Uma mentira conveniente

6a00e554b11a2e88330148c6b99628970c-200wi Termino o ótimo Unscientific America: How Scientific Illiteracy Threatens our Future (Basic Books, 2009) e logo assalta-me a necessidade de trazer à tona alguns de seus temas.

Basicamente, Chris Mooney e Sheril Kirshenbaum discorrem sobre os perigos decorrentes do (cada vez maior) distanciamento entre a ciência e a população leiga em geral. Afirmam que não se trata, contudo, de um problema educacional, mas de desinteresse mútuo entre Academia, Sociedade e Governo.

Citando casos reais, desde a inútil celeuma pública causada pelo rebaixamento do ex-planeta Plutão até o pouco apego de Hollywood a algumas verdades básicas, os exemplos escancaram os efeitos práticos de uma população cada vez menos instruída.

As consequências disso estão o tempo todo nos jornais, nos blogs e sendo tuitados a todo instante. Só que exatamente pelo nosso desconhecimento, pela nossa incapacidade em entender alguns conceitos científicos básicos, nenhum de nós percebe que somos levados a conclusões erradas, decisões incorretas, engajamentos incoerentes.

Do aquecimento global aos alimentos transgênicos, da gripe suína (ou aviária) ao pré-sal, das células-tronco à crise financeira, tudo tem um fundamento teórico que nenhum de nós domina com segurança. E, no entanto, discutimos apaixonadamente sobre cada um desses temas, apoiamos este ou aquele político que abraça uma causa, decidimos nossas vidas. Fazemos tudo isso, porém, baseados em convicções erradas, argumentos mal-formulados e meias-verdades que, no final das contas, compõem mentiras inteiras.

Para ilustrar esta preocupação, recorro a um tema caro a todos nós: as alterações climáticas e suas influências no meio-ambiente. Um relatório do Instituto Marshall (uma ONG americana “fundada em 1984 e dedicada a fomentar e preservar a integridade da ciência no processo político”) sobre Questões Climáticas (PDF) oferece algumas explicações científicas, baseada nos atuais consensos mundiais.

O que este mapa diz, de verdade?
O que este mapa diz, de verdade?

No final do texto, faço um relato um pouco mais detalhado sobre os pontos mais relevantes – baseado no documento citado acima – que lembrará um pouco as aulas de Química, Física e Biologia do colégio. Mas para não cansar a apressada leitora, ofereço minhas conclusões antecipadamente:

Grosso modo, os diversos fatores que influenciam o clima – como emissões de gases, correntes marítimas, radiação solar e erupções vulcânicas – envolvem várias disciplinas, como astronomia, geologia e meteorologia e interagem numa complicadíssima equação, sobre a qual a Ciência ainda não chegou a um consenso.

Os atuais modelos matemáticos que buscam explicar os fenômenos climáticos – como o próprio aquecimento global, o El Niño ou as tempestades tropicais – ainda não têm a robustez necessária para conclusões definitivas.

Além disso, os fatores que mais parecem afetar o clima – como os ciclos solares, as erupções vulcânicas e a influência da Lua nas correntes maritimas – não sofrem qualquer ação do homem.

Partindo de um modelo impreciso, portanto, qualquer conclusão que dele se tire será imprecisa também, mesmo que os dados estejam corretos – o que também não é o caso, tal como mostra a recente retificação feita pela NASA a respeito das temperaturas médias registradas pela agência no início do século XXI.

Um relatório recente do Plano Estratégico do Programa Científico de Mudanças Climáticas do governo dos EUA afirma que “os modelos climáticos americanos falham em simular adequadamente diversos processos climáticos e seus feedbacks“.

As alarmantes alterações climáticas exploradas pela mídia baseiam-se em três prerrogativas básicas:

1. Nenhuma atitude será tomada para controlar a emissão de gases – o que é falso;

2. A emissão de gases em 2100 será cinco vezes maior do que é hoje – o que é falso; e

3. O sistema climático é altamente sensível ao aumento da quantidade de gases desencadeadores do Efeito Estufa – o que também é falso.

Ainda assim, muitas dessas conclusões são exploradas pela mídia, em apocalípticas profecias de destruição global. Motivados por obscuros interesses – ou ignorância mesmo – políticos e outras figuras públicas aproveitam-se da ingênua fé alheia em modismos cíclicos, revezando-se na promoção da tragédia anunciada da vez.

Previsão ou ameaça?
Previsão ou ameaça?

Um deles ganhou, inclusive, um Prêmio Nobel apenas com apresentações de Power Point, divulgando falácias num documentário que inspirou o título deste post.

Tais movimentos, além de apoiarem-se em inverdades, acabam jogando uma cortina de fumaça em temas até relevantes, mas com uma abordagem que impede um direcionamento positivo da sociedade.

Kevin Roberts resumiu preocupação semelhante em sua recente palestra no Fórum Mundial de Marketing e Vendas, realizado em agosto último pela HSM. Apresentando a campanha Xixi no Banho, ele mostrou que pequenos gestos abraçados pela maioria resultam muito mais eficazes do que grandes atos encabeçados por uma minoria.

Isso exemplifica como pessoas com as mesmas aspirações acabam separadas por uma perniciosa pitada de fanatismo. O ecologista radical espanta o cidadão mais conservador; o macrobiótico xiita assusta o indivíduo moderado; o humanitário militante afasta a pessoa bem-intencionada.

O resultado disso é que muitas das reais necessidades da sociedade acabam se perdendo em debates vazios, distantes das reais causas e consequências dos problemas mais urgentes. Assim como repassamos impressionados os emails sobre os gatinhos bonsai ou a leptospirose nas latas de refrigerantes, repetimos outras falácias que ouvimos sem submetê-las a qualquer crivo de bom-senso.

As informações a seguir são uma pequena amostra de um desses temas, onde o distanciamento entre Ciência e Sociedade nos leva a assumir posições equivocadas. Uma sociedade mal-informada toma decisões erradas e, por extensão, acaba votando errado também.

O que efetivamente sabemos sobre as alterações climáticas?

Efeito Estufa: é a retenção do calor irradiado pela Terra, por gases presentes na atmosfera. O mais importante destes gases é o vapor d’água, cuja concentração varia de acordo com a temperatura e umidade do ambiente. Tais gases têm origem tanto natural quanto através das atividades humanas – como a poluição dos carros, por exemplo. Dada a complexidade do sistema climático, não há uma estimativa precisa sobre a influência das emissões de gases decorrentes das atividades humanas no Efeito Estufa.

CO2: é o gás mais emitido pelo homem mas que, mesmo assim, representa apenas 0,01% da composição da atmosfera. Sua concentração variou muito desde a pré-história, mas manteve-se constante em 280 ppm (partes por milhão) por um milênio, até 1750*. Crescendo desde então, atingiu 379 ppm em 2005.

Isso realmente esquenta a Terra?
Isso realmente esquenta a Terra?

Todas as emissões deste gás durante um ano, representam uma fração infinitesimal da quantidade total existente: 1,8 ppm ou 0,5%. Isso significa que, no ritmo atual, tal concentração levará 140 anos para dobrar e estima-se que o efeito disso seja um aumento de 1,2oC na temperatura média da Terra.

O Instituto Marshall questiona, ainda, até que ponto o ciclo do carbono é compreendido de modo a fornecer indícios precisos sobre sua influência no clima. Os oceanos têm uma enorme capacidade “ociosa” de absorção de CO2 (através da formação de íons carbonato, aumentando ligeiramente sua acidez e fornecendo matéria-prima para a formação de conchas).

Embora não se saiba até que ponto a natureza consegue absorver o carbono emitido pela atividade humana, a expectativa é que até 2100 os níveis de CO2 extra que podem se acumular na atmosfera varia entre 20 e 224 ppm, ilustrando o alto nível de incerteza dos atuais modelos climáticos.

Aquecimento Global: a temperatura da Terra é calculada através de uma média ponderada entre as leituras das milhares de estações meteorológicas espalhadas pelo mundo. A margem de erro deste processo é estimada entre 0,2-0,3oC. Recentemente a NASA verificou um equívoco nas suas medições e anunciou uma correção das médias de temperatura apuradas nos EUA entre 2000 e 2006, da ordem de 0,15oC. Juntos, estes erros podem representar entre 1/3 e metade de todo o aumento da temperatura média da Terra ocorrido nos últimos 100 anos.

Além disso, considerar a temperatura média como sinalizador de mudanças climáticas é questionável, na medida em que ela não diz nada sobre mudanças locais ou regionais – que seriam as responsáveis por impactos no clima.

CO2 e Aquecimento Global: durante o século XX as concentrações de CO2 na atmosfera aumentaram de forma constante, mas a temperatura da Terra, por sua vez, não acompanhou a mesma tendência. Não há um aumento substancial desta média desde 1998, ainda que as concentrações de CO2 continuem subindo – o que mostra que não há uma correlação direta entre a emissão de de CO2 e a variação da temperatura.

Variação da temperatura da Terra nos últimos 150 anos
Variação da temperatura da Terra nos últimos 150 anos

Como se vê no gráfico ao lado, a média aumentou entre 1910 e 1940, caiu entre 1940 e 1975 e voltou a subir até o final do século passado. Os especialistas em medições climáticas avaliam que o aquecimento na primeira metade do século XX deveu-se a variações na atividade solar e erupções vulcânicas.

O Sol: o Sol fornece a energia que alimenta o sistema climático da Terra. Medições de satélite verificaram que há uma variação na radiação solar que nos alcança, que muda em ciclos de 11 anos (o atual termina em 2010 e acredita-se que o próximo seja bem mais ameno).

A intensidade do calor recebido também oscila de acordo com os movimentos de rotação e translação do nosso planeta, que varia em intervalos de 100.000 anos – o que não explica as alterações de pequena escala, mas podem ter sido responsáveis pela última Era do Gelo (não o filme, mas a período glacial mesmo). Recentes pesquisas sugerem que tais mudanças podem ter sido responsáveis por um mínimo de 10-30% do aquecimento global registrado entre 1980 e 2002.

Modelos Climáticos: o sistema climático é composto de uma miríade de fatores interdependentes envolvendo energia solar, nuvens, partículas suspensas, vapor d’água e outros gases, além do equilíbrio entre a absorção e a reflexão da radiação solar na superfície da Terra (e, claro, o voo daquela insignificante borboleta lá no Vietnã). Apesar de a interação entre cada um desses fatores ser conhecida, os detalhes precisos são incertos e não há, até o momento, um modelo que represente corretamente todos eles.

A grande fonte de energia do sistema climático
A grande fonte de energia do sistema climático

Com relação ao calor fornecido pelo sol, sabe-se que nem toda irradiação solar chega à Terra. Cerca de 1/3 delas são bloqueadas pelas nuvens e outras partículas suspensas na atmosfera. Os 2/3 restantes podem ser refletidos pelas superfícies claras (como o branquíssimo gelo dos pólos) ou absorvidos pelo solo (daí a causa de o desmatamento provocar o aquecimento).

Ocorre que a irradiação solar vem na forma de ondas curtas, que conseguem atravessar as nuvens e os gases da atmosfera (em 1992 a erupção do Monte Pinatubo aumentou sensívelmente a presença de gases sulfurosos na atmosfera, causando a queda da temperatura média global em 0,5oC – efeito que perdurou por três anos).

Mas quando ele é refletido de volta pela superfície da Terra, assume a forma de ondas longas, que são absorvidas pelo vapor d’água e os outros gases presentes na atmosfera, impedindo a sua saída e gerando o Efeito Estufa.

Um terceiro fator são as partículas suspensas na atmosfera. Alguns gases, como os sultatos, refletem a luz solar resultando num efeito de esfriamento da terra. Já partículas negras de carbono resultantes das queimas de combustíveis absorvem o calor e têm um efeito de aquecimento.

Finalmente, as maiores limitações aos modelos climáticos estão no entendimento do clima Tropical e das alterações verticais de temperatura (conforme varia a altitude). Assim, matematicamente as mudanças climáticas seguem um padrão caótico de oscilação – ou seja, complexo e não-linear – o que limita enormemente a sua previsibilidade.

Nível dos Oceanos: não há evidências científicas de que os níveis dos oceanos possam subir significativamente neste século. Há duas formas de eles oscilarem:

– derretimento das calotas polares e da Groenlândia

– expansão do volume dos oceanos devido ao aumento da sua temperatura.

Aumento do nível do mar: fenômeno meteorológico ou geológico?
Aumento do nível do mar: fenômeno meteorológico ou geológico?

Esta variação também ocorre de acordo com as oscilações geológicas que acontecem no fundo do mar e nas costas. As regiões polares são muito secas e, portanto, seu aquecimento é improvável.

Ainda assim, num eventual aquecimento, haveria a concentração de umidade, o que resultaria em neve e, conseqüentemente, mais gelo – e não menos gelo.

A elevação da linha d’água durante o século XX foi de 17 centímetros, o que projeta algo entre 18-59 centímetros até 2100.

Fatores Desconhecidos: diversos elementos ainda não têm sua real influência no clima efetivamente conhecidos. As correntes oceânicas são um ilustrativo exemplo, na medida em que se sabe que armazenam mais de 90% de toda energia do sistema climático, embora sua dinâmica ainda seja desconhecida.

Alguns cientistas acreditam que seus movimentos são determinados pela temperatura e salinidade da água. Outros creem na influência das marés que, por sua vez, são diretamente determinadas pela energia gravitacional da Lua que, aos poucos, distancia-se da Terra.

Componentes importantes do sistema climático exibem comportamento errático, como o El Niño e as correntes maritimas do Atlântico Norte.

ATUALIZAÇÃO (18/09/2009): veja o post do meu amigo Balu sobre o tema: Imposto Verde.

__________

* Tais medições são possíveis através da perfuração do gelo dos polos formado há centenas de milhares de anos a partir do acúmulo de neve em blocos que, por sua vez, formavam pequenas bolhas de ar, guardando um valioso registro das condições atmosféricas da época.

4 pensamentos em “Uma mentira conveniente”

  1. Oi, Rodolfo!
    Mais uma vez você fala com muita inteligência sobre um tema que me interessa muito.
    A facilidade das informações encontradas na internet acaba criando “especialistas”. Falsos especialistas, que propagam mentiras.
    Parabéns pelo texto! E mais uma vez, obrigada pelo e-mail, viu?

  2. Previsões previsíveis

    Ribéry escapando (por pouco) do azar Recentemente li no Freakonomics um texto do Stephen J. Dubner, onde ele fala da influência das contusões dos atletas nos resultados do futebol americano. O articulista cita um texto de Bill Barnwell, que por…

  3. Fórum Mundial de Marketing e Vendas – Kevin Roberts

    (Read this post in English – Translated by Google) A convite do Leandro Vieira, do Administradores, fui fazer a cobertura do Fórum Mundial de Marketing & Vendas, um evento da HSM. Uma excelente oportunidade para rever importantes conceitos, bem como…

  4. Muito, mas muito interessante o texto. São palavras pautadas em fatos e dados concretos.
    Contudo, não posso assumir uma posição por não ter embasamento em qualquer das duas vertentes. Mas, independente da justificativa ser científica ou baseada em “supostas” afirmações, acredito que o consumismo desenfreado e a falta de educação sobre a consciência de se gastar somente o necessário (e sempre que possível, repor o que foi gasto ao planeta) devem ser combatidos.
    Mesmo que as “profecías” não se confirmem, é fato que o ser humano de 2010 não tem bons hábitos de vida e que, se ele não afeta o futuro do ambiente em que vive, afeta com absoluta certeza a sua saúde, bem estar, convívio com os demais e principalmente sua paz espiritual.
    Acredito que o importante é observarmos e questionarmos nossas ações individuais, independente do argumento que terceiros nos propoe. Isso nos coloca no caminho da evolução.

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