O tempo é o senhor da ingratidão – parte II

No texto anterior vimos de que maneira as pessoas avaliam os favores – tanto do lado de quem o faz quanto do de quem o recebe. Pelo estudo de Francis J. Flynn* pudemos perceber que quem faz o favor dá-lhe uma importância menor do que quem o recebe mas, com o tempo, essa relação se inverte.

O primeiro caso estudado mostrava uma pequena variação nessas percepções, talvez pelo fato de serem favores banais ou entre partes com relacionamentos pouco consistentes. Na medida em que essas relações deixam de ser irrelevantes e os favores têm mais importância, tais alterações podem ocorrer de forma mais drástica.

Cordiais com os outros; mas e entre eles?
Cordiais com os outros; mas e entre eles?

A segunda parte do estudo ilustra isso: 106 dos 128 funcionários do setor de atendimento ao cliente de uma companhia aérea, que trabalhavam no mesmo aeroporto de uma grande cidade na costa leste dos EUA, serviram como voluntários nesta variação.

Pelas regras da empresa eles podiam trocar seus turnos de oito horas entre si, sem a necessidade de qualquer tipo de aprovação formal. Um simples acordo mútuo era suficiente e bastava comunicar à gerência sobre o acerto.

Um procedimento descomplicado que permitia aos empregados uma maior mobilidade de horários, onde um deles poderia ir às suas consultas médicas, prestigiar o aniversário do primo ou sair com aquela aeromoça gata. Mas, ao mesmo tempo, a troca de horários interferia na rotina do(a) outro(a), que teria que dobrar um turno, dormir no aeroporto ou faltar à aula de Pilates. Os favores assumiam, assim, diferentes valores para cada lado envolvido, dependendo da ocasião.

Como os participantes já trabalhavam há algum tempo na empresa (média de 2,6 anos), todos já haviam vivido os dois lados da moeda e, assim, foram divididos em dois grupos: os Ajudantes (quem faz o favor) e os Ajudados (quem recebe o favor). Através de questionários eles tentavam, então, quantificar o favor trocado, isto é, atribuir uma quantia em dinheiro à gentileza.

Se a leitora se recorda do outro estudo, haverá de lembrar que parte dos voluntários registrava suas opiniões um mês depois do experimento, exatamente para verificar o efeito do tempo na sua avaliação. Neste caso, contudo, já havia um intervalo natural entre a última vez que alguém fez/recebeu um favor e o momento das entrevistas. Era possível analisar, assim, de que forma o tempo interferia nas respostas.

Outra diferença interessante nesta segunda parte do estudo é que todos podiam dar suas opiniões no mesmo momento, já que havia uma variação natural no intervalo

RESULTADOS

Novamente os estudo mostrou que os Ajudados avaliam o favor como sendo mais valioso do que os Ajudantes. Na média, ele valia US$ 47,70 para o Ajudado e US$ 20,21 para o Ajudante, numa clara e otimista confirmação da gratidão.

Contém: Gratidão. Prazo de Validade: Uma semana
Contém: Gratidão. Prazo de Validade: Uma semana

Mas quando esses valores são observados sob a perspectiva temporal, o quadro muda um pouco de figura.

O gráfico ao lado mostra a qual o valor dado por cada um (em dólares no eixo vertical) de acordo com o número de dias decorridos da prestação do favor (em dias no eixo horizontal).

Como podemos ver, quanto mais tempo passa a partir da prestação do favor, mais ele vale para quem o fez (linha vermelha) e menos para quem o recebeu (linha azul).

Ele passa a valer mais para quem o fez do que para quem o recebeu a partir do 7o dia, ou seja, o prazo de validade da gratidão – neste caso específico – é de aproximadamente uma semana.

Favores são uma parte sempre presente no nosso dia-a-dia e ajudam bastante o convívio em sociedade. Feitos ou recebidos, devem dividir-se numa proporção constante na maioria das vezes – senão alguém está sendo explorado. Embora exista uma reconhecida vontade em se retribuir o favor, esse altruísmo artificial vai adormecendo, ao mesmo tempo em que cresce, do outro lado, a certeza de que a dívida será paga.

Valeu, trouxa!
Valeu, trouxa!

Quando os lados começam a divergir sobre a importância do favor, a tendência é que a diferença aumente. Assim, para atos que não podem ser mensurados corretamente, o ideal é que se estabeleça, a priori, se virá algo em troca.

Ou então aquele seu vizinho que te ajudou a levar uma cadeira de praia da garagem até o seu apartamento, um dia vai te pedir para ajudar na mudança dele.

Sem querer, este artigo reforça os argumentos dos que criticam os Experimentos em Psicologia, pois mostra uma grande discrepância entre os dados obtidos numa versão puramente laboratorial e outros de uma situação mais real.

O problema é que você não pode usar uma tese para criticar a própria tese, senão entre numa lógica circular da qual sai sem provar nada…

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* What have you done for me lately? Temporal adjustments to favor evaluations.

À título de ilustração, 28% eram não-caucasianos, a média de idade era 32,5 anos e 83% eram mulheres. E o dia da semana relacionado com a troca de escala não influía muito na avaliação do favor, mesmo quando caía num sábado, domingo ou feriado.

4 pensamentos em “O tempo é o senhor da ingratidão – parte II”

  1. Eu sempre questionei o fato das pessoas ajudadas esquecerem um favor recebido, não dando mais o valor que havia no momento de serem ajudadas. Isso é, portanto, um padrão humano. Abraco, Rodolfo!!

  2. Rodolfo,
    Bela frase no início ou título do texto. O tempo é o senhor da ingratidão. Mesmo assim, os gratos e ingratos continuam existindo desde os primórdios, até hoje.
    Abraço
    Alex

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