Meus filmes da década

Como cinéfilo assumido, encontrei minha maneira de declarar oficialmente encerrada a década 2000-2009: fiz minha mui pessoal seleção daqueles que considero os melhores filmes do período. A metodologia não poderia ter sido mais simples: pelo site do IMDb (International Movies Data Base), avaliava os 100 filmes mais votados em cada ano e selecionava meus favoritos.

Dos quase vinte escolhidos na primeira peneira, separei os dez que comento abaixo como aqueles de que mais gostei. Revendo a lista, salta-me aos olhos a quantidade de ótimos filmes produzidos no ano 2000.

Talvez a leitora estranhe um pouco o meu gosto, com filmes um pouco fora do circuitão tradicional, bem como a ausência dos seus queridinhos. Mas fique à vontade para discordar (ou não) nos comentários. Diga-me quais estão faltando e aponte os que estão sobrando.

10. Os treze dias que abalaram o mundo (2000) faz uma cuidadosa reconstrução (com alguns toques de ficção) dos eventos desencadeados pela colocação dos mísseis russos em Cuba, na década de 1960. Bruce Greenwood faz um introspectivo John F. Kennedy, ladeado por um espetacular Steven Culp como Robert Kennedy.

Bob e John Kenneddy, com o penetra Kevin Costner
Bob e John Kenneddy, com o penetra Kevin Costner

É um filme para ser visto com calma, absorvendo cada lição de Gerenciamento de Conflitos, Negociação e Teoria dos Jogos. Numa cena antológica, enquanto decidem o que fazer, Bob Kennedy diz que “[n]ós temos um monte de caras espertos. Vamos trancá-los numa sala e pressioná-los até que saiam com uma solução!”1 Maravilha de estratégia, não?

Ficção ou não, é muito interessante ver como a ideia do embargo econômico à ilha de Fidel foi recebida com desconfiança, especialmente pelos militares, sempre babando para ir à guerra e forçando a barra para que JFK dê o sinal. Destaca-se, ainda, Robert McNamara (vivido pelo sombrio Dylan Baker), o secretário de defesa, outro afoito para um desfecho bélico do caso.

9. O primeiro milhão (2000) é um filme sem muita pretensão, meio caricato até. Boiler Room mostra o dia-a-dia de uma corretora de valores fantasma. Mas há muito o que se tirar daqui, a começar pelas lições dadas ao jovem corretor recém-chegado, assim que ele decide fechar o cassino clandestino que gerenciava em seu próprio apartamento.

Da primeira palestra do sempre canastrão Ben Affleck, às improváveis aulas de telemarketing dadas por ninguém menos que Vin Diesel, o filme vale pelo passeio dado por um jovem Giovanni Ribisi, no dilema moral entre ficar milionário ou arruinar a vida dos seus investidores e destroçar a carreira do pai – juiz de direito. Este, vivido aliás pelo severo Ron Rifkin, divide a mais forte e emocionante cena do filme, onde seu filho implora por seu amor.

Fosse um casal hetero, o filme seria tão bom?
Fosse um casal hetero, o filme seria tão bom?

8. O segredo de Brokeback Mountain (2005) seria algo como um Pontes de Madison gay. Com impressionantes atuações de Jake Gyllenhaal e o saudoso Heath Ledger, Ang Lee conta a improvável história de amor entre dois caubóis – símbolos máximos da macheza e masculinidade americanas.

Quando essa virilidade toda sai pela culatra (sem trocadilho), os dois encontram-se aprisionados em suas vidas, ao mesmo tempo em que não esquecem do que viveram em Brokeback.

No decorrer do filme, ambos tomam caminhos distintos, sendo que um alcança um bom padrão de vida (Jack/Gyllenhaal), enquanto que o outro (Ennis/Ledger) batalha para pagar as contas. Numa comovente cena, Ennis põe em Jack a culpa por viver sempre em dificuldades, mas Jack a nega: “Eu não fiz nada com a sua vida. Você é que fez”.

7. Morte no funeral (2007) é a única comédia da minha lista, mas garanto que o gênero está muito bem representado. Dirigido por Frank Oz (por causa desse texto descobri que é ele quem faz o Yoda nas versões recentes de Guerra nas Estrelas, além de vários personagens dos Muppets e Vila Sésamo), o filme é uma pérola do humor negro inglês, onde uma aristocrática família descobre, durante o enterro do seu patriarca, que ele era gay. Não bastasse isso, o amante-viúvo comparece à cerimônia com o intuito de chantagear os órfãos. Ah, sim, o tal amante é anão, digo, verticalmente prejudicado…

As mais assombrosas estórias de vingança
As mais assombrosas estórias de vingança

Mesmo sendo o filho do meio, foi através de Oldboy que a obra deste sul-coreano chegou ao Brasil. Uma espetacular trama de vingança maquiavelicamente articulada por alguma mente má-intencionada. Este é um daqueles filmes inquietantes, perturbadores e muito bem acompanhado por seus irmãos.6. A trilogia da vingança Sympathy for Mr. Vengeance (2002), Oldboy (2003) e Sympathy for Lady Vengeance (2005). Se a vingança é um prato que se come frio, Chan-wook Park é um banqueteiro e tanto, servindo suas refeições diretamente do freezer.

5. Snatch (2000) marca, ao mesmo tempo, a maturidade e o declínio de Guy Ritchie. Pouco depois do surpreendente Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, o diretor inglês mostrou que também sabe trabalhar com gente grande e escalou Brad Pitt para encarnar o cigano boa-praça Mickey.

Porcos e Diamantes – subtítulo do filme – tem talvez os personagens mais caricatos do gênero gangsters e a maior concentração de maldade por quilo de bandido. A cena em que o sádico Brick-Top ensina como livrar-se de seus inimigos com a ajuda de porcos famintos faz Hannibal Lecter parecer um coroinha (veja aqui a cena, no texto que escrevi exclusivamente sobre este filme). Com diálogos encharcados de humor – quase sempre negro – o filme conta com uma participação de Benício Del Toro e o sempre-grossíssimo-mas-ainda-assim-uma-simpatia Dennis Farina.

Depois de Snatch, Ritchie se casaria com Madonna e deixaria seu talento do lado de fora do altar, para reencontrá-lo somente quase uma década depois, em Rock’n’Rolla, após divorciar-se da diva. Mas cá entre nós, pelo que vi nos trailers, parece-me que ele faz uma tremenda cagada ao tentar transformar Sherlock Holmes em James Bond…

4. Tropa de Elite (2007) é o filme que abre um buraco na minha estante de filmes estrangeiros (americanos) e coloca o cinema nacional num lugar de destaque. Talvez a primeira produção realmente boa a levar gente a assistir um bom filme sem legendas, sem precisar dos peitos ou pêlos da Vera Fischer ou da erudição da Xuxa (não, para mim Cidade de Deus e Central do Brasil ainda não contam).

A violência nua e crua do Capitão Nascimento revela uma realidade que as classes média-alta dos grandes centros urbanos teimam em não ver: elas e seus narizinhos empoeirados são os grandes responsáveis pelo tráfico de drogas e tudo o mais que vem a reboque. O ódio contido de Matias contra os hippies versão Shopping Leblon, os Socialistas Amex e os Engajados pós-ecstasy contrasta com o idealismo psicopata de Neto-Programado-Para-Matar. Enquanto isso, a corrupção rola solta em todos os escalões da polícia, transformando-a naquilo que ela mais deveria combater.

Tão bom é o filme que sua sinopse parece uma descrição antropológica de uma realidade (exagero…), praticamente deixando de lado o fato de ser uma ficção – ainda que baseada em fatos reais.

No melhor filme de quadrinhos, o destaque é o vilão
No melhor filme de quadrinhos, o destaque é o vilão

3. Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) é o segundo filme do homem-morcego escrito e dirigido por Christopher Nolan e já transformou-se num marco nas passagens de Histórias em Quadrinhos para o Cinema.

Junto com o contido porém presente Michael Caine, o já passado Morgan Freeman e o versátil e suficiente Christian Bale, Nolan criou um verdadeiro mito em O Cavaleiro das Trevas: o Coringa de Heath Ledger.

Talvez a mais falada interpretação do ano passado, o mais aclamado vilão da década e a mais estúpida e lamentada morte das últimas edições do Oscar. Ledger deu vida, de forma magistralmente sombria, à grotesca criação de Nolan.

Juntos, criador e criatura idealizaram a maldade em sua forma pura, sem objetivo nem finalidade, sem vaidade nem capricho, sem início nem fim: a maldade apenas pela maldade, para ver o circo pegar fogo e o público arder em chamas enquanto o palhaço gargalha.

Não bastasse isso, Nolan ainda opôs Aaron Eckart – um dos grandes talentos da nova geração – ao sempre atormentado Gary Oldman, eternamente insatisfeito com o lado da lei por onde vacila seu personagem. No conjunto, O Cavaleiro das Trevas é um filme surpreendente, muito mais pelo que cumpre do que pelo que promete. Dado o currículo de Christopher Nolan, o segundo filme do mascarado chegou cercado de muita expectativa.

Cena após outra reforçava-se a certeza de que ninguém poderia ter antecipado uma ousadia naquelas proporções (claro que não me refiro ao fato de ter sido o primeiro longa-metragem totalmente filmado no formato iMAX). Ainda assim, as cenas finais do Cavaleiro-Mártir não deixam dúvidas de que muito ainda está por vir.

Fechando o elenco, ainda temos uma pitada de Eric Roberts (o irmão menos famoso da Julia idem) e desculpamos, inclusive, as aparições da feiosa Maggie Gyllenhaal que, graças, não volta no próximo.

Commodus mostrando a Maximus o quão piedoso é
Commodus mostrando a Maximus o quão piedoso é

2. Gladiador (2000) é o que se pode chamar de um filme épico. De uma bem batida história de injustiça, traição, vingança e volta-por-cima, Ridley Scott criou uma obra-prima do cinema.

Vencedor de 5 Oscars (Filme, Ator, Som, Efeitos Visuais e Figurino), Gladiador levou às telas a saga de Maximus Decimus Meridius, um general traído por seu irmão de criação por ciúmes do amor paterno e inveja ao trono não herdado.

Enquanto Russel Crowe embrutece seu personagem escravizado, Joaquim Phoenix sufoca um visceral Commodus no melhor papel de sua curta carreira. Completam o ajustadíssimo elenco o amoroso e atormentado Imperador Marcus Aurelius vivido por Richard Harris, o ex-gladiador e agora mercador da morte Proximo, interpretado por Oliver Reed (e que partiu dessa para a próxima antes do fim das gravações, obrigando os magos dos efeitos especiais a forjarem suas derradeiras cenas), o afetado Senador Gracchus, aliás Derek Jacobi e a perseguida irmãzinha incestuosa que todos querem pegar Lucilla, despida em Connie Nielsen.

Por suas sangrentas batalhas, pelas relações de traição e lealdade estimuladas por galões de testosterona, por um sádico vilão que se enxerga piedoso e por um heroi que todos admiramos (exceto pela horrível mania de morrer no final) e, por que não dizer, por uma produção impecável, Gladiador é um espetáculo para os olhos – lacrimejantes ou não.

1. Amnésia (2000): se Quentin Tarantino revolucionou o cinema nos anos 1990, na década seguinte esse papel coube a Christopher Nolan. Enquanto o primeiro trouxe uma estética toda nova, cheia de referências a antigos clássicos e salpicado de afiadíssimos diálogos, o segundo surpreende com a originalidade de suas tramas e sua particular forma de contar uma história.

6a00e554b11a2e8833012876904d01970c-800wiNolan joga um quebra-cabeças no colo do espectador que, sem nenhum aviso prévio, precisa descobrir onde encaixar cada peça do mosaico enquanto o tempo passa. De trás para frente. Não bastasse essa canhestra narrativa, há uma densa história de crime e vingança de um inimigo desconhecido e repetido em cada rosto que se ofereça.

Pela ruptura com padrões convencionais de narrativa, pelo fabuloso enredo independente da ordem cronológica em que você assista a película, pelo espetacular elenco encabeçado por Guy Pearce e Joe Pantoliano e, last but not least, pela estonteante Carrie Ann-Moss, Amnésia é o meu filme da década (veja aqui o post completo que escrevi sobre o filme em 2008).

* * * * * * * * * *

Infelizmente, e com muito pesar, tive que deixar de fora outros favoritos da década, como Traffic (2000), A vida de David Gale (2003), Monster (2003) – o mais impressionante papel feminino que jamais vi no cinema, Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004), Crash (2004), Menina de Ouro (2004) – ai, ai, Hilary… – e 300 (2006).

Por outro lado, foi estranho perceber que boa parte dos meus filmes favoritos estão espalhados pela década de 1990. Acho que precisarei de um outro post para contar isso…

__________

1. We’ve got a bunch of smart guys. We lock ‘em in a room and kick ‘em in the ass until they come up with some solutions!

