Previsões previsíveis

Ribéry escapando (por pouco) do azar
Ribéry escapando (por pouco) do azar

Recentemente li no Freakonomics um texto do Stephen J. Dubner, onde ele fala da influência das contusões dos atletas nos resultados do futebol americano. O articulista cita um texto de Bill Barnwell, que por sua vez explica um sistema criado pelo Football Ousiders para avaliar o custo de uma contusão para o time. Vários aspectos são considerados neste cálculo, como a importância do atleta para o time, seu histórico de feitos pela equipe e o impacto de lesões similares em situações parecidas.

Isto posto, Barnwell conclui que as contusões (ou a ausência delas) representam um dos fatores de maior influência no sucesso das equipes. A contribuição de Dubner nessa história é associar a ocorrência de lesões ao azar (ou a falta de lesões à sorte).

Resulta, portanto, que um time muitíssimo bem preparado, com os melhores jogadores e o melhor esquema de jogo, pode ter o azar de perder seus atletas para o departamento médico e, assim, ter um desempenho pífio. Puro azar.

Do mesmo modo, um time mediano pode manter seus jogadores atuando juntos em todos os jogos do campeonato e atingir, assim, resultados exepcionais, dado o seu entrosamento (os técnicos não vivem reclamando que não conseguem repetir a escalação do seu time?)*. Pura sorte.

Num texto recente onde abordei a forma errônea como abraçamos algumas causas, citei os modelos climáticos e suas imperfeições. Dentre os diversos fatores que influenciam o clima, alguns têm pesos muito maiores do que os outros, desequilibrando completamente a equação.

Erupção vulcânica fotografada por um satélite
Erupção vulcânica fotografada por um satélite

A erupção de um vulcão, por exemplo, pode causar um impacto muito maior na atmosfera do que todas as fábricas do mundo operando 24 horas.

Uma maior proximidade entre a Terra e o Sol – ou uma alteração na emissão de calor deste – pode ser mais devastador do que desmatar toda a Amazônia.

E ambas as situações são completamente imprevisíveis para nós, no atual estado de desenvolvimento da nossa ciência.

Isto significa dizer que em alguns sistemas há fatores que podem ser razoavelmente previstos; mas existem outros completamente aleatórios que representam, justamente, os de maior influência no resultado final.

A equipe de TI da Reuters achava arriscado deixar todos os seus arquivos de imagem na Torre I do World Trade Center. Então puseram um backup na Torre II. Seria cômico não fosse trágico, mas quem poderia prever um ataque terrorista daqueles? E alguém apostaria que a Argentina ganharia a Copa de 1986 se o Maradona tivesse, digamos, pisado num prego enferrujado na piscina do hotel?

Não há um antídoto aqui. Isto é o que chamamos imperfeição do método. A vida é assim e pronto. Precisamos, pois, aprender a conviver com isso. Ter a consciência de que o modelo é falho e existe algo que pode avacalhar completamente todas as nossas previsões.

"Eu vejo o futuro repetir o passado."
“Eu vejo o futuro repetir o passado.”

Talvez não devamos, então, perder tanto tempo em fazer caprichadíssimas previsões com várias casas decimais. Em algumas situações, torna-se mais importante ter consciência de fatores aleatórios que, ainda que improváveis, possam exercer influência devastadora no futuro que tentamos vislumbrar – para pior ou para melhor.

Estar ciente da possibilidade de variações abruptas e suas conseqüências, além de preparar-se de alguma forma para elas, pode representar uma estratégia mais segura que a própria previsão em si.

Caso contrário, suas previsões correm o risco de não serem mais eficientes do que interpretar uma borra do café, o jogo de búzios ou alguma outra bizarrice. Porque algumas previsões realmente não têm nenhum futuro…

__________

* Não podemos esquecer que são análises feitas com relação ao futebol americano. Algumas adaptações são necessárias para que as conclusões sejam transportadas para o nosso futebol bretão. Mas isso eu deixarei para a sessão de comentários…

8 pensamentos em “Previsões previsíveis”

  1. Bicho!
    essas teorias da imprevisibilidade e da “infância” da ciência mudaram minha vida…
    tem um documentário muito bom , recomendo vc ver, sobre a questão do efeito estufa ser causado pelo SOL e não por nós humanos ou as pobres vaquinhas (os ecochatos-vegetarianos odeiam as vaquinhas, eu adoro hamburguer!!!)


    A GRANDE FARSA DO AQUECIMENTO GLOBAL…não é teoria da conspiração , são vários cientistas (de verdade)explicando o aquecimento da Terra.
    veja e me diga o que achou!

  2. Olá Rodolfo. Sempre leio seus excelentes posts, porém, desta vez gostaria de fazer algumas observações. Com relação aos vulcões:
    – Existem cerca de 20 vulcões em erupção atualmente
    – Entre 50 e 70 vulcões entram em erupção todos os anos
    – 280 vulcões entraram em erupção desde 1964
    – Há registros históricos de 560 vulcões
    Fonte: Programa de Vulcanismo Global do Instituto Smithsonian, EUA
    280 Erupções contra 16425 dias das industrias em 45 anos. Isso me mostra que vulcões são muito mais destrutivos, entretanto mais raros, uma erupção vulcânica, em média, aumenta a temperatura do planeta em 1 grau por um certo período de tempo. Imagine então o poder acelerador de aquecimento das industrias neste contexto. Lembrando que quanto maior a concentração de dióxido de carbono na atmosfera maior a retenção de calor, já que uma noite não é mais suficiente para resfriar tais elementos. É fato que nós interferimos em um ciclo complexo de aquecimento e resfriamento só não sabemos ainda o quanto isso esta sendo prejudicial.

