A desinformação e a histeria coletiva

Escrevi recentemente uma série de textos sobre a forma apaixonada como tratamos determinados assuntos, mesmo quando não estamos suficientemente preparados para fazê-lo. Discutimos com amigos e desconhecidos e tomamos decisões importantes em nossa vida baseados em informações rasteiras, dados capengas e análises mancas. Ainda assim, temos plena convicção de que estamos certos.

6a00e554b11a2e88330128777afb34970c-400wi No caso anterior o tema eram as mudanças climáticas. Um assunto polêmico, de fato, ainda mais porque os ecologistas xiitas adoram lembrar-nos de que nossos filhos herdarão o planeta nas condições em que o deixarmos – como se houvesse um planeta alternativo. Apesar do mau gosto deste apelativo argumento (quem não tem filho pode detonar o meio ambiente?), ele tem uma nobre preocupação: o futuro dos nossos filhos.

Mas e as preocupações com o presente dos nossos filhos? Será que tratamos com a mesma leviandade? Será que tomamos decisões importantes sobre a saúde de nossos queridos com semelhante superficialidade? A resposta, infelizmente, é SIM.

Na semana passada o The Lancet, um dos mais importantes e respeitados jornais médicos do mundo, fez um mea culpa que serve de alerta ao modo como lidamos com certos modismos – seja em que área for.

Em 1998, a conceituada publicação apresentou o trabalho de Andrew Wakefield e colegas, onde lançavam-se dúvidas sobre a segurança da conhecida vacina tríplice (MMR: measles, mumps and rubella – ou sarampo, caxumba e rubéola). Em Ileal-lymphoid-nodular hyperplasia, non-specific colitis, and pervasive developmental disorder in children os autores apontavam, ainda, para uma séria correlação entre a administração da vacina e casos de autismo e doenças intestinais.

Ainda que o estudo tenha sido baseado na análise de apenas doze casos, sua repercussão provocou pânico em diversos países e uma enxurrada de processos médicos de pais de crianças autistas (houve, inclusive, uma temporada de The Shield onde briga semelhante serviu como um dos subtemas).

"Não vai doer nadinha..."
“Não vai doer nadinha…”

Mesmo depois de 500 milhões de doses em mais de 60 países, erradicando o sarampo em vários deles desde a década de 1970, as dúvidas levantadas foram suficientes para que milhões de pessoas deixassem de vacinar seus filhos – dentre elas o próprio então Primeiro Ministro Britânico Tony Blair.

O posterior consenso da comunidade médica foi de que havia poucas evidências desta correlação e que, ainda assim, os benefícios comprovados superavam largamente os riscos. No mês passado, a GMC (General Medic Concil) – algo como o Conselho Federal de Medicina inglês – considerou que o Dr. Wakefield falhou em seus deveres de conselheiro e abusou do seu prestígio ao emitir aquele polêmico parecer e considera, inclusive, a cassação de seu registro profissional.

Doze anos depois do estudo original, o mesmo The Lancet viu-se forçado a publicar o citado editorial, reconhecendo o erro cometido na avaliação do paper. O que nenhum dos reports comentou, contudo, foi que o Dr. Wakefield omitiu o fato de ter trabalhado como consultor num caso em que algumas famílias processavam laboratórios farmacêuticos fabricantes das vacinas, recebendo mais de US$ 800 mil em honorários (ver Mistakes Were Made (But Not by Me): Why We Justify Foolish Beliefs, Bad Decisions, and Hurtful Acts, de Carol Travis e Elliot Aronson, pp. 50-51).

Resulta, pois, que algumas informações têm o inegável poder de provocar surtos de histeria coletiva. Seja por desconhecimento, desinteresse ou apenas por se deixar levar pelos modismos as pessoas sujeitam-se, frequentemente, a desnecessários ataques de pânico.

Independentemente do que nos leve a tais frenesis há, quase sempre, grupos de interesses beneficiados nesses movimentos. Seja na recente “crise financeira”, na prometida pandemia de gripe zoológica (nunca sei se a atual é do frango, do porco ou da zebra) ou no aquecimento global, sempre há quem alugue facilidades em tempos de dificuldades. Especialmente para uma população ávida por engolir tragédias e digerir milagres – estes últimos vendidos sabe-se lá por quem.

11 pensamentos em “A desinformação e a histeria coletiva”

  1. Mais um excelente artigo, Batman!
    Recentemente em minha cidade, houve um boato que alguns garotos estavam com um determinado tipo de meningite, altamente contagiante. Mero boato. Mas foi o suficiente para esgotar o estoque de vacinas anti-meningite da cidade, lotar o consultório dos pediatras e preocupar bastante este que vos fala…
    ABRAÇO!

  2. De fato, agente sempre sabe que existem interesses econômico-financeiros por trás, tanto dos que defendem o meio ambiente como dos que defendem plena liberdade para as atividades industriais. Uns afirmam que é preciso mudar os tradicionais modos de produção; outros afirmam que o mundo sempre aguenta, que tudo isso é histeria…
    É natural que existam interesses mercadológicos em jogo. Afinal, vivemos sob a influência do capitalismo; na minha opinião, a causa de todos os males, sociais e ambientais.

  3. Sempre gosto de acompanhar os comentários, e não pude deixar de notar essa passagem do comentário do André:
    “Vivemos sob a influência do capitalismo; na minha opinião, a causa de todos os males, sociais e ambientais”
    Beleza. Mas do capitalismo também resultam todos os benefícios que podemos desfrutar hoje em dia – desde os avanços na área da saúde à essa maravilhosa ferramenta de interação que é a Internet.
    É válido lembrar que outros “regimes” não conseguiram poupar o homem da degradação ambiental (vide o colapso da Ilha da Páscoa como exemplo) ou social (vide os exemplos de Cuba, URSS, Coréia do Norte), etc.
    Aliás, podemos dizer que o comunismo e o nazismo são casos típicos de histeria coletiva…

  4. Rodolfo,,
    Muito bom seu texto (como sempre). Aliás, aproveitei a pauta para o programa que produzo.
    O impacto desse estudo foi maior nos países anglo-saxões. Quando morei no Canadá, conheci pais que não vacinavam filhos contra NENHUMA doença por conta disso.
    No Brasil, até onde sei, esse debate não chegou sequer à classe médica. Alguns dos pediatras que consultei nem conheciam a pesquisa, quanto mais a retratação. Ou seja, não por conhecimento, mas por desconhecimento, nossa crianças continuaram a ser vacinadas. O que é bom porque o estudo mostrou-se mentiroso, mas seria ruim se se tratasse de fato verdadeiro. Por exemplo, a orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria para que os médicos ensinem as mães a colocar o bebê para dormir de barriga pra cima não é seguida muitas vezes porque o pediatra diz que “sempre orientou diferente.”
    Acho um absurdo qualquer profissional, de qualquer área, que deixe de buscar conhecimento após sair da faculdade. Aprender é um processo contínuo.
    E se informar é uma obrigação individual. Como diz o seu título, é a desinformação que causa a histeria.
    Ignorância, mãe de todos os males….
    Bj

  5. Caro Rodolfo,
    Estou montando a minha wish list deste ano, para a Amazon, e confesso que a lista aumentou bastante depois de descobrir este seu blog.
    Encontrei ele por conta das resenhas de “Outliers”, que curiosamente encontrei em uma citação do blog americano “Study Hacks”, já que antes disso eu não conhecia Malcolm Gladwell.
    Não sei se voce já leu, ou não leu ainda, mas nessa linha de “livros com boa fundamentação e pontos de vista inovadores”, eu gosto muito do Jared Diamond, de “Armas, Germes e Aço”, e “Colapso”, e notei que ele não foi citado ainda por aqui (fica como dica – voce vai gostar).
    Me lembro do Zimbardo em um documentário no início da década, que foi ao ar no GNT, chamado “The Human Zoo”, que infelizmente nunca mais consegui encontrar em lugar nenhum.
    Já assinei as suas atualizações via RSS!
    Cordial abraço
    Livio

  6. Ao se atacar as mazelas do capitalismo percebo que sempre há gente disposta a defender esse sistema econômico. A meu ver, fazem isso tão histericamente quanto os que atacam… Citam o progresso, a internet, a tecnologia, sem olhar para a concentração de renda, a miséria e a violência; sem esquecer da agressão à natureza. Olhem para o “desenvolvimento” que esse sistema econômico levou ao Taiti: nâo é uma maravilha o capitalismo?
    Obrigado Rodolfo. Por publicar democraticamente minhas opiniões “histéricas”, contrárias ao neoliberalismo capitalista e ao conservadorismo de direita.

  7. A desinformação e a manipulação de informações também levam à criação de modismos. A esse respeito, li hoje uma entrevista de um ex-médico, David Zisman (hoje, dono de restaurante), em que ele diz o seguinte: “Digamos que alguém goste de comer lesma. A pessoa divulga que é bom. Um grupo passa a gostar. Eles formam a Associação Brasileira dos Comedores de Lesma, lançam uma publicação oficial e publicam uma pesquisa vaga sobre os benefícios de comer lesma. A indústria sente a tendência e transforma esse conceito em verdade científica. Como as pessoas engolem qualquer coisa no afã de viver mais, ser mais saudável e ter barriga tanquinho, passam a comer lesma. A indústria alimentícia aprendeu com a farmacêutica a mentir.”

  8. O maior risco do medo é o medo

    Apesar da aparente inconsistência, o título deste post não está errado – ao menos no que se refere à sua grafia. Após a recente tragédia no Japão, o perigo muda de figura e toma corpo numa ameaça global: um desastre…

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