As infames entrelinhas do novo Fox

Publicitários insistem em querer usar humor em suas peças resultando, volta e meia, em propagandas de extremo mau gosto. Recentemente citei a campanha do Fiat Stillo Blackmotion que, com um viés inteiramente machista, colocava o carro como a derradeira arma para a sedução da mulher interesseira, trocando de parceiro conforme seu automóvel.

Independentemente de isso acontecer de fato, o problema que vejo é a associação de uma marca a um comportamento no mínimo duvidoso. Problema do anunciante, claro, pois a ele cabe decidir se quer ver a imagem do seu produto atrelada a algum tipo de vício social. Para alguns só importa mesmo vender.

Mas a face mais perversa dessa prática talvez seja o fato de as pessoas não se darem conta dos conceitos morais equivocados por trás de tais mensagens. Em vários textos anteriores já deixei claro que não sou nenhum moralista. Quem me acompanha há mais tempo já tem certeza disso. Por isso tenho a convicção de que não estou exagerando.

A recém-lançada campanha do novo Fox baseia-se no fato de que a pessoa quando o vê esquece tudo o mais – inclusive seus problemas – e passa tão-somente a admirar o automóvel. Uma idéia excelente, reconheço, mas com uma execução desastrosa. Por exemplo:

Ao ver o carro, um senhor de idade deixa de preocupar-se com a fidelidade da mulher que tem sido sua esposa por cinquenta anos e que, a julgar pelo desfecho, aprontou alguma. Há também a versão do paciente que não se lembra do motivo de ter voltado ao médico – mesmo tendo ficado com uma ridícula voz por causa de um tratamento equivocado – como podemos ver abaixo:

 

 

Ainda que o caso da infidelidade pareça menos grave – afinal, as pessoas dão cada vez menos valor a isso e acham graça na traição, desde que não seja do(a) seu(ua) próprio(a) parceiro(a) – considero o do médico bem mais sério. Se eu fosse médico, estaria me sentindo ofendido com esse gracejo. O carro (estacionado dentro do consultório) é usado como subterfúgio para distrair o paciente e, assim, ocultar seu erro ou incompetência. Será que o Conselho Federal de Medicina pensa diferente?

Claro que a criatividade, a liberdade de expressão e a licença poética são elementos fundamentais para a atividade publicitária e o marketing, num sentido mais amplo. Mas eles não podem passar por cima de conceitos morais básicos nem avacalhar a credibilidade de uma classe profissional.

Apenas para reforçar o que digo, outros dois exemplos me ocorrem: a avozinha que censura a neta por usar Havaianas num restaurante chique, mas incentiva-a a tentar transar com o galã de TV – só pelo sexo; e a avó que prende a neta num suéter sem gola para roubar-lhe seus Bis Avelã. Aliás, a julgar pelos exemplos, passarei a tomar muito cuidado com as senhorinhas com mais de setenta anos.

Curiosamente há um outro lado da moeda: quanto mais sucesso os anúncios fizerem, mais a imagem do novo Fox corre o risco de ficar associada a mulheres infiéis e médicos incompetentes. Se isso acontecer, de fato, e os responsáveis pela campanha perderem seus empregos, tudo bem. Basta entrar num novo Fox que tudo passa…

LEIA TAMBÉM: para não ficar a impressão que só critico os publicitários (afinal, sou um deles), veja como é possível usar a Criatividade sem apelação.

4 pensamentos em “As infames entrelinhas do novo Fox”

  1. Rodolfo, achei interessante seu ponto de vista. Mas você não acha que hoje em dia estamos sendo muito criteriosos com o famoso politicamente correto ? Não se pode fazer mais nada,se criar mais nada.Sempre tem um porém.
    Como você mesmo disse “a criatividade, a liberdade de expressão e a licença poética são elementos fundamentais para a atividade publicitária e o marketing, num sentido mais amplo. Mas eles não podem passar por cima de conceitos morais básicos nem avacalhar a credibilidade de uma classe profissional”…
    É só abrir o jornal e você verá a quantidade de erros médicos que acontecem.É bonito isso ? Claro que não,mas é a realidade. Sou adepto do tradicional bom humor do brasileiro que diz “o brasileiro ri de tudo, até de desgraça”, o que também não considero bonito, mas é melhor assim do que reclamar de tudo ou achar MAIS problema em tudo.
    Não deveria era haver erro médico…não deveria haver safadeza,malandragem…deveria haver mais respeito pela vida alheia. Aí sim tenho certeza que não existiriam comerciais explorando esse tipo de situações,pois elas simplesmente não existiriam e não seriam estímulos de criatividade.
    Acho que nesses casos o deboche se torna uma forma de protesto.Se o médico se sentir ofendido, ele que vá brigar para que os irresponsáveis colegas sejam punidos e parem de cometer tantos erros médicos que colocam uma classe toda em descrédito.
    É minha forma, talvez nem tão certa, de pensar. Mas que me gera menos problemas, pois prefiro rir de tudo isso. Não das situações reais, mas sim de como estão sendo abordadas pela mídia.
    Mas valeu pelo texto, mais uma vez excelente.
    abçs

  2. Sim, A7, seus argumentos são muito bons na defesa de uma vida mais relaxada e salpicada de bom humor. Faz bem a todos, sem dúvida. E sem dúvida também a publicidade pode fazer a sua parte. A brasileira, aliás, é uma das melhores do mundo.
    Mas o que eu considero prejudicial – e esse é o ponto do texto – é banalizar comportamentos tais situações. Se começarmos a rir dos erros médicos, daqui a pouco vamos achá-los normais. Hoje ninguém mais se espanta em ver uma arma desembainhada, um fuzil passeando na rua, um corpo estendido no chão.
    No mais, parece que estamos de acordo…
    Grande abraço, Rodolfo.

  3. Oi, Rodolfo,
    Texto, como sempre, muito bem escrito e fundamentado! Concordo com você, existe um limite entre o bom humor e o deboche. Falta criatividade e também trabalho de pesquisa nesses comerciais, especialmente naqueles que usam a figura feminina. Afinal, pesquisas indicam que a mulher é a grande influenciadora na decisão da compra, mesmo quando o carro não é dela.
    (não resisto a postar um link do administradores http://www.administradores.com.br/artigos/a_venda_de_carros_entrevista_com_reporter_ronaldo_albanese_da_editora_abril/32065/)
    Adoro o comercial que você postou no texto Criatividade Sem Apelação.
    E gosto muito do Ford Fusion, também:


    beijo

  4. Ford Fusion is getting a lot of respect. It’s hybrid version is North America car of the year and the full Fusion line is Motor Trend’s car of the year. With Toyota’s reputation and resale value taking a beating, this will shine some light on Ford, GM, & Hyundai’s new products. Pretty soon the Accord and Altima will be fighting off the Sonata for sales.

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