  3. Olá Rodrigo, obrigado pela visita e pelo comentário!
    Acho que estamos de acordo com relação à imprevisibilidade das erupções vulcânicas e os seus enormes efeitos no clima. E este é o tema central do texto, mostrando o tamanho da influência de fatores aleatórios frente àqueles que podem ser previstos.
    Mas você me deixou com uma dúvida: as erupções vulcânicas aumentam ou diminuem a temperatura? O relatório que citei menciona a emissão de gases sulfurosos, que têm o efeito de baixar a temperatura, na medida em que refletem a luz solar, impedindo a sua chegada à Terra. Você tem alguma fonte que fale sobre isso?
    Desde já agradeço, Rodolfo.

  4. Me perdoe pela falha, realmente, as emissões de uma erupção diminuem a temperatura e não como eu havia comentado.
    Eu fiz uma relação entre erupções e fábricas como se ambas situações tivessem uma mesma consequencia, me perdoe pela falha.
    Mas para bem, meu erro me possibilitou conhecer um pouco mais você, a quem considero um dos melhores blogueiros brasileiros.
    Abraço e sucesso!

  5. Rodolfo, eu concordo (também acho que estando aqui ou não, o homem não teve impacto relevante na temperatura do planeta!) e (meio que em linha com o seu ‘líder acidental’) acredito que o mesmo se aplica a carreiras profissionais*. Concordas?
    * Claro que se precisa de sorte, mas o trabalho é parte fundamental e básica (como diria, acredito eu, Da Vinci, ‘a inspiração é importante, mas se ela te pegar dormindo, não vais pintar nada!’)
    Abraços
    Serpa

  6. Sem dúvida que isso também vale para a carreira, Serpa. O Malcolm Gladwell abordou isso muito bem em “Outliers, the story of success” http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2008/11/outliers-malcolm-gladwell.html.
    Às vezes não adianta você ser o cara mais bem preparado se não tiver oportunidades ou uma boa formação humanista (Chris Langan, o homem com o maior QI já registrado até hoje foi operário e poorteiro de boate).
    Abraço, Rodolfo.

  7. E pegando carona no post de cima. Uma ajuda para quem não tem nada é extremamente significativa. Eu acho precipitado falar contra bolsas concedidas por governos, não é só o Brasil que faz isso, porque na verdade ninguém deveria receber bolsa nenhuma então. Quer estudar ou pesquisar algum tema relevante, “se vira mano”, como dizem os adolescentes que trabalham desde antes dos quatorze anos e não fazem a menor idéia do que é a “lei do Aprendiz”. Vamos com calma, todos nós, em nossa onipotência, ela já derrubou tipos bem mais brilhantes e importantes que, todos nós, de alturas bem maiores do que podemos imaginar. A Ciência não exata, a Vida não é exata, as Carreiras profissionais não são exatas. Eu sei, todos nós já sabemos isso. Oh, diga algo novo! Não digo, digo algo que também já sabemos, não dá para viver ignorando os outros, não dá para pensar que tudo é fácil, ou que todos aguentam da mesma forma as pressões e as tragédias, alguns precisam sim de ajuda, não me importo de trabalhar para que pessoas recebam o bolsa família, alguns precisam de incentivo porque são geniais e eu não sou, mas são humanos e eu sou humana. Porque alguns moram para além da casa “do caramba” e não conseguem, não podem, não tem recursos de energia para chegar aonde possam ser incentivados a fazer progredir a espécie toda com suas descobertas ou seu trabalho.
    Alguns serão cientistas do clima se puderem estudar e encontrar professores que os incentivem, alguns serão capazes de fazer o conhecimento humano avançar de verdade em direção à um estado para “além da teoria de Malthus”, alguns serão juristas realmente justos, e encontrarão formas de desencavar nossas “questõezinhas” e fazer avançar a Justiça Verdadeira. Agora, não vou meter a colher no âmbito do “cara que rala” tentando entender como funciona o planeta para nos alertar da vidazinha irresponsável que construímos. É cedo demais para chamar de “farsa do aquecimento global” o que pode não estar aquecendo o planeta, mas que colocou todo mundo que não é um réptil para pensar na sua maneira irresponsáel de tratar o meio ambiente. Esse mérito é inquestionável, todo mundo que não é um idiota está revendo seus conceitos e pensando sobre poluição, sobre modelo de sucesso, sobre consumo e por aí vai. “Farsa” é muito forte, mas o melhor já foi feito, não somos os mesmos de vinte anos atrás, é claro aqueles que são humanos, né. Nossa espécie está em um movimento de reflexão sobre a civilização na qual vivemos e isso é espetacular. Farsa é que vive aquele que acha que o sofrimento do outros não interessa. Que “um talento, uma criança, uma vida, uma possibilidade que se perde nos confins da Ásia, da América, da África, vítima da fome, da violência, do ambandono pelo sistema da sua família, não o afeta em nada, não o diminui em sua humanidade. Aliás, talvez não diminua mesmo porque ele já abriu mão de fazer parte da Humanidade. Mas, eu pergunto: quem vai segurar sua mão se for necessário?
    Grande abraço
    Rodolfo

  8. Querida Luiza Helena,
    a questão da Farsa se refere ao aquecimento global encabeçado pelo homem.
    veja o vídeo e tire suas conclusões.
    Essa farsa levada à diante pelos Eco-chatos-de-esquerda-e-que-fazem-xixi-no-banho atende à agenda deles de ser contra os países industrializados – “capitalistas”.(o engraçado é que ninguém pega no pé da China).
    não há correlação entre o aumento de poluição (o que é ruim e eu concordo..não gosto de poluição…sou alérgico) e o aquecimento global.
    Não há provas e talvez nunca haja…
    leia o post anterior de Rodolfo ou veja os vídeos.
    à propósito…vc tem carro?
    Té mais!

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