Nem sempre o touro perde…

Causou consternação no mundo todo, na semana passada, a notícia da trágica morte da treinadora Dawn Brancheau, de 40 anos, afogada pela orca Tilikum, numa das piscinas do SeaWorld, na Flórida. Brancheau teria sido atacada pelo cetáceo e depois puxada pelo rabo-de-cavalo para o fundo da piscina, de onde seria resgatada já sem vida.

O acidente foi, de fato, uma tragédia. Mas não uma novidade, nem uma surpresa. Fatos semelhantes já haviam ocorrido antes – inclusive com a própria Tilikum, que coleciona outras duas mortes na sua extensa ficha corrida.

Mas há um outro detalhe por trás do episódio que parecemos não nos dar conta: a orca matar a treinadora é o desfecho mais natural desta relação e das outras que envolvem perigos desnecessários.

Uma delicada relação
Uma delicada relação

O esperado ocorre, da mesma forma, quando o leão come o domador, o touro empala o toureiro, o alpinista morre congelado ou o equilibrista cai da corda bamba. Isto seria o normal. Sempre que não ocorre desta forma é por alguma habilidade excepcional – ou sorte – da pessoa que, por essa exímia destreza1, recebe o título de artista.

Quando você entra num parque aquático ou num circo, pagou para ver alguém correndo risco de morte para seu deleite, quer isso envolva animais ferozes ou não. O mais plausível ali, entenda, seria a pessoa ser despedaçada ou esmigalhada pelo animal que tem cem vezes o seu peso e dentes do tamanho da sua mão.

Ao sentar-se no seu lugar, porém, você parece esquecer que em qualquer outra situação o tigre devoraria o lépido domador. Independentemente da cadeira ou do chicote, o felino lamberia os beiços com seu incauto quitute. Se você sai do picadeiro sem ter presenciado o sinistro banquete, algo não natural ocorreu. Mas você pode tentar de novo no horário seguinte.

Do mesmo modo, o alpinista que sobe o Everest deve morrer, pois assim ocorre quando uma pessoa enfrenta aquelas condições climáticas. Não há surpresa, portanto, quando isso ocorre, já que este é o desfecho natural para um ser humano sob neve e com ar rarefeito.

O destemido mundo dos recordes e dos feitos extraordinários está construído sobre as lápides dos menos aptos, dos não tão heróicos e dos azarados. As mortes nada glamorosas e rapidamente esquecidas (como era mesmo o nome daquele “domador” de crocodilos morto por uma arraia…?) dos agora anônimos aventureiros tornam-se meros efeitos colaterais da hipnotizante diversão da quase-tragédia.

Por isso eu adoro a piada do cara que vai a um restaurante ao lado de uma arena, em Madri, e pede o prato típico do local. Quando chegam os cojones, ele indaga o que seriam aquelas duas grandes bolas de carne em seu prato. Son los cojones del toro que murió hoy en la arena, explica o solícito garçom. Satisfeito e deliciado, o turista volta na semana seguinte para repetir a iguaria. Para sua surpresa, porém, o mesmo garçom traz-lhe duas pequenas bolotinhas. Quando reclama do tamanho da porção, ouve a plausível explicação: Ni siempre el toro pierde

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1. No meu caso particular seria “canhoteza”?

7 pensamentos em “Nem sempre o touro perde…”

  1. Por que voce tem que ser assim tão cruel ao simplesmente colocar as coisas no seu lugar natural? As pessoas gostam da sensação de “horror” quando, nestes casos, o natural acontece.
    Parabéns pelo excelente texto!

  2. Texto interessante, mas estatisticamente incorreto, pois o número de toureiros que saíram vivos da arena é imensamente maior do que o número de touros que saíram vivos. Ademais, acho estranho o uso do vocábulo “natural” para denotar a morte da treinadora. Em todas as vezes anteriores nas quais ela saiu viva, foi o quê? Sobrenatural?

  3. Álvaro,
    Concordo que não é algo estatísticamente confiável, mas você há de convir que a amostra é completamente viciada. Muitas pessoas também não morrem quando pulam de aviões, mas é porque usam pára-quedas. Isso não significa que estatisticamente é seguro pular de um avião.
    Fosse num ambiente natural, o toureiro não teria nenhuma chance, assim como o domador.
    Por isso digo que é o caminho natural. E quando alguém sai vivo dessa situação é antinatural.
    Abraço, Rodolfo.

  4. Parabéns pelo post e pelo pensamento, o q foi exposto aqui não foram apenas estatísticas e sim o pensamento de que seria muito mais justo e NATURAL que cada ser ficasse no seu lugar, os animais da selva na selva e os homens fora dela.
    O q de fato acontece é os animais se cansam de ser fantoches e qndo menos se espera ele se vinga afinal querendo ou não eles tem sentimentos e são inteligentes, mesmo q a ciência diga q isso é loukura pra mim não é!!!

  5. Rodolfo,
    outro texto brilhante! E ótima piada! Mas, puxa, eu sou daquelas que lembra o nome do cara da Arraia – Steve Irwin. Mas deve ser porque as arraias (especