Do pessimismo calvinista ao otimismo paralisante

No texto anterior analisei como o pensamento positivo impulsiona o consumismo, ao mesmo tempo em que atrofia nossa capacidade de encarar a realidade, impedindo-nos de enxergar os problemas e, consequentemente, resolvê-los. Mas como teria surgido tal modelo de vida?

Em Bright-sided: How the Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America Barbara Ehrenreich faz uma criteriosa pesquisa sobre as origens do pensamento positivo, localizando seu início à mesma época do nascimento dos Estados Unidos enquanto nação.

Touro Sentado e seu olhar meio pensativo, meio preocupado
Touro Sentado e seu olhar meio pensativo, meio preocupado

Neste cenário, ser feliz soava praticamente como uma heresia, tornando a tristeza e a melancolia mais que um estilo de vida, uma obrigação. Não era incomum pessoas passarem a vida inteira acamadas, tomadas por doenças inexistentes, paralisadas por moléstias invisíveis.Para a autora, o Calvinismo trazido pelos imigrantes ingleses para a Nova Inglaterra poderia ser descrito como um sistema onde a depressão era socialmente imposta (p. 74). O final do século XVIII na América traduzia-se em condições de vida extremamente difíceis, com uma sacrificante luta pela sobrevivência em meio a doenças tão mortais quanto incuráveis, uma medicina que mais atrapalhava do que ajudava e deploráveis condições sanitárias. Além dos índios, é claro.

Foi preciso saltar cem anos para que as primeiras vozes em direção a uma postura mais positiva fossem ouvidas, especialmente as de Phineas Quimby e sua mais eloquente discípula Mary Baker Eddy. Em meados do século XIX, Eddy ergueu-se de seu estado de prostração e, motivada pelas palavras de Quimby tornou-se uma das primeiras a alardear a vitória sobre uma doença que nunca teve e sua milagrosa cura: o pensamento positivo pregado por Quimby.

A dúvida que fica, no entanto, era se a radical mudança era realmente devido ao otimismo, ou apenas ao abandono do exagerado pessimismo de seus contemporâneos, sugerido e/ou incentivado por um opressor dogma religioso.

A nova corrente, batizada de New Thought (Novo Pensamento), experimentava incontestáveis vitórias. Nas palavras da autora, “[c]urava uma doença – a doença do Calvinismo ou a morbidez associada à velha teologia do fogo do inferno” (p. 87).

Já no século XIX, os avanços da medicina começaram a tomar o lugar do pensamento positivo na cura dos males da população – fossem estes reais ou imaginários. O New Thought voltou suas atenções, assim, para um outro objetivo: a riqueza e o sucesso.

Não tardou muito para que os arautos do otimismo colocassem seus serviços a favor de uma população ávida por suas histórias de felicidade e prosperidade. Nestas, o único e suficiente combustível eram doses diárias de pensamentos positivos e a indisfarçada negação de tudo o mais que soasse ruim – leia-se: realidade.

A segunda metade do século passado assistiu a redenção do otimismo tomar o meio religioso, por meio de novas doutrinas que prometiam saúde e prosperidade a seus rebanhos. Firmes em sua crença de que riqueza e felicidade representavam o mais puro desejo divino – ao menos para os que nele acreditassem – tais Igrejas viram seus fiéis multiplicar-se (e não me refiro aqui ao sentido bíblico). Milhões de crédulos depositavam sua fé – e seus dízimos – na inalcansável promessa de abundante e onipresente felicidade.

Enquanto os templos proliferavem, rareavam os milenares símbolos católicos que simbolizavam dor e sacrifício. Crucifixos e imagens cristãs saíram das naves principais, substituídas por palcos, telões e caixas de som, encontrando lugar apenas nas rentáveis lojinhas anexas. As tradicionais doutrinas religiosas também foram abolidas em detrimento de ensinamentos que valorizavam tão somente a prosperidade e a abundância, marcando a definitiva migração de uma Igreja que servia a Deus para outra apenas em nome dos homens (p. 133).

Funcionários do recém-falido Lehman Brothers conhecendo o desemprego
Funcionários do recém-falido Lehman Brothers conhecendo o desemprego

Mais adiante, já nos anos 1980 quando começaram os movimentos de reengenharia e downsizing, os americanos testemunharam e viveram trinta milhões de trabalhadores perdendo seus empregos durante as duas décadas seguintes. Junto veio a necessidade de uma nova injeção de ânimo nas corporações e, sem nenhuma surpresa, o remédio veio na forma da panacéia do pensamento positivo.

Era preciso motivar todos os trabalhadores, não só aqueles demitidos (e suas famílias), mas também os sobreviventes que ficariam com o trabalho extra, além da agora sempre presente instabilidade. O otimismo nem sempre justificável e o pensamento positivo assumiam, assim, sua atual forma: a auto-ajuda.

Patrocinada pelos gurus do momento, esta transformação tomou de assalto as empresas mudando para sempre algumas de suas mais arraigadas práticas e convicções. Os tradicionais consultores que se apoiavam em métodos, processos e números davam lugar aos papas da administração moderna, como Tom Peters e Tony Robbins – celebridades que punham o público aos seus pés em catarses coletivas induzidas pelas vazias promessas da auto-ajuda. A imagem do CEO competente mudava de um administrador capaz para um líder carismático.

A onda de prosperidade do final do século passado – ao menos este era a realidade vendida (ou alugada) pela mídia – parecia dar legitimidade ao otimismo, permitindo-lhe alastrar-se pelos demais segmentos da sociedade, quase como uma religião. O mundo corporativo e o espiritual, aliás, viveram momentos simbióticos nas duas últimas décadas do século XX. Enquanto as Igrejas cada vez mais eram administradas como grandes corporações, as grandes corporações, por sua vez, cada vez mais pareciam-se com Igrejas.

6a00e554b11a2e883301310f76a3c5970c Enquanto isso, nos lares americanos, a auto-ajuda que prometia riqueza e prosperidade fazia o caminho inverso e voltava ao seu infame berço onde, dizia, seria capaz de curar todos os seus males – inclusive os incuráveis. Inúmeros estudos pseudocientíficos exaltavam os poderes curativos do pensamento positivo, em pesquisas tão furadas quanto otimistas.

Tais relatos mostravam, quando muito, uma correlação entre felicidade e saúde. Jamais uma relação de causa e efeito. Falhavam em provar que as pessoas eram saudáveis porque felizes – e não felizes porque saudáveis.

A única maneira de identificar causalidade nesta relação seria com estudos longitudinais. Estes, no entanto, mostraram exatamente o contrário. Num acompanhamento com mais de mil crianças em idade escolar na Califórnia, verificou-se que os otimistas morriam antes, possivelmente porque tinham mais inclinação em assumir riscos. Outro estudo mais recente demonstrou que pré-adolescentes que tinham uma visão mais realista de si mesmos eram menos suscetíveis a episódios depressivos do que seus pares, que mantinham fantasiosas ilusões positivas sobre suas imagens perante o grupo.

Como será possível, então, que as farsas do pensamento positivo e da auto-ajuda estejam tão na moda? Por que cada vez mais pessoas embarcam nessa canoa furada sem perceber que o puro e simples otimismo não as levará a lugar algum? No próximo texto, veja o que impede tanta gente de enxergar a realidade, enquanto os gurus da auto-ajuda enriquecem com rapidez diretamente proporcional ao fracasso de seus seguidores: O golfinho benevolente e a vitória da auto-ajuda.

13 pensamentos em “Do pessimismo calvinista ao otimismo paralisante”

  1. Como sempre, ótimo texto!
    Vc analisa o pensamento positivo em suas várias vertentes, desde a auto-ajuda até os negócios. Parabéns, isso explica o seu nascimento, e a circunstâcias histórias que o levaram a se proliferar. Aguardo ansiosamente o outro texto.
    Abraços!

  2. Havia lido ontem, e posso dizer que seu texto é claro e sem definir o que é certo ou errado, e eu gosto disso. Deixar o leitor pensar é algo que poucos sabem fazer bem.
    Sobre o comentário do André, é bom lembrar que o socialismo também tem sua propaganda de promessas falsas. Cuba é livre mas o povo não tem voz. Os Russos do inicio do século 20 praticamente criaram o marketing psicológico de promessas falsas, iludindo trabalhadores com propagandas de operários super produtivos que ganhavam casas melhores ou outros beneficios.
    O consumismo, as drogas, a audiência em números e não em qualidade, o nivelamento socio-educativo em massa, etc… tudo isso é usado para criar riquezas, e não importa se essas alegria eufórica dure apenas alguns segundos após a compra, você já parte para a próxima compra ou desejo de ter o que na maioria das vezes é irrelevante.
    Continuarei acompanhando o artigo. Está fantástico.

  3. Rodolfo,
    Parabéns!
    Seus dois textos estão tão bem escritos e fundamentados, que nada me atrevo a acrescentar, a não ser palavras que não são minhas, mas de Nietzsche:
    “Uma visita ao hospício mostra que a fé não prova nada.”
    Bjo

  4. O motor do consumismo e a morte da iniciativa

    Sempre fui um feroz crítico dos livros de auto-ajuda, mas a recente leitura de Bright-sided: How the Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America fez-me enxergar ao menos um lado positivo: eles fazem a economia andar. Não me refiro….

  5. O golfinho benevolente e a vitória da auto-ajuda

    Nos dois últimos textos explorei as origens do pensamento positivo e da auto-ajuda, além dos motivos pelos quais vejo tais movimentos como prejudiciais. Mas por que então, perguntará a leitora, essas tão insidiosas práticas continuam amealhando cada ve…

  6. Parabéns, ótimo texto!
    Contudo, de alguma forma, discordo de você.
    Acho que algumas pessoas são tão inseguras e acomodadas que precisam de ferramentas, tais como religião e auto-ajudo para saírem do estado inerte que leva suas vidas a ser uma eterna tristeza. Concordo com vc, quando dizes que as pessoas preferem se apegar a fantasias em detrimento da realidade. Porém, muitas vezes, essa fantasia e a crença de que as coisas podem melhorar, são exatamente a injeção de ânimo que estas pessoas precisam para sair da situação que se encontram.
    Por curiosidade, já entrei nessas igrejas sem escadas, com porta na calçada nas quais 5 minutos em pé na porta são suficientes para que o “reverendo” venha te convidar a entrar, ainda que no meio do culto. Inegavelmente, o astral dentro de um lugar desses é muito positivo. O orador, com muita habilidade faz cada uma daquelas cabecinhas menos privilegiadas acreditarem que elas podem resolver seus problemas e que Deus quer que seja assim. Isso gera uma mudança de postura clara. As pessoas passam a acreditar que podem melhorar suas vidas e passam a ter uma atitude mais positiva e construtiva com relação aos seus problemas, dando um importante passo rumo a solução dos mesmos.
    Sabemos que quem presta esse “serviço’ quase sempre o faz, pensando em dinheiro e, quem paga, não sabe que está pagando pelo serviço. Pensa que está fazendo como forma de gratidão. Talvez este seja o lado perverso da situação, mas ainda assim pode-se dizer que existe uma espécie de protocooperação.

  7. Olá Rodolfo! Gostei de todos os artigos que escreveu relacionados ao auto-atrapalha. Boa, mesmo!
    Desculpe, mas somente hoje vi seu comentário no blog que estou ensaiando escrever, sobre Advocacia e Administração.
    Obrigado, pelo post e por suas matérias.

  8. The Upside of Irrationality – Adaptação

    A última parte de The Upside of Irrationality talvez seja a que traz mais lições interessantes por página. Em seus derradeiros capítulos Ariely descreve a forma como as pessoas se adaptam a novas situações, independente do seu caráter positivo ou……

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