Um emaranhado de rabos e a delação universal

Um novo escândalo político-policial estoura em todas as mídias do país. Mais uma vez, vários homens públicos (o masculino de mulheres públicas) são filmados em atos de explícita corrupção e exibidos na TV – no horário que deixou de ser nobre para tornar-se pobre.

Década e meia atrás um presidente da República foi removido do seu cargo por algo que hoje não causaria um erguer de sobrancelhas, assim, de soslaio. Do impeachment de Collor até hoje, o acúmulo de casos semelhantes serviu apenas para aumentar nossa tolerância e indiferença e multiplicar a quantidade e a audácia dos bandidos eleitos.

- Isso é apenas o começo...!
– Isso é apenas o começo…!

O efeito disso é que provas cabais, irrefutáveis, a cores e com som estéreo como as que estão pipocando por aí, não terão absolutamente nenhuma consequência. Na festa do mensalão, a repugnante imagem do dinheiro sendo distribuído circulou pela Internet e pelos principais canais de TV do país. Deputados confessaram o recebimento de propina. Movimentações bancárias comprovaram dinheiro ilícito.

Qual o resultado prático do episódio? Os poucos que tiveram seus mandatos cassados, foram punidos por mera vingança de seus colegas, por alguma outra desavença anterior, uma implicância ou pirraça pessoal – e não pela roubalheira. José Dirceu que o diga. Mas a grande maioria foi desavergonhadamente absolvida.

A semelhança do caso atual com os anteriores aparecerá logo. Melhor dizendo: desaparecerá logo. O fato de pouca gente ter se pronunciado até agora é sintomático. O próprio partido de Arruda parece morrer de medo das proporções que o caso arrisca tomar – especialmente depois das ameaças públicas feitas por ele, chantageando explicitamente sua legenda.

A sensação que fica – pouco a pouco transformada em certeza – é que o germe da corrupção foi colocado na água de todas as casas políticas do país, de todas as instâncias. A impressão que temos é que, como todos roubam, ninguém quer ou pode falar nada. Quando um descuidado é flagrado – ou denunciado por outro, insatisfeito com seu quinhão – todos correm a protegê-lo, encobrí-lo, desculpá-lo ou desqualificar a denúncia ou o denunciante. Tudo por medo de ser levado junto.

Denúncias são abafadas porque o denunciante tem o rabo preso. Processos são travados porque quem deveria fazê-lo andar está comprometido. Cassações fracassam porque ladrões são coesos, unidos e têm um inequívoco senso de perpetuação da quadrilha. Afundam juntos na lama, mas não largam um semelhante. Até porque, quando tantos estão na lama, ela não fede tanto assim.

Dessas aberrações, só o voto nos livra
Dessas aberrações, só o voto nos livra

Vez ou outra um se desgarra e apela para a delação premiada. Esse grotesco recurso do direito garante pena mais leve – ou até mesmo ausência dela – caso o réu dedure seus ex-comparsas. Algo como uma benção judicial absolvendo o infrator de qualquer delito passado. Na prática isso garante apenas a absolvição de mais um culpado (o delator), porque os outros jamais serão presos mesmo.

O que o título desse texto sugere é que se estenda a delação premiada a todos os políticos, independentemente dos crimes ou castigos. Instaure-se, desde já, uma ampla, geral e irrestrita absolvição para todos os políticos com ou sem mandato. E que eles possam confessar todo o mal que já fizeram sem medo de qualquer represália cível ou penal.

Essa delação auto-premiada universal não pretende punir ninguém, apenas tornar público o que cada um faz. Não se trata de prender ou não um político, exatamente porque isso não acontece mesmo. Na prática, o que acontece nos bordéis onde se governa o país não muda. A singela diferença ficaria por conta da transparência.

Esqueçam de querer culpar ou punir os envolvidos, os ladrões, os corruptos. Eles já estão eternamente protegidos num impenetrável emaranhado de rabos, ao qual ninguém tem acesso. Pensem apenas em não elegê-los mais.

4 pensamentos em “Um emaranhado de rabos e a delação universal”

  1. Tudo o que você escreveu acima é tão dolorosamente verdadeiro, que vou pedir permissão para deixar de lado por um instante para homenagear a belíssima conquista do Mengão. O nosso Rio está que é uma beleza só. Saudações rubro-negras!!!

  2. É porque somos eternos “comemorantes” que tudo acontece e nada acontece! VIVA O PAÍS DO FUTEBOL, DO CARNAVAL, DA OLIMPÍADA, DA COPA, DA MADONA!!

  3. Bem, passada a comemoração do campeonato (porque, afinal, ninguém é de ferro), o que me assusta é a inesgotável capacidade de se fabricar dossiês, de se arapongar a torto e a direito, a todos e a qualquer um. Para todo bom escândalo, surgirá sempre um melhor para abafar. Parece que a gatunada tem sempre um pronto no bolso do colete para lançar mão no momento oportuno. Isso é só uma pequena amostra do que virá por aí em ano de eleição.

  4. Respeitável bandido

    Eu fico incrível com a forma como a mídia trata os bandidos. De todas as castas e das mais variadas espécies, há sempre um eufemismo ou uma palavra carinhosa para descrever toda a sorte de barbaridades. Nunca falta, também, um…

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