6 pensamentos em “Meus filmes da década”

  1. Lista organizada cuidadosamente a gente não critica, palpita. Os “13 dias…” achei ok. “Brokeback…” ainda acho que se não fosse gay, não seria notado como foi. Justo, mas cinematograficamente normal. “Morte no Funeral” achei master humor-negro inglês, longe de ser ruim, tem que gostar do gênero! “1o milhão” ainda preciso ver! A narrativa de Batman foi espetacular, parabéns!
    Acho que já deve ter visto, mas aqui vai a minha:
    http://www.baluzao.com/2009/12/melhore-filmes-da-decada.html
    Abrax

  2. Cara, concordo com a maioria. E, finalmente, achei alguém que também gostou de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças.
    Eu gostei muito (não dizendo que é um dos melhores da década, mas nos faz pensar) de Blindness.
    E do Mr Sexto Sentido, ‘A Vila’ tem uma idéia interessante.

  3. Muito boa a lista. Tenho que inclusive alugar alguns que não vi ainda e devem ser muito bons pelo o que te conheço, mas com certeza você, querida escritora, esqeceu do melhor filme de todos os tempos: “Se beber não case” (Hangover). Muito boa a explicação no comentário do Danilo Balu sobre a sua indicação do Brokeback (“ainda acho que se não fosse gay, não seria notado como foi”), só não entendi se ele estava se referindo à escritora, a ele mesmo ou ao enredo do filme 😉
    Abraços e Feliz 2010!!!

  4. Grande Rodolfo.
    Pô, não dá nem pra discutir a lista, né?
    Cinema traz ligado um apelo emocional muito forte. Isso faz com que nos identifiquemos com uns filmes e com outros nem tanto.
    Segue minha modesta lista de 10 + (x) peliculas também. Sem explicações profundas e fundamentadas como as suas, mas foram filmes que me encantaram.
    1 – Cidade de Deus. (2002)
    Acho que foi a primeira vez que sai do cinema com o pensamento: “Caralho, então é pra isso que serve o cinema???
    2 – O fabuloso destino de Amelie Poulin. (2001)
    De como uma vida simples pode ser complexa. Amo a fotografia e a forma de como a história é contada.
    3 – Moulin Rouge (2001)
    A forma como a Baz Lurhman revira o universo pop pra fazer um épico é brilhante. E claro, como toda bela canção tem uma trágica história de amor
    4 – O escafandro e a borboleta (2007)
    Perseverança e uma belissima história. Vicissitudes de uma vida.
    5 – Old Boy (2003)
    Pra falar a verdade o único que gostei da trilogia. Mas faz toda a diferença. Vingança de dois lados em estado puro. Se é que isso existe. 🙂
    6 – Réquiem para um Sonho (2000)
    Daqueles filmes pra pensar: “como minha vida é boa, não?” e “Obrigado Deus por só cometer o pecado de beber umas pingas. Só de vez em quando”. É claro, o filme é muito mais perturbador e interessante do que as bobagens que escrevo. As atuações são muito bacanas.
    7 – Gladiador (2000)
    Russel Crowe + 4 oscars = Clássico.
    7 – Brilho Eterno de uma mente sem lembrança (2004)
    Você simplesmente gosta. Uma pérola.
    8 – Labirinto do Fauno (2006)
    Sonhador. Assim como eu.
    9 – Na natureza selvagem (2007)
    Um jovem com coragem de realizar. Fantástico. Sean Pean manda super bem. Além da trilha do Eddie Vedder.
    10 – Amores Brutos (2000)
    História, direção e atuações muito bem alinhadas. Phoda.
    11 – Kill Bill I e II (2003)
    A mistureba que o Tarantino faz agrada. E muito.
    12 – O curioso caso de Benjamim Button. (2008)
    Belíssimo produção com uma história contada ao revés. Fabuloso
    13 – Animações (Nemo, Monstros S.A, Wall-e, Up, Rattatoule, A viagem de Shihiro, Era do Gelo I, II, III).
    Histórias muito bem contadas. As produções então nem se fala.
    A lista já está muito grande! Me voy.
    Me abraço, meu caro.

  5. Filmes da década de 1990

    Dando uma pausa nos textos mais ácidos – crítica demais deixa a gente meio amargo e eu detesto chocolate meio amargo – vou pagar uma dívida que ficou desde o início do ano. Depois de citar meus filmes favoritos da…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *