Celebridades em campanha pró-agiotagem

Um programa da GloboNews agora há pouco discutia as estratégias do consumidor para fugir das dívidas. Como sempre, o debate girou em torno do descontrole a que as pessoas são levadas a partir das compras parceladas e dos juros abusivos. Uma conversinha mole com dicas tão batidas quanto inúteis.

Independentemente do canal ou do especialista, ninguém tem coragem para abordar as faces mais negras deste problema: a farra da concessão de crédito, a forma criminosa como isso é oferecido ao público e o irresponsável apelo ao consumo de supérfluos.

Al Pacino, como o usurário de "O mercador de Veneza"
Al Pacino, como o usurário de “O mercador de Veneza”

Problemas como o alcoolismo e a dependência às drogas são combatidos na oferta, uma vez que a demanda envolve problemas menos controláveis. Perseguem-se os traficantes de drogas e proibem-se os anúncios de bebidas ou sua venda a menores de idade.

Mas os anúncios de empréstimos pessoais, as mentirosas promoções de parcelamento com juros extorsivos e os excessivamente apelativos incentivos ao consumo de supérfluos permanecem seduzindo os futuros endividados.

Tempos atrás, a Fernanda Torres fazia um anúncio do Banco Santander, junto com o Selton Mello, no qual ela era mãe do pobre Paulinho, um menino muito triste porque suas festinhas de aniversário eram muito sem graça. Então ela fazia um empréstimo no banco para realizar o sonho do garoto.

A cena seguinte mostrava a criança feliz da vida com aquele sublime momento festivo, sem saber que sua comemoração marcaria a derrocada financeira da sua família. E certamente a festinha do ano seguinte seria bem mais triste do que todas as anteriores. Um apelo cruel, senão criminoso.

6a00e554b11a2e88330120a5f3f493970c-300wiNoutra ocasião, uma desavisada pegava um empréstimo para pagar a mensalidade da faculdade da filha. Provavelmente esquecendo-se que mensalidade, como o nome diz, tem todo mês. Um gesto nobre, sem dúvida, camuflando uma inescapável armadilha.

Não sei se a Fernanda Torres fez esse anúncio porque precisava de dinheiro para pagar alguma dívida cabeluda – particularmente espero que sim – mas deixei de admirá-la depois disso. Assim como também não gosto mais da Nicete Bruno, seu marido Paulo Goulart, Hebe Camargo e outros que já receberam 30 dinheiros de agiotas por suas imagens.

Das duas uma: ou esses atores não sabem fazer conta, ou concordam em deliberadamente induzir seus desavisados fãs ao erro, desde que recebam bem por esse desserviço. Como as contas envolvidas são muito fáceis, fico com a segunda opção e vejo, neste caso, má-fé dos artistas.

Se essas atitudes são consideradas normais pelo governo e pelos órgãos reguladores – tanto de finanças quanto de publicidade -, então não vejo mal em anúncios de bebidas no programa da Xuxa, ou de cigarros, em qualquer horário.

Outra coisa são os supérfluos, cujo símbolo máximo é o celular. Uma vez tive uma colega de trabalho que vivia endividada, sem dinheiro para nada, mas trocava seu aparelho a cada dois meses. Eu, que ganhava pelo menos o dobro dela, vivia feliz da vida com o meu telefone que já havia feito aniversário – sem festinha do Paulinho. Seu aparelho era de último tipo, mas ela me ligava a cobrar porque não tinha créditos.

6a00e554b11a2e88330120a59d373f970bRecentemente a ANVISA proibiu os anúncios de medicamentos com personalidades dando testemunhais, mas as celebridades continuam incentivando a população a contrair dívidas escravizantes.

Por que o Pelé não pode mais falar do Vitasay (antigo isso, hein?), mas a Nincete Bruno pode candidamente aconselhar aposentados a entregar suas carteiras a um agiota?

Se há um órgão que zela pela saúde pública (ainda que aos trancos e barrancos), cadê o que cuida da saúde financeira pública? Ou será que o lobby dos bancos e dos agiotas institucionalizados é mais forte?

