O mal que nos fazem, com o bem que nos querem fazer

A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) acaba de aprovar novas regras para a elaboração das bulas de remédios. Segundo a nova legislação, para a qual os laboratórios farmacêuticos terão 270 dias para se adaptar, as informações sobre os medicamentos terão que alterar forma e conteúdo, de modo a ficarem mais compreensíveis aos consumidores.

A nova bula no modelo "faça-você-mesmo"
A nova bula no modelo “faça-você-mesmo”

Tal qual a frase “Produto destinado a adultos”, estampada nos anúncios de bebidas alcoólicas, a regulamentação representa um tiro no pé – e tem tudo para resultar em efeito contrário ao esperado.

A RDC 47/09 (PDF), publicada no Diário Oficial da União nesta quarta-feira, estabelece um novo padrão para os encartes que acompanham os comprimidos, que agora devem vir redigidos em Times New Roman corpo 10, facilitando a leitura, especialmente para os idosos – o que é ótimo.

Por outro lado, informações detalhadas para o consumidor, sobre para o que serve o medicamento, que sintomas podem ser tratados com ele e de que forma deve ser usado, em linguagem de fácil compreensão, é mais um passo em direção à auto-medicação.

Reconheço que a ANVISA é uma autarquia cheia de boas intenções, mas tem um talento especial para atirar pela culatra.

A desastrosa frase “Ao persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado”, obrigatória nos anúncios de medicamentos vendidos sem receita médica, é um salvo-conduto para que a pessoa tente se curar sozinha, num processo suicida de tentativa e erro.

Nas entrelinhas – em Times corpo 10, bem legível – a sentença traduz-se em: “Primeiro tome o remédio. Caso não melhore, ou piore muito, aí sim, procure um médico”. Mas o médico não deveria vir antes, em primeiro lugar?

Bula antiga: protegida do mau uso por forma e conteúdo
Bula antiga: protegida do mau uso por forma e conteúdo

Outra medida recente pretende coibir a venda em farmácias de produtos não relacionados à saúde, como sabão em pó, refrigerante e outras conveniências. A justificativa é que o consumidor entra no estabelecimento para comprar uma coisa e acaba levando uma aspirina ou um xarope – para tira-gosto ou sobremesa.

Ora, o problema está na venda livre da aspirina ou do xarope e não no motivo pelo qual a pessoa entrou na farmácia.

Se o cliente imita o cachorro, que entra na farmácia porque a porta estava aberta, então ele vai comprar o que quiser. Aspirina, xarope ou pomada para coceira. Evitar que o cliente vá a farmácia não vai reduzir a auto-medicação. Por sua incapacidade em fiscalizar o livre comércio de medicamentos, a ANVISA combate o efeito-colateral e não a causa da doença.

Ainda que os medicamentos sejam a principal causa dos atendimentos por envenenamento em pronto-socorros do país, as medidas canhestras da Vigilância Sanitária têm primado por sua falta de efetividade e, muitas vezes, por resultados contrários ao esperado. É mais um órgão governamental com especial talento para fazer o rabo balançar o cachorro – que entra na farmácia porque encontrou a porta aberta.

4 pensamentos em “O mal que nos fazem, com o bem que nos querem fazer”

  1. A ANVISA é uma várzea. Eles proibiram a creatina porque não sabem o que acarreta seu uso prolongado como se tudo que é vendido tivesse estudo longitudinal. Depois querem limitar a venda de isotônicos (Gatorade) para praticantes de atividade física e impor limites “saudáveis”. Eles se esquecem que até água em excesso mata…
    Eu faria da ANVISA um gde estacionamento público.
    Abrax

  2. Pois é, Balu, enquanto isso as bebidas energéticas (Red Bull, Flying Horse, Flash Power e semelhantes) continuam com venda livre e desregulamentada – apesar de terem sido criadas com a mesma finalidade dos isotônicos: repôr líquidos e sais minerais. E elas ainda acabaram se transformando nos insanos coquetéis que embalam as noitadas país afora.
    Abraço, Rodolfo.

  3. Um estudo feito pelo Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), bem no início de 2008, mostrou que as nossas bulas atuais incentivavam a automedicação, ao invés das instruções estimularem o usuário a procurar orientação de um profissional médico… Brilhante essa nova regulamentação!!! Pois é, sem dúvida alguma, com essa a nova RDC o paciente está livre do perigo da automedicação e irá com certeza procurar um médico se julgar necessário… hahahahaha!!! Só pode ser piada!!! e como você mesmo colocou no texto “ué, mas o médico não deveria vir antes?!?!”
    Lembrando que qualquer irregularidade que a Agência entenda como infração relacionada a este tema rende ao bolso da GGMED nada mais nada menos que de R$ 2 mil a R$ 1,5 milhão. Inacreditável a ineficiência deste órgão supostamente regulador!!!!
    Um beijo
    AMC

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *