Placebo: o próximo blockbuster da Indústria Farmacêutica

Para que uma nova droga seja aprovada pelas autoridades sanitárias de um país, ela deve passar por diversos testes clínicos que avaliam tanto a sua segurança quanto sua eficácia. Neste segundo quesito, os protocolos estabelecem que o medicamento deve comprovar índices de cura – ou remissão (melhora) dos sintomas – superiores ao placebo (um comprimido aparentemente igual à droga sendo testada, mas sem o princípio ativo).

6a00e554b11a2e88330120a54264e9970b-300wi Esta última etapa é feita da seguinte forma: recrutam-se voluntários que sofram da doença pesquisada e, grosso modo, metade deles toma a droga enquanto que a outra metade toma placebo*.

Esta divisão é feita de forma aleatória (randomizada) e, assim, nem o médico, nem o paciente sabem quem está tomando o quê – o que no jargão médico chama-se estudo duplo-cego. Busca-se eliminar, desta forma, o efeito psicológico da expectativa positiva de se tomar (ou prescrever) uma nova e promissora droga.

Se depois do período de testes o medicamento comprovar um efeito terapêutico significativamente superior ao do placebo, ele dá mais um passo rumo à sua aprovação.

A leitora atenta haverá de perceber que mencionei um efeito superior ao do placebo. Ora, então quer dizer que o placebo também faz efeito? Isto é, uma pílula de farinha pode curar uma doença? Sim, pode. E, ao que parece, os laboratórios estão fazendo placebos cada vez melhores!

Obviamente a frase anterior é um chiste, já que nenhum laboratório tem interesse comercial em fabricar um placebo com propriedades terapêuticas superiores aos seus produtos. Mas é o que vem ocorrendo nos estudos clínicos mais recentes, onde os índices de eficácia das novas drogas não têm mostrado tanta superioridade assim com relação à pílula de farinha.

Mas nem só as novas drogas têm padecido desse problema. Estudos de
acompanhamento, realizados com medicamentos há bastante tempo no
mercado, apontam um singular crescimento do efeito terapêutico do
placebo
, conforme aumenta o número de casos estudados. Acredita-se,
ainda, que se alguns desses testes fossem realizados hoje, muitas
dessas drogas não seriam aprovadas.

Os custos estratosféricos para o desenvolvimento de uma nova molécula – da ordem de US$ 1 bilhão, em cerca de 15 anos de pesquisa – tornaram a Indústria Farmacêutica dependente do lançamento de medicamentos revolucionários. Mas este é um risco que compensa: em 2008 as 15 drogas mais vendidas somaram US$ 58 bilhões, sendo US$ 7,8 bilhões somente do blockbuster Lipitor, da Pfizer.

E a explosão no consumo das drogas do comportamento no final da década de 1980 – especialmente com o Prozac (Eli Lilly),
em 1987 – voltou o foco da Indústria Farmacêutica para este promissor segmento. Numa sociedade que, cada vez mais, busca na farmacologia a solução para seus problemas, medicamentos que prometem resolver a depressão, as angústias e sofrimentos do mundo moderno têm um apelo irresistível.

6a00e554b11a2e88330120a5994652970c-320wi Um recente estudo das Universidades de Colúmbia e Pensilvânia mostrou que o consumo de anti-depressivos dobrou em dez anos nos EUA. Somente em 2008, 164 milhões de receitas foram prescritas nesta classe, para cerca de 27 milhões de pessoas, movimentando US$ 9,6 bilhões.

As causas deste crescimento, especula o estudo, estariam na redução do preconceito contra os diagnósticos psiquiátricos (afinal, Transtorno do Humor Bipolar é bem mais chique do que Psicose Maníaco-Depressiva), na crescente publicidade dirigida ao consumidor (o setor gastou, só nos EUA, US$ 4,3 bilhões em 2008) e, claro, nas novas drogas.

Ainda que o efeito-placebo seja identificável em diversas áreas da
medicina, parece que os distúrbios do humor são
exatamente os mais suscetíveis à sua manifestação.

Por um lado a Indústria Farmacêutica pode estar sendo vítima do seu próprio sucesso: seus cada vez mais potentes medicamentos fazem com que as pessoas acreditem ser ela capaz de tudo. Os pacientes esperam, assim, que sua panaceia cure de tudo – mesmo quando ela é representada por uma pílula de farinha.

Por outro, os diagnósticos psiquiátricos são cada vez mais amplos e abrangentes classificando, hoje, os mais leves sintomas como conseqüências preocupantes de uma desconhecida – porém perigosa – causa.

Num cenário como esse, não é de se estranhar que o poder da auto-sugestão represente, vez ou outra, uma terapia muito mais efetiva e eficaz do que a última tecnologia em química fina. Mesmo que uma bolinha colorida continue representando o necessário catalizador deste efeito.

Então a pergunta que fica é: as cura de nossos males está em nós mesmos, ou não estamos realmente tão doentes assim?

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* Alguns detalhes devem ser observados, entretanto, para que nenhum paciente com doença grave fique efetivamente sem tratamento durante este período. Uma pessoa com hipertensão não pode tomar apenas o placebo e, por isso, o teste é feito associando a droga que ela já toma àquela em teste e verifica-se, posteriormente, se este tratamento combinado é superior ao original.

Em Previsivelmente Irracional, Dan Ariely cita o caso do Dr. Leonard Cobb, que realizou uma série de cirurgias cardíacas falsas em alguns seus pacientes que, para espanto geral, tiveram índices de melhoras semelhantes aos que de fato receberam dele o tratamento padrão.

Ele relata, ainda, resultados parecidos obtidos pelo ortopedista J. B. Mosley que, em 1993, tratou metade dos seus 180 pacientes com osteoartrite simulando procedimentos de artroscopia e registrando níveis de melhora iguais aos que efetivamente passaram pelo procedimento.

Ainda assim, acredita-se que doenças como a depressão estejam subdiagnosticadas e, conseqüentemente, subtratadas. Um estudo de 2003 estima que esta doença cause prejuízos da ordem de US$ 83 bilhões nos EUA, dos quais US$ 52 bilhões seriam devidos ao absenteísmo e à perda de produtividade.

Uma recente estimativa da Organização Mundial de Saúde prevê que a Depressão será a doença mais comum daqui a 20 anos.

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