O interessante “Trama Internacional” (The International, 2009) revela o lado negro por trás de organizações desse tipo. Numa negociação que envolvia a venda de armas para uma republiqueta africana em guerra civil, um banqueiro sai-se com a seguinte explicação:

“O objetivo não é controlar o conflito, mas a dívida que o conflito produz. Veja bem, o valor real da guerra, o verdadeiro valor, está na dívida que ela cria. Se você controla a dívida, você controla tudo. Você acha isso desolador, não é? Mas essa é a verdadeira essência da indústria bancária: fazer de todos nós, nações ou indivíduos, escravos da dívida.”

Se esta é a real dinâmica da trama, então as celebridades da agiotagem vêm representado ótimos feitores.

17 pensamentos em “Celebridades em campanha pró-agiotagem”

  1. muito bom o texto…
    mas o mundo real (o banco também) é assim…
    o jogo é :
    “quem deve a quem…
    ou
    como vc usa suas dívidas?”

  2. Rodolfo,
    Mais uma vez, você foi fundo. Parabéns!
    Uma vez eu ouvi de um grande economista: “dívida não se paga, se administra”. Esse é o pensamento corrente, infelizmente. Que termina em falências pessoais ou em grandes crises mundiais.
    Acho que a chave da questão está, como sempre, na educação. Educar nossas crianças e jovens para reconhecerem as armadilhas do estímulo ao consumo desenfreado, que implica não só no que você abordou no seu texto, mas também no desgaste dos recursos naturais do planeta. Consumir de forma consciente faz bem ao indivíduo e à coletividade.
    Quanto a mim, adoto a máxima: “não é quanto você ganha, mas quanto você gasta, que faz a diferença”. Ou seja, o gasto tem que ser sempre menor do que o rendimento. Parece simples…mas não é!

  3. Lembrando ainda que para a contração da dívida, via de regra, se observa o valor mensal comprometido e não o valor total.
    Não importa se a TV custa R$ 30.000.000,00 a prazo se podemos dividir em 1000 prestações de R$ 30,00, não é?
    Lidar com dinheiro é difícil mesmo e carece de aprendizado e de disseminação de conhecimentos.
    Ótima abrodagem Rodolfo!

  4. Já tinha me atentado ao poder massacrante da mídia… Inclusive me perguntando seriamente do que aquilo acarretava nas pessoas…
    Mas chocado fiquei quando assisti dois documentários, um americano, consuming kids e outro brasileiro criança, a alma do negócio.
    Ambos mostram o desenvolvimento infantil pautado no consumo. Basta dizer que destroça o ser humano e a velha frase do “ter, para ser” é uma conclusão lógica.
    Os filmes se limitam ao impacto negativo nas crianças, contudo o problema não se restringe só a ela. A facilidade do crédito quase fez que os natais daqui fossem mais pobres do que os pobres natais anteriores. Mas eu sempre fui contra qualquer tipo de emprestimo, inclusive no financiamento, taxas estorsivas, parece ser fácil pagar e depois você tá no fundo do posso, preso.
    Esse raciocínio escapuliu-me no primeiro ano de faculdade, numa palestra, no qual hoje eu vejo mais sentido e até fundamentação.
    Voltando ao tema das crianças, fica minha recomendação para que você, Rodolfo, aprecie sem nenhuma moderação, pois os dados contidos são bastante esclarecedores.
    Inclusive, eu fiz parte da infância que começa a ser influênciada na decáda de 90, o que hoje eu não faria para “ser, por ter”, eu reconheci traços ditos nos documentários como minha experiência de vida. Não é vazio dizer que isso me trouxe mais preocupação do poder da mídia.
    continue com o ótimo trabalho

  5. Os documentários que eu citei fala exclusivamente de um pequeno universo: crianças de 0-12 anos. Imagine os efeitos nos adolescentes competitivos?
    O homem só é macho se tiver tal coisa
    A mulher só é desejável se tiver tal coisa
    Precisamos de mídia de qualidade…

  6. Concordo com suas palavras, dear.
    Empréstimos pessoais e adjacentes são uma ida ao universo da dívida “bola de neve” pra nunca mais voltar.

  7. Consumismo, imediatismo e status. Integrando esse tema “Pró-agiotagem” com o “Auto-ajuda ou auto-atrapalha” poderia dizer que a humanidade está doente e um conjunto de mercenários está aproveitando dessa doença para fazer caixa. Trabalho em uma empresa com 840 funcionários e afirmo com veemência que, aproximadamente, 35 funcionários utilizam transporte público para trabalhar. Vários deles ainda não se formaram, trabalham no nível hierárquico mais baixo possível e ainda não possuem patrimônio ou investimentos. Muitos, inclusive, nem fazem uma faculdade ou pensam em se especializar no futuro. Mas já tem carros. Financiados.
    A ansiedade em querer tudo rápido, mostrar eficiência diante da sociedade, o bombardeio de estímulo ao consumo, a ignorância do homem em querer se destacar com coisas materiais e a incapacidade de pensar no longo prazo e na sustentabilidade o induz a tomar atitudes desesperadoras.
    Ele acha que auto-ajuda o enquadra como um conhecedor da vida e do que se deve fazer para ser bem sucedido. O comércio diz para ele que ele deve “ter” para “ser”. Os grupos sociais o criticam por tomar medidas diferentes da multidão e o rotulam como um ignorante.
    É muita pressão! A humanidade está doente. Não consegue lidar com o nível de informações em sua volta e não percebe que deve observar de forma crítica aquilo que chega até ele.
    É preocupante!

  8. Ótimo texto, Rodolfo!
    Estava precisando falar com vc. Teria como vc, por favor, me mandar uma mensagem pra esse e-mail registrado para o comentário?
    Desde já agradeço e te dou os parabéns pelo site.
    Abs,
    Daniel

  9. Excelente texto. Não me lembro o autor, mas ele entendia a “Pós-Modernidade” como a era da dívida. A citação do banqueiro, no fim do texto, vai abraçar essa teoria.
    O controle do corpo, o corpo dócil agora é modelado pela dívida. Não será mais preciso outra forma de coerção. O homem, cada vez mais, daqui pra frente será escravo das dívidas…

  10. É preciso lembrar que quem se individa… não necessáriamente é uma vítima como muitos citaram aqui…
    e o que eles ganham em troca da dívida? carros novos, celulares de última geração etc, etc… não tenho muita pena não…
    EXCETO aquelas velhinhas que saõ enganadas pelas propagantas de emprétimos pessoais e os netos se aproveitam pra comprar celular, tênis etc…(aliás, acho que o texto fala disso, de pessoas incautas e ignorantes)
    existe também os que se endividam para construir algo que renda dinheiro , isso se chama empreendedorismo.. ou vcs acham que empresário poupa pra depois construir a empresa?
    alguêm tá precisando de um empréstimo aí? cobro juros baratinhos!

  11. Bolha que estoura lá, estoura cá

    Tenho acompanhado um curioso e preocupante movimento migratório no Rio de Janeiro, através de familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos: com a disparada nos preços dos aluguéis, muita gente está deixando a Zona Sul e indo para outras regiões da ci…

  12. Existe a dívida boa e a dívida ruim. A boa, como já citaram, é aquela em que você pega o dinheiro e o investe em uma empresa ou financia um projeto, que possui a possibilidade de sucesso e nesse processo pode gerar empregos.
    Mas infelizmente, a maioria das pessoas prefere a dívida ruim, fazendo a festa dos agiotas e inescrupulosos. O engraçado dessa história é que no capitalismo atual todos querem ficar ricos, mas só aqueles que poupam, não cedem aos impulsos consumistas e estudam pesado como investir seu rico dinheirinho, fruto de trabalho duro, é que de fato conseguem se tornar ricos.
    Com isso da para perceber que o sistema é muito mais complexo do que parece, é não se resume mais a teorias sociais de explorado/explorador em papeis fixos.O explorador de hoje pode se tornar o explorado de amanhã.
    O outro lado da moeda é que não só os emprestadores ganham. Boa parte do lucro dos empréstimos (legalizados) vai para os cofres públicos, em forma de impostos, aí cabe ao governo distribuir e aplicar corretamente esses recursos, o que infelizmente está longe de acontecer no nosso país.

  13. quem está por trás do governo da midia e de toda a podridão desse sistema são as sociedades secretas nossos representantes são fantoches da maçonaria americana e inglesa uma associação de charlatãos especialistas em intrigas politicas infelimente os baixos graus são enganados pelos altos uma entidade pilantrópica que em seus altos escaloões predomina de acordo com as palavras de albert pike a doutrina luciferiana estão por tras da onu tb dai esse pndh3 cheio de conteudo absurdo que visa lesar o cidadão de bem

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