
    Como você lembrou, armamentos de guerra convencional não servem em nada para o problema da violência urbana. Um submarino nuclear não cabe na Lagoa Rodrigo de Freitas. Um caça supersônico não pode localizar traficantes na Favela da Rocinha. Seria matar um rato atirando um piano de cauda nele…
    Grande abraço, Rodolfo.

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