A casca de banana de 2016

Não dá para evitar o tombo?
Não dá para evitar o tombo?

Uma antiga piada conta que um português, ao ver uma casca de banana lá adiante, pensou: “Ai, meu Deus, lá vou eu me ferrar novamente…”. Além de ser um panaca – pois não consegue preparar-se adequadamente para enfrentar um obstáculo insignificante –  o personagem da anedota é, antes de tudo, um pessimista – já que antevê para si o pior resultado possível.

As reações negativas, que temos visto recentemente por ocasião da escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, assemelham-se muito ao caso do escorregante lusitano: ele já lamenta antes mesmo de cair. Já conta, de antemão, com sua secular incapacidade.

Confesso que, de início, também eu era contra um evento dessa magnitude aqui, em virtude das vergonhas orçamentárias descaradamente praticadas durante o PAN 2007 – que, a bem da verdade, não resultaram em punição alguma. Estamos, porém, a seis anos e meio do evento. Começar a pensar, desde já, que a bandidagem vai rolar solta na ocasião – tanto no Rio de Janeiro quanto em Brasília – e que, principalmente, não podemos fazer nada contra isso é muito derrotismo!

Se nossos atletas são capazes de vencer americanos, chineses e europeus nas pistas, quadras e piscinas, como é que nossos políticos perdem para os do Kuwait, Namíbia e Botswana*? Claro que, em ambos os casos, contamos grandes especialistas em suas modalidades. O que leva tempo.

Não está na hora de parar de (apenas) rir dessas coisas?
Não está na hora de parar de (apenas) rir dessas coisas?

Pois a sociedade tem tempo de sobra para se organizar em torno de entidades que realmente fiscalizem as contas e atestem, por conseguinte, a lisura das despesas. Ou não. O tempo está a nosso favor, também, para criarmos e implementarmos políticas de segurança realmente eficazes, de forma a eliminar o estado bélico em que vivemos.

Só que, antes de tudo, é preciso mudar essa cabecinha pessimista terceiro-mundista atrás da qual sempre nos escondemos, quando a ocasião sugere. Para de reclamar e achar que vai dar errado antes mesmo de tentar. Ou a única diferença entre nós e o português da piada será a casca de banana, pois sequer precisamos dela para cair.

É preciso reconhecer, assim, que talvez essa seja a nossa última chance de provarmos ao mundo que, definitivamente, somos uma nação capaz de feitos grandiosos e não apenas um carnavalesco e avacalhado povo abaixo do Equador.

Do contrário, corremos o risco de confirmar ao mundo que realmente não passamos de uma piada de português.

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* Segundo o último ranking de corrupção publicado pela Transparência Internacional.

4 pensamentos em “A casca de banana de 2016”

  1. Sei não Rodolfo… Acredito sim que iremos fazer uma olimpíadas bonita. Sem nenhum esportista tomando bala perdida, e torço para que nenhum seja assaltado tb e leve um recibo (de tão organizado que o crime tá no Brasil).
    Pode ser tb que temos tempo de sobra, mas será mesmo que vamos ligar para fiscalizar isso? E sei tb que há tempo de políticas de segurança realmente eficazes, mas acho q nem o Rudolph Giuliani em pessoa daria conta. Depende de muito mais coisas e muito mais tempo, na minha opinião, para implementar políticas dessas e surgirem o efeito desejado. Digo isso dando o exemplo do nosso sistema ser corrupto, e nossa nação não ter confiança. Isso é um grande obstáculos que precisaremos antes resolver.
    Então acho que sim, as olimpíadas sairá bonita (não sou como o pessimista lusitano), mas muito mas através de “acordos” com o crime, que políticas para a solução do problema.
    Abraços

  2. Dia Rodolfo,
    Depois de ter recebido 2,537 ‘parabens pelas Olimpíadas no Brasil’ dos colegas aqui de Basel, e depois de ficar explicando que ‘não me parabenize, me deseje sorte …’, cheguei a uma conclusão sobre o povo brasileiro.
    Só temos uma culpa (um problema) na verdade! Que é exatamente “tudo é culpa dos outros”.
    O mal do brasileiro é a falta de ‘ownership’/ ‘accountability’ (estou anglicista hoje, de novo), tudo atribuimos a outros. É hora de parar de botar a culpa no outro (ou em nós mesmos) e passar a resolver o problema. O problema está aí, não importa quem o inventou/ criou.
    Abraços quase brasileiros novamente
    Serpa

  3. Muito pertinente o artigo. Acho que a escolha das Olimpíadas no Rio é motivo de comemoração para o Brasil, e em especial para a cidade do RJ, que foi abandonada desde a mudança da capital federal para Brasília, e agora tem condições de se reerguer com os investimentos que serão feitos na cidade. É a chance de ouro da cidade. Nenhuma cidade continuou a mesma depois que teve a oportunidade de sediar uma Olimpíada, todas se transformaram para melhor, mesmo aquelas que consideradas com problemas.
    Se poderá haver problemas, se há suspeitas de que algo pode dar errado, que se faça algo desde já para que tudo dê certo qdo for chegada a hora. O que não pode é ficar estagnado, conformado e reclamando da vida. Acho que stamos caminhando bem, com vontade política de fazer as coisas acontecerem e com várias comissões de fiscalização já formadas para evitar desperdício de dinheiro..que se continue assim e que cada um faça seu papel.
    Eu acredito no sucesso das Olimpíadas e na transformação da cidade em virtude dos investimentos feitos na cidade. Mas acho tb que devemos ficar de olho para fiscalizar e cobrar atitudes dos administradores para que isso realmente ocorra.

  4. Boa Rodolfo, concordo 100% com seu texto. Acho que a escolha do Rio 2016 tem um simbolismo importante. É a segunda vez na história que as Olimpíadas vão para um país que não é rico sob o aspecto de renda per capita e distribuição de renda (a primeira vez foi, claro, a China).
    Acho também que há tempo para arrumar a casa e é talvez uma chance única para o próprio RJ se resolver, embora não quero ser ingênuo a ponto de achar que mesmo sendo sucesso o Rio virará uma espécie de Vancouver tropical… O Pan foi feito sem grande alarde; as Olimpíadas estão na mídia nacional e internacional, acho que a governança será melhor.
    Veremos, mas sou otimista.
    Abraço,
    Marcelo

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