A farsa de Copenhague III – Quem paga a conta da lorota?

No texto anterior apresentei alguns indícios de que se o problema das alterações climáticas realmente existe, ele é bem diferente daquilo que pregam os bispos da Igreja Universal da Proteção Ambiental. Reforçando ainda mais a analogia entre os ecologistas xiitas e uma fanática seita religiosa, veremos agora aquela que talvez seja a maior semelhança entre ambas.

Para os que imaginam que vou falar da salvação da raça humana, lamento, mas estou falando é de dinheiro mesmo.

Antes de mais nada, existem três falhas básicas nos argumentos ambientalistas que pregam a adoção de sacrificantes medidas pró-preservação. Como destacam os autores do SuperFreakonomics, os atuais  esforços para a melhor proteção do meio-ambiente são:

Plantação de cata-ventos: bonitinho, mas insuficiente
Plantação de cata-ventos: bonitinho, mas insuficiente

.: Muito tímidos: o somatório de todas soluções propostas até o momento não produzirão nenhum efeito prático no clima no longo prazo.

Energia eólica, solar e as demais formas não poluentes são bonitinhas, mas não alcançam escala suficiente para os atuais padrões de consumo. Carros elétricos estão na moda e deixam seus donos bem na foto, mas a questão do transporte é irrisória dentro da necessidade energética.

A energia gerada pelas usinas termoelétricas é tão barata, que a sua substituição é economicamente inviável – especialmente nos países em acelerado processo de industrialização/desenvolvimento. Adotar fontes alternativas ao carvão ou outros combustíveis fósseis demandaria tanta energia que, no fim, a conta seria negativa e, portanto, o tiro sairia pela culatra.

.: Muito tardios: a meia-vida do dióxido de carbono presente na atmosfera é de aproximadamente cem anos chegando, em alguns casos, a um milênio. Mesmo que todas as nações do mundo concordassem em zerar suas emissões de CO2 – o que o encontro de Copenhague revelou inalcançável – o efeito prático disso seria nulo.

.: Muito otimistas: a maior parte das soluções apresentadas como boas não são tão boas assim e, em alguns casos, pioram o cenário.

Células foto-elétricas - ou um enorme microondas?
Células foto-elétricas – ou um enorme microondas?

As células de captação de energia solar, por exemplo, transformam em eletricidade apenas 12% do que é absorvido. O resto é dissipado sob a forma de calor – pois elas são pretas – e acabam por esquentar ainda mais a Terra. Fabricar células fotoelétricas suficientes para abastecer todo o planeta levaria entre 30 e 50 anos e consumiria tanta energia que criaria um déficit energético gigantesco – além de transformar a Terra num forno.

O que temos aqui é a remota possibilidade de alguns desastres naturais no futuro. Esperar que as pessoas concordem em pagar hoje o preço por algo que pode ou não acontecer daqui a várias décadas, provavelmente noutra geração, constitui um inglório exercício de fé na humanidade. E, especialmente, acreditar em algo que jamais aconteceu antes.

Todos nós sabemos que atitudes pessoais devemos adotar para melhorarmos nossa saúde. Parar de fumar, ter uma alimentação mais equilibrada ou fazer mais exercícios está na lista daquilo que sabidamente nos faz bem, mas que sempre deixamos de lado. Como então esperar que tenhamos um comportamento semelhante, mas que diluirá os benefícios com seis sete bilhões de co-inquilinos, nem todos com a mesma disposição que nós?

Como acreditar que uma pessoa que usa o carro para ir na esquina comprar pão, negligenciando a própria saúde, vai deixar de usá-lo para evitar o aquecimento global?

Em situações como essas, as leis sempre parecem uma boa opção certo? Mas por que, então, leis que comprovadamente previnem algumas moléstias sociais causam tanta polêmica, desobediência e contrariedade? Que espécie de sociedade faz twitter anti-Lei Seca e busca liminares contra a Lei Anti-Fumo espera que seus indivíduos abracem um espírito altruísta da noite para o dia?

A incômoda verdade é que entre saber e fazer há uma distância abissal – especialmente quando o assunto envolve pequenos prazeres e grandes preguiças.

Old habits die hard
Old habits die hard

Não tenho a intenção de parecer um pessimista fatalista com estas perguntas, mas a verdade é que não é nada fácil mudar hábitos coletivos. Vamos considerar outro exemplo bem simples: o teclado onde digito esse texto. No século retrasado, quando inventaram as máquinas de escrever, as hastes que batiam a fita no papel costumavam se embaralhar umas nas outras, emperrando todo o mecanismo.

Para evitar isso, os fabricantes criaram uma disposição de teclas toda própria, que dificultava a datilografia.

Se você não acredita nisso, então pense num bom motivo para que as letras mais usadas  – A, S, E e D – estejam do lado esquerdo, ao alcance dos seus habilidosos dedos mindinho, anelar e médio. Para quem não é canhoto como eu, isso realmente parece um contrassenso.

Mas ao contrário dos teclados QWERTY, os que adotam o padrão Dvorak dispõem suas teclas da maneira mais compatível com os idiomas ocidentais, facilitando enormemente a tarefa e diminuindo o tempo necessário para digitar um texto. E por que, então, os teclados Dvorak ainda não são o padrão usual? Ótima pergunta! Porque não é fácil mudar uma enorme base de usuários e ninguém quer abrir mão daquilo que já adquiriu ou conquistou (habilidade, conhecimento).

Outro problema é que emissões de gases do efeito estufa, aquecimento global e aumento dos níveis dos oceanos não respeitam fronteiras políticas. O CO2 que sai do cano de um automóvel nos EUA viaja até a Suécia, onde se encontra com as partículas expelidas pelas usinas de carvão da China. A decisão de reduzir, por livre e espontânea vontade, as emissões de gases incorre numa série de custosas adaptações tecnológicas, ou ainda restrições às atividades econômicas. Tal escolha representa, portanto, gigantescos custos para o país que decide abraçar a causa.

A poluição globalizada
A poluição globalizada

Os benefícios de um projeto como este – se é que existem – carregarão consigo um enorme custo de oportunidade e de implementação. Quem o adota tem que ter plena consciência sobre o quê está em jogo.

Além disso, esse é um jogo em que todos devem participar, senão o pioneiro paga caro. Imagine, por exemplo, que o Brasil resolva reduzir sua produção de álcool em 10%, por causa da poluição e desgaste ambiental gerados. O primeiro e imediato efeito é o aumento do preço, não só do combustível mas também do açúcar e todos os seus outros derivados.

O segundo efeito é que algum outro país que boicote o acordo vai produzir essa quantidade, já que a demanda por álcool não se alterou. Esse malvado vai produzir, então, o que nós bondosa e inocentemente resolvemos deixar de lado. Ficará com 100% do lucro da operação, mas com apenas uma pequeníssima parte da poluição resultante.

Há muito que os estudiosos da economia comportamental descobriram que “as pessoas estão, geralmente, pouco inclinadas a gastar dinheiro para prevenir um problema futuro, especialmente quando a sua ocorrência é incerta”1.

Mas o que acho mais curioso nesse movimento pedindo um milagroso acordo em Copenhague é a forma como os países de Terceiro Mundo estão caridosamente dispostos a pagar o preço do desenvolvimento do Primeiro.

Amistad: a escravidão construindo nações ricas. Sempre.
Amistad: a escravidão construindo nações ricas. Sempre.

As nações mais ricas do planeta – especialmente as européias – destruíram florestas e outros recursos naturais ao redor do mundo – sejam suas próprias ou de suas ex-colônias – e construíram impérios em torno da exploração daquilo que era mais valioso em cada ciclo econômico, seja vegetal (cana, especiarias etc.), mineral (ouro, prata, diamantes) ou animal (escravos).

Agora posam de defensores do mundo, tendo construído sua prosperidade através da degradação daquilo que hoje convidam a preservar. Subiram ao topo do mundo e, no momento em que estamos chegando perto, preparam um belo chute na nossa escada.

Antes que a leitora torça o nariz para minhas aparentemente raivosas afirmações, permita-me desenvolver um pouco mais o tema. A maioria das propostas dos ambientalistas seria prejudicial aos países em desenvolvimento.

Quando você apóia a redução da emissão de CO2 (que, como já mostrei, não fará a menor diferença no clima da Terra) está inapelavelmente condenando o Brasil ao subdesenvolvimento. Isso significa manter não sei quantos milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza – o que corresponde, em última análise, a dar preferência aos ursos pandas e micos-leões que você nunca viu mais peludos na vida.

Minha Amazônia ideal: uma enorme plantação de soja
Minha Amazônia ideal: uma enorme plantação de soja

Depois da infalível pergunta sobre se seus filhos usam fraldas descartáveis ou de pano, gosto de provocar meus amigos ambientalistas-de-Veja-e-Fantástico dizendo a eles que prefiro a Amazônia como uma enorme plantação de soja a assinar um tratado ambientalista. Antes do protocolo de Kyoto, quero ver o Pantanal comido por bois e vacas, a Ilha de Marajó tomada de búfalos e degustar deliciosos sashimis de golfinho. E o Brasil rico.

Claro que essa é uma imagem chocante e radicalíssima, mas o mundo era exatamente assim sob o domínio europeu alguns séculos atrás. A atual divisão econômica e política mundial construiu-se assim.

Em última análise, sou sim um defensor da natureza. Desde que os países ricos paguem a conta. Não nós. Mas isso não está na pauta. O que importa, sempre, é sair bem na foto. Só que essa foto eu não publico no meu blog.

__________

1. (…) people are generally unwilling to spend a lot of money to avert a future problem, especially when its likelihood is so uncertain (SuperFreakonomics).

11 pensamentos em “A farsa de Copenhague III – Quem paga a conta da lorota?”

  1. Bom texto, compartilho da mesma opinião que você.
    O que mais me impressiona sobre essa questão de aquecimento global e pseudo-ecologia é a facilidade com que a grande massa é manipulada pelos veículos de comunicação, e como ninguém percebe isso…
    Afinal, o que vende mais jornal: dizer que o mundo vai acabar se não reduzirmos as emissões de CO2 ou dizer que as ações humanas têm pouca realação com as mudanças climáticas?

  2. Concordo que o Brasil não deve pagar sozinho a conta do planeta inteiro. Contudo, acho que devemos tratar de mudar nosso padrão de comportamento e de consumo. Sei que isso é difícil, mas é exatamente isso o que estão fazendo as multinacionais. Elas não conseguiram criar em nós o hábito de fumar? Não conseguiram alterar o nosso modo de fazer café, do coador de pano ao de papel? As redes de fast foods não tem enorme influência em nosso hábito alimentar? As redes de relacionamento não mudaram nossos hábitos ao enviarmos Scraps ao invés de cartões de natal. Como é que essas multinacionais conseguem mudar a humanidade para ganhar dinheiro, mas não conseguem mudar nada para diminuir a violência ou o aquecimento global? Continuo achando que o problema é o sistema econômico. Afinal, não é o sistema que define o vencedor? Pois é. Enquanto uns lucram, outros têm prejuízos. Se uns lucram muito, é porque muitos tiveram grandes prejuízos. A natureza, essa só perde. Até quando?

  3. Difícil encontrar pessoas que “botam o pau na mesa” na hora de discutir assuntos até então blindados e intocáveis como é o caso do aquecimento global. Fiquei feliz de encontrar na net algo que não seja hipócrita e nem político. Parabéns pelo blog! 100% realista.

  4. Caro Rodolfo
    Acompanhei esta série, e o admiro pelo trabalho formidável de pesquisa e pela clareza dos argumentos. Continuarei bebendo nesta fonte para conhecer melhor este “outro lado”. Entretanto, quero confessar que, com todas as dúvidas – que pretendo compartilhar com outros – e, independentemente de quem está cientificamente correto, certo, vejo o movimento anti-carbono como uma missão que pode unir a Humanidade em direção a um propósito comum. Também acredito que, independentemente da fundamentação científica, esse movimento já está sinalizando um novo ciclo longo de desenvolvimento schumpeteriano. Talvez estejamos em lados opostos nas ações que essas crenças implicarão. Mas continuo na admiração.
    Veja aqui um exemplo do tipo de mudança comportamental coletiva que vem ocorrendo no bojo dessa transformação:
    http://www.barrfoundation.org/usr_doc/Boston_GHBN_Case_Study_2008.pdf
    Gostaria de conhecer seu pensamento crítico (mesmo que ácido) a respeito disso.
    Um abraço
    Sérgio Storch
    http://www.sergiostorch.com

  5. olá!
    não adianta se indignar… todos só irão acreditar quando o Fantástico disser que o aquecimento global acabou.
    Eu já cansei de explicar… agora cansei…
    e tenho mais frases pra vc usar:
    – Acimentar a Amazônia pra fazer um grande estacionamento.
    – Deixa o aquecimento acontecer pra gente comer carne de urso branco assada.
    – Neo-malthusiano-eco-chato-que-faz-xixi-no-banho.
    – Usar o gelo da calota polar pro meu “uísque” antes que ela derreta.
    – Comprar uma fazenda no Alaska a preços módicos , esperar derreter o gelo e vender bem mais caro.
    etc…
    Só discordo de vc no que concerne aos que perpetuam essa mentira… acho realmente que não são os “países ricos” , mas, os marxistas de plantão que mentem de todas as formas para ver o “esfriamento” do capitalismo… por isso a gente vê os ambientalistas criticando tão duramente os EUA. A China agora é vítima…kkk
    Bush estava certo e parece que Obama concorda com ele.
    Só os desinformados ouvem as bravatas de Lula e Dilma.
    um abraço!

  6. Ótima série, principalmente porque provoca o pensamento crítico tão em falta nas grandes massas de manobra.
    Gostaria de saber sua opinião sobre o produto plástico, que é a bola da vez da mídia e dos governantes nacionais.
    Na minha, tenho pesquisado o assunto e encontrei informações de que o aditivo “D2W” exigido legalmente por alguns municípios e considerado como solução para a degradação do plástico, apenas fragmenta o produto em micro partículas. Tal efeito, entendo que seja extremamente prejudicial uma vez que impossibilita a retirada do material do ambiente, apenas camuflando-o.
    Outra questão refere-se à proibição da adoção das sacolas plásticas pelos supermercados. Se a população não tiver sacolas plásticas, consumirá sacos de lixo… e aí que diferença teremos?
    Existe ainda o problema da lavagem das sacolas de pano. Ninguém pensou que o produto usado na higienização das “ecobags” segue para os rios e também prejudica a vida aquática, mesmo que o produto utilizado seja biodegradável (que leva pelo menos 180 dias para se decompor).
    Sobre a longevidade do plástico, soube que, se submetido às mesmas condições nos lixões (pressão e ausência de oxigênio e luz solar) o papel também leva séculos para se decompor. Entretanto, essa característica deve ser vista como benéfica, uma vez que, por se manter integralmente por longos períodos de tempo, não corre o risco de poluir o solo ou lençóis freáticos, podendo ser retirado do ambiente a qualquer tempo (e reciclado).

  7. Meu caro Rodolfo, sou contador – não sou ambientalista, na minha visão não há devedor se credor. Minha cidade qui no interior de MG, quando eu tinha 20 anos de idade, tinha 35 mil habitantes, hoje está com 150 mil.
    Vamos fazer umas continhas? Pois bem, uma pessoa defeca +/- uns 300 gr de escremento humano por dia. Então é só fazer a contabilidade: 150 mil x 0,300 = 45.000 Kg de cocô diariamente no pobre Rio Verde.
    Esse pobre Rio Verde (que de verde só tem o nome)passa em +/- 5 cidades do porte da minha. É só fazer a contabilidade.
    Não tem mais peixes nesses rios, em nenhum rio (Verde, Sapucaí, Grande) Até a represa de Furnas está se transformando num esgoto a céu aberto.
    Acrescente ao escremento humano todo o esgoto doméstico e das empresas. Tempere com os defensivos agrícolas e os fertilizantes.
    Eu, como já disse, não sou ambientelista, mas sei fazer contas e fazer uma projeção (orçamento) do resultado disso.
    Na verdade, nem precisamos viajar até Copenhage, eu estou com 54 anos de idade. Mas, meus filhos e netos vão precisar fazer alguma coisa.
    Fábio Carvalho

  8. @Fábio Luiz de Carvalho
    Prezado Fábio,
    Como é comum em conversas entre seres humanos, chegamos ao ponto em que o desejo de ter o melhor argumento leva-nos ao radicalismo ideológico. O objeto dessa série de artigos foi somente o aquecimento global. Outras questões relativas à preservação ambiental jamais estiveram na pauta. Não é um radical anti-ambientalista que aqui escreve. É apenas alguém que se incomoda com a irracionalidade em um ponto bem específico, mas com muitos holofotes, da discussão.
    Dito isso, o seu argumento é perfeitamente racional dentro do seu assunto. Apenas não se contrapõe nada dito no texto. E eu concordo com a preocupação com essas pequenas questões ambientais, de lógica mais simples e relações causa-consequencia mais compreensiveis. Controle de dejetos e modelos agropecuários sustentáveis a longo prazo e de baixo impacto ambiental são ações simples e de custo econômico baixo. E não poluir rios, oceanos, o solo, ou manter em bom estado a terra que usamos para a agricultura ou pastoreio são objetivos com benefícios óbvios, e justificáveis por si sós.
    Meu pai tem uma pequena fazenda onde ele realiza o pastoreio racional voisin. É uma forma de estruturação da pecuária que preserva o solo, as gramíneas, elimina pouquíssimo CO2, etc. O custo não é mais alto que o da pecuária realizada nas propriedades vizinhas, e é perfeitamente possível em larga escala.
    Estações de tratamento de água são meramente o que se espera de uma sociedade organizada. Se eu não me engano, a copasa (MG) cobra um taxa para lidar com os esgotos. Então é uma questão de pressionar políticos e os órgãos competentes para que o serviço seja instalado.
    A grande relação entre o aquecimento global e o que eu e você discutimos, é que o primeiro recebe toda a atenção, deixando as iniciativas ecológicas menores, para as quais há soluções simples e viáveis, em segundo plano. É o show atrapalhando o que deve realmente ser feito.

  9. A farsa de Copenhague II – Por que o ambientalista é pior do que eu?

    Afirmei, no texto anterior, que boa parte do que se diz sobre o aquecimento global está errado. Já fui muito contestado por meus amigos por causa disso, mas nenhum deles – absolutamente nenhum – apresentou fatos que mostrassem que estou…

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