Mais dicas de um pai que nunca foi

Depois do estrondoso sucesso de Dicas de um pai que nunca foi, o Não posso evitar… apresenta sua ainda mais estrondosa sequência. Para os pais que se perguntam como alguém que não tem filho pode dar dicas sobre como criá-los respondo, antecipadamente: não sei. Mas que essas coisas fazem um sentido enorme, isso é verdade…

O primeiro caso vem, desta vez, de um atleta nascido com o espírito de competição impregnado em seu DNA: Garry Kasparov. Do seu valioso How Life Imitates Chess: Making the Right Moves, from the Board to the Boardroomvem esta pérola de conselho:

Não desanime, Tigrão!
Não desanime, Tigrão!

“VOCÊ FEZ O SEU MELHOR”: apesar de esta frase parecer carregada de um bem-intencionado e empático sentimento de consolo ao filho que não venceu algo em que competia, ela esconde uma profética e desnecessária garantia de futuros fracassos.

A mensagem subliminar engatada nessa cândida e corriqueira escorregada é que mesmo tendo feito o seu melhor, a criança não conseguiu vencer. Isto quer dizer, portanto, que aquela foi a sua derradeira performance, o auge do seu esforço, o supra-sumo da sua capacidade e não resta, portanto, chance alguma de superar tal resultado. Ou seja, filhão, escolha outro esporte porque nesse aí você não vai ganhar nada. Nunca.

Como se consola, então, um filho – enteado, sobrinho, primo… – que acabou de perder uma disputa? Converse com ele (ou ela!) e veja se ele tem alguma idéia de onde pode ter ido mal. Dê a sua opinião, como alguém que estava de fora e viu coisas que ele não pôde enxergar. Mas, principalmente, garanta que é possível melhorar. (Imagino o que diziam os pais dos amiguinhos do Usain Bolt, vendo que o fenômeno já tinha tomado banho quando seus pimpolhos cruzavam a linha de chegada.) Você tam alguma outra dica?

COMECE COM UM BARATINHO: seu filho quer tocar guitarra ou jogar tênis e, por via das dúvidas, você não quer gastar uma fortuna num acessório que ele pode deixar de lado no próximo outono, não é mesmo? Por que ele precisa aprender um Ré com uma Fender Stratocaster, ou dar suas primeiras raquetadas com uma Babolat de US$ 500,00?

George, John e Paul teriam instrumentos precários?
George, John e Paul teriam instrumentos precários?

Exatamente porque ele não sabe. E já que ele não sabe, não será mais difícil ainda aprender num acessório precário? Se o Eric Clapton não consegue tirar um som daquela coisa que você pensou em comprar para o seu filho, como você espera que ele consiga? Ou como imaginar que ele tome gosto pelo esporte, se nem o próprio Federer conseguiria um top-spin com aquela frigideira?

A tendência é que a dificuldade associada a um equipamento de baixa qualidade atrapalhe ainda mais o seu pequeno iniciante fazendo-o, possivelmente, desistir antes do previsto.

Por outro lado, pode-se imaginar o seu entusiasmo ao ter nas mãos uma guitarra semelhante àquela usada por Gary Moore ou Roy Buchanan

Bom, sei que normalmente as sequências dificilmente superam a obra original. Devo adiantar, no entanto, que mesmo usando um computador baratinho, eu procurei fazer o meu melhor…

9 pensamentos em “Mais dicas de um pai que nunca foi”

  1. Gostei, mas discordo um pouco da história de começar com o melhor.
    Na minha experiência, mesmo com o melhor, o jovem desiste e nada mais pode ser conquistado.
    De qualquer forma é um ponto de vista interessante.
    Abraço.
    Cesar

  2. Pela primeira vez comentando no blog (que conheci a pouco tempo, mas linkei no meu – blog.ricardocouto.com.br) e pela primeira vez discordando do texto.
    Sobre o “você fez o seu melhor”, concordo que o entendimento por você, por mim e por muitos outros seja de “mesmo fazendo o melhor, não foi suficiente”, mas essa inferência (duvido muito, mas não posso afirmar) uma criança não faria. E, se faria, ele diria – crianças são boas nisso.
    E sobre o começar com um produto barato.. sendo bem sincero (e digo porque estudei música por algum tempo e ainda toco por puro hobby), Eric Clapton tiraria som até de um violão queimado, com duas cordas e desafinado. =)
    Penso o contrário, até o fato de começar com um instrumento/raquete de menor qualidade (logo, mais barata) é bom, porque quando demonstrar mais interesse, troca-se. A melhora tanto pela prática quanto pelo melhor instrumento de trabalho é um estímulo considerável. E, para um iniciante, qual a diferença de uma Head que custe U$ 2.000 e uma Wilson que se compre em supermercado por R$ 100? E se for ainda uma troca por méritos próprios, que estímulo seria melhor que esse? E mais.. já pensou começar no ramo com o que tem de melhor? Será que não estaria dando asas a um mimado?
    Em tempo.. sou pai de primeira viagem, mas ainda não cheguei nestes pontos aqui discutidos. Meu filho tem só 3 meses ainda.

  3. Concordo com o Ricardo.
    A possibilidade de trocar a guitarra/raquete por uma melhor, acompanhando a melhora na performance e premiando o esforço é o maior estímulo para continuar crescendo.
    Quando se está aprendendo algo, principalmente quando criança, mais importante do que o resultado é o reconhecimento de quem amamos.
    Logo, a motivação poderá ser mantida com novas guitarras/raquetes que crescem de valor assim como quem as usa.
    Abs,
    Leonardo
    nexocorporativo.com.br

  4. Achei fantásticos os argumentos sobre “você fez o seu melhor”. Adotar essa filosofia – a da aceitação do próprio fracasso como decorrência de ter atingido a sua performance máxima – é a receita para fracassos contínuos ou para uma vida medíocre, sem grandes emoções.
    Se pararmos para pensar em nossos próprios resultados – conquistas ou derrotas -, essa ladainha de “eu fiz o melhor que pude” cai por terra. Com um pouquinho de sinceridade, admitiremos que, sim, era possível ter feito melhor, era possível ter se dedicado mais.
    Ainda sobre derrotas, conta o Jack Welch que, quando era garoto e perdia alguma competição, sua mãe sempre o repreendia ao vê-lo chateado: “se você não souber perder, jamais será um vencedor”. Pode ser lenda, mas reproduz perfeitamente o processo pelo qual passa qualquer vencedor. A derrota sempre traz lições preciosas que o consolo simplório de “você fez o seu melhor” pode fazer com que elas escapem.
    Parabéns de novo!
    Abraço!
    Leandro

  5. Texto fraco. Todos sabem que o “você fez o seu melhor” leva em si o “saber que este melhor pode ir além”. Sempre. Até porque Usain Bolt faz seu melhor – e cada vez melhor.
    É o seu melhor naquele momento, naquele contexto. É o melhor dentro das possibilidades atuais.
    Quanto aos presentes… experimente aprender a dirigir com uma Ferrari em mãos. Objetos e utensílios de alta performance são, de fato, mais difíceis de manusear e aprender a lidar que aqueles, não à toa, desenvolvidos para INICIANTES.
    Este exemplo do carro serve para bicicletas, aparelhos celulares, livros, instrumentos musicais, qualquer tipo de esporte, pintura, escultura e etc. etc. etc. Ou alguém aqui nasceu andando? Primeiro, engatinhamos.
    Um abraço.

  6. Quando digo que “você fez o seu melhor” é prejudicial, está implícito (praticamente explícito) que a pessoa não ganhou, logo, o exemplo do Usain Bolt não serve, pois ele fez o melhor dele e dos outros juntos.
    Sobre os instrumentos para aprender alguma nova atividade, há uma grande diferença entre a qualidade de dois violões e a qualidade de dois modelos de carro. Comparar um carro popular com uma Ferrari foi uma ridícula apelação. São duas coisas completamente diferentes, não acha?
    Respeito sua opinião e, por isso, talvez não a apague. Mas neste blog, para criticar a qualidade do texto, você precisa fazer melhor – o que não foi o caso. Então seja mais educado da próxima vez.
    Obrigado, Rodolfo.

  7. Antes de tudo, desculpe se pareceu mal educado o tom do meu texto.
    Apenas coloquei minha opinião no post. Às vezes podemos nos sentir ofendidos quando alguém critica o nosso melhor. Não foi minha intenção.
    Quanto ao comentário da “ridícula apelação”, me parece o oposto disso: “sensata comparação”. O princípio é o mesmo: comparar objetos básicos versus objetos sofisticados.
    Da mesma maneira que um iniciante consegue arranhar um violão sofisticado (feito à mão, com cordas de metal, saída para amplificadores e etc.), um de aprendiz de motorista também consegue guiar uma Ferrari.
    A questão aqui é de desperdício ou falta de próposito: para que um iniciante deve ter o melhor violão sem nem ao menos sabe o que é um acorde? Na comparação: para que um iniciante deve guiar uma Ferrari se nem mesmo sabe fazer uso da potência daquele motor?
    Um passo de cada vez. E tudo no seu tempo.
    De toda maneira, penso que o crescimento pessoal de cada um de nós (iniciantes, gurus, blogueiros ou leitores) é consequência do constante aprendizado, que invariavelmente inclui o debate de idéias e pontos de vista.
    Assim, obrigado pelo espaço e todo conhecimento disseminado através do blog.
    Um abraço.

  8. Caro(a) G@, seus comentários são muito interessantes (inclusive o primeiro). Eu aceito todas as opiniões contrárias, porque este espaço é para a troca de idéias, sem que uma precise prevalecer à outra. Seus argumentos são bons e bem colocados e, por isso, podemos ter debates interessantes aqui. Por isso acho que você não precisa começar o comentário dizendo que o texto é fraco. Se você realmente pensasse assim, tenho certeza de que não se daria nem ao trabalho de escrever aqui, muito menos de voltar para fazê-lo novamente.
    Obrigado por seu retorno e espero que faça disso um hábito. Vamos em frente!
    Um abraço, Rodolfo.

  9. Dicas de um pai que nunca foi

    A maioria das minhas leitoras sabe que não tenho filhos. Talvez até por isso eu tenha algumas opiniões um pouco inconsequentes sobre temas controversos, uma vez quando você torna-se responsável por algo além do seu umbigo, sua visão de mundo…

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