O sujo e o mal-lavado

Abala os alicerces da Fórmula 1 – e do próprio esporte – o recente escândalo envolvendo Nelsinho Piquet e sua ex-equipe, a Renault. Suspeitas levantadas sobre o acidente sofrido pelo piloto germano-brasileiro na corrida de Cingapura, em setembro do ano passado, culminaram com a divulgação de sua confissão. Pela carta, datada de 30 de julho, ele afirma que, efetivamente, provocou o acidente de propósito, a pedido do diretor da equipe, o italiano Flavio Briatore.

A partir das dúvidas sobre as causas da batida – que criaram as condições ideais para que o outro piloto da equipe vencesse a prova – seria questão de tempo para que a fraude fosse comprovada. O próprio Nelsinho afirmou que “um engenheiro inteligente notaria que os dados de telemetria indicariam que o acidente foi causado de propósito”. De quebra acusou, nas entrelinhas, os profissionais de sua própria equipe de incompetência.

Os ex-amigos Nelsinho e Briatore
Os ex-amigos Nelsinho e Briatore

Tentando livrar o seu lado, Nelsinho comprovou sua falta de hombridade ao alegar “estado mental e emocional muito frágil”, devido à pressão pela renovação de seu contrato. Entendeu, então, que seu ato criminoso poderia ser um ponto a seu favor, já que arriscaria a sua vida – e a dos demais pilotos – para beneficiar o companheiro de equipe. Provaria, assim, que também era um mau-caráter e merecia fazer parte da quadrilha.

A confusão ainda está longe de acabar e já envolveu o pai do delinqüente: o polêmico tri-campeão mundial Nélson Piquet. Segundo o processo judicial iniciado pela própria Renault contra a famiglia Piquet, a equipe teria sido vítima de chantagem para a renovação do moribundo contrato do pimpolho.

O imbróglio joga ainda mais lama numa modalidade que tem chamado mais atenção por suas falcatruas do que pela competitividade. Escândalos parecidos têm sido comuns nos esportes, na medida em que as cifras envolvidas multiplicam-se e os participantes mostram-se capazes de tudo para alcançar fama e fortuna.

Quanto mais altas as somas, mais rasteiros os caráteres, mais longe atletas e dirigentes estão dispostos a ir, de forma a compensar suas inescapáveis incompetência técnica e falta de competitividade. Dos escândalos de doping aos subornos, da espionagem à compra de juízes, as páginas esportivas estão cada vez mais próximas das policiais, fazendo o Barão de Coubertin revirar-se em seu túmulo.

Como muitos outros brasileiros, deixei de acompanhar a Fórmula 1 em 1o de maio de 1994, dia em que morreu Ayrton Senna. Suportando pilotos medíocres – cada vez mais relegados ao papel de coadjuvantes ativos – em vez de torcer por eles, o brasileiro abandonou a modalidade que outrora alegrava seus domingos.

Um deles tem sido pródigo na arte de perder oportunidades de ficar calado. Desde o início, Rubens Barrichelo simboliza o sucesso do fracasso. De tão perdedor que é, acaba ganhando corridas. À sua persistência, some-se seu sangue-frio e um minúsculo orgulho, capaz de suportar mais de uma década sendo motivo de chacota nacional, sem desistir.

O patético Barrichello
O patético Barrichello

Às vezes admiro sua insistência, outras vezes desprezo sua pequenez e subserviência. Depois de assistirmos a duelos épicos entre pilotos que guiavam os mesmos carros (Senna e Prost, Senna e Mansell, Prost e Lauda, Piquet e Reutemann), envergonhamo-nos com o degradante papel a que o piloto brasileiro se submeteu, fazendo a cama de Michael Schumacher e lavando suas cuecas. Com sua camareira favorita, o alemão sagrou-se o maior campeão de todos os tempos.

Barrichello tem o mérito de conseguir ser contratado pelas melhores equipes da Fórmula 1 – o que revela certa capacidade – e o demérito de ficar sempre atrás, seja seu parceiro o Schumacher ou o até então obscuro Jenson Button. Se pilotasse sozinho, seria o segundo piloto.

Pois é esse Barrichello que vem a público criticar Nelsinho Piquet. O esportista sem caráter que dava passagem a seu amo na linha de chegada. É como Edmundo censurando Romário, ou Collor dando lição de moral em Sarney.

A fraude de Piquet Jr. foi dissumulada, acobertada por um acidente, maquiavelicamente tramada nos boxes, segundo afirma. As repetidas falcatruas de Barrichello eram escancaradas, desavergonhadamente explícitas e humilhantemente públicas. Mas é o mesmo crime. Não vejo diferença entre as duas atitudes. Nelsinho alegou ter a cabeça nas nuvens. Rubinho tem os pés no chão. E as mãos também.

Barrichello não tem moral para criticar Nelsinho. São dois covardes a serviço de seus patrões, dispostos a sacrificar o pouco de caráter que o público acha que ainda têm, desde que bem pagos para isso. Barrichello ressuscitou uma falecida carreira. Nelsinho assiste à morte prematura da sua. Farinhas do mesmo saco, roto e esfarrapado.

__________

ATUALIZAÇÃO 01/11/2009: Rubens Barrichello momentos depois de realizar a façanha de perder (também) o vice-campeonato de 2009 para o (adivinhem?) alemão Sebastian Vettel brinda-nos, via twitter, com essa pérola.

Rubinho, sempre equilibrado, cultivando sua especial relação com a torcida brasileira
Rubinho, sempre equilibrado, cultivando sua especial relação com a torcida brasileira

Um desabafo extremamente deselegante, camuflando sua incompetência e fazendo pouco do fato de (mais uma vez) ser motivo de chacota nacional.

Rubinho, quando você compara a sua felicidade com a dos seus críticos, tenho quase certeza de que se refere à sua conta bancária. Bastante nobre de sua parte em se tratando de um país como o Brasil. Sua desmedida arrogância é diametralmente oposta ao seu minúsculo talento.

A parte boa é que se por acaso outra equipe repetir a caridade de te emprestar um carro em 2010, seu companheiro será um novato e você terá que bater em bêbado. Ou, como tem sido bem mais frequente, arrumar desculpas esfarrapadas para ser sempre o mais lento. Nesse caso, lembremos, mais lento do que um calouro.

10 pensamentos em “O sujo e o mal-lavado”

  1. Olá Rodolfo,
    Sinceramente não consigo ver a lógica da comparação.
    A submissão de Barrichello em sua carreira pode, entre tantas acusações, demonstrar fragilidade, mas crime, jamais.
    Crime sim é o que o piloto Nelsinho realizou, tanto que um processo de extremo rigor está sendo instaurando para punir, criminalmente, seus culpados, algo que jamais foi feito na carreira de Barrichello.
    Acho então que o Barrichello tem sim, todo o direito de acusar e de se indignar pois ser o segundo piloto ou permitir ultrapassagens são situações vergonhosas, mas não criminosas.
    Não acho que foi feliz em suas comparações.
    Também acompanho a Fórmula 1 faz muitos anos e mais uma vez, não concordo com a admiração exacerbada a Ayrton Senna que, mais que talento, mostrou muitas vezes falta de caráter e educação, dentro e fora das pistas.

  2. Oi Rodrigo, obrigado pela visita e pelo comentário.
    Usei a palavra “crime” num sentido mais amplo, indicando a fraude configurada pelo comportamento anti-esportivo de ambos os pilotos. Neste sentido, tanto Rubinho quanto Nelsinho tiveram atitudes anti-éticas e, sendo assim, entendo que um não pode falar mal do outro.
    Abraço, Rodolfo.

  3. Rodolfo,
    O interessante e ver tudo ir parar no “ventilador” de uma das categorias esportivas mais caras e seletas! Me faz pensar em duas coisas: Primeira, ninguém do “andar de cima” quer simplesmente competir, ganhar se tornou mais importante do que tudo e isso é reflexo de uma época é o “Espírito da Época” que estamos atravessando. Vale para a fórmula 1, vale para o futebol, vale para o atletismo, vale para a natação e por aí a fora! O problema é que são muitos “não-esportistas”(no sentido amplo e no stricto sensu da expressão)dando as cartas, gente que não sabe nadar, gente que não tem fôlego para correr, gente que não sabe sequer dirigir uma bicicleta, gente que não gosta de futebol, mas é “dono da bola” e qualquer coisa pega sua propriedade e esfrega na cara dos outros!
    A segunda é que(e você pode ficar chateado comigo, porque eu sou apenas uma professora de Humanidades, mas não sou administradora)tem muito incopetente, sem caráter, sem decência, “semi-humano” com poder de “espezinhar” os outros para satisfazer sua mesquinhez e se autoafirmar! Nem fale do setor público, são o reflexo de todos os eleitores, consumidores de marketing político, gente que não quer se responsabilizar também e levam a cidadania na brincadeira. Pense, você que trabalha na área, quanto “cretino com poder” no setor privado fazendo estrago ao arrepio da hora e na margem do campo de visão do cidadão? Quanta gente, que age como os protagonistas de farsa bufa do esporte, no dia-a-dia das empresas privadas, em pose de “gestores de sucesso”?
    Por enquanto é no ventilador do esporte, um dia, eu tenho fé, vamos nos indignar com o que o que está no centro mesmo de nossas vidas e faremos melhor do que temos feito até aqui!!
    Um abraço

  4. Nossa, vc exagerou, até porque se não assiste desde 1994, seu julgamento é limitado; é de ouvir falar.
    Primeiro, porque naquela época era normal haver o jogo de equipe. Os pegas entre carros de equipe eram permitidos, mas valia a ordem do box. De qualquer forma o mercenarismo era minimo e o que valia era o espetáculo dos genios. Ninguém pensava como se pensa hoje. Talvez somente Chapman…
    Segundo, Rubinho deixou passar uma vez e foi tão estrondosa a manobra que a FIA proibiu. Daí as gravações dos dialogos nos rádios.
    Terceiro, a Ferrari era dirigida por Brawn o mesmo que hoje tem a equipe de Barrichello. Ora, agora, como antes, sobram manobras estranhas contra Rubinho: na ferrari tivemos a pane seca, a roda que pulou o pit-stop que não andou…na Brawn já tivemos até mola assassina, passando por pneu errado, estratégia modificada para um, mas não para outro, bomba de gasolina que não saiu… Afirmar que Barrichelo está atrás de Button é meia verdade, pois se está nos computo geral não está em nº de largadas, recorde de pista, etc.Rubinho é obviamente melhor que ele…nos tempos do Schumi era o segundo disparado!
    Quarto, porque ele sempre reclamou e aí era chamado de mau desportista; até por vc! Aliás, falar em desportismo na formula 1 é brincadeira; se pelo menos fosse na Indy… diga-se, de passagem, que foi Ayrton quem acabou com o romantismo da F1, implantando esse profissionalismo que está aí, no auge. Até o traçado romantico de Interlagos ele destruiu.
    Era um genio na pista, mas longe desse carater heroico que vc prega.
    Abraço e assista amanhã a F1.
    MAM

  5. Rodolfo san,
    Concordo que o Barrichello é um bosta por ter se submetido a se deixar passar pelo sapateiro. Mas acho que ele é um bom piloto (tecnicamente falando), pois se não fosse um bosta – deixando o schumi passar – ele poderia ter sido campeão.
    O pior do Nelsinho, e nisso concordo plenamento contigo, é que ele começou como um piloto ruim, depois passou a ser um cagão (com medinho do Briatore, abalado psicologicamente), um FDP por foder todos os outros pilotos na corrida em que bateu (uma das diferenças pra mim entre Barrichelo e ele, um se fodeu sozinho o outro fodeu todo mundo), e depois é menininha vingativa X9 ….
    PIQUET ….. VIRA HOMEM!!!
    Abraços
    Serpa

  6. Pois é Rodolfo, é uma falcatrua danada.
    Mas há um esporte a motor, categoria máxima como a F1, que é pura emoção. Lá, chefe de equipe não manda nada! Todos os pilotos, do primeiro ao último, só pensam em ultrapassar o próximo, custe o que custar.
    Essa categoria é a MotoGP, a qual eu não perco uma corrida sequer. É sagrado!
    Sem contar que motovelocidade já é show, independente que seja um campeonato regional ou mundial.
    F1 já foi boa, mas estes eram outros tempos…
    Abraço!
    http://www.dinheirologia.com

  7. Olá Rodolfo,
    Mais um belo texto, bem construído e argumentado. Embora eu ache que o Rubinho é meio patético em certo sentido e não tem aquela alma de campeão (quem sabe esse ano?..rs), eu considero que a situação dele é diferente da do Nelsinho.
    O Rubinho sempre deixou claro que era preterido na Ferrari. Deixou o Schumacher passar perto da linha de chegada, para mostrar ao mundo o que ocorria, de uma forma tão explícita que o Schumacher deu a ele o troféu da prova. Quantas pessoas não precisam engolir sapos na vida profissional, pensando em um pote de ouro no final do arco-íris?
    O Nelsinho é diferente (embora o limite, concordo, é tênue). Ok, se submeteu ao que a equipe queria como o Rubinho, mas ficou quietinho até o momento em que a coisa apertou para ele. Até aí, estava tudo certo. Além do que expôs sua segurança e a dos demais pilotos. O Rubinho deu um tapa com luva de pelica: “vejam a m….que é isso aqui. Julguem vocês mesmos”. O Nelsinho dizer que estava emocionalmente fragilizado – bem, isso pode ser utilizado como justificativa para qualquer coisa que se faz de errado, não? O Rubinho seguiu o script, mas na mesma hora mostrou o que achava disso.
    Por fim, embora o Rubinho não seja o campeão que gostaríamos que fosse, o herói que dele esperáriamos que fosse, uma coisa não se pode negar: ele é gente boa e autêntico. Siga ele no Twitter que você vai entender o que digo.
    E outra: num meio como esse, altamente competitivo e implacável a ponto de fazer um piloto bater a 200 por hora, o fato dele estar lá, nas equipes de ponta há anos e anos, nos sugere que ele não deve ser tão ruim assim como piloto e nem tão bomo assim como negociante. Só não tem o espírito de campeão.
    É isso aí!
    Grande abraço e obrigado mais uma vez por estimular a reflexão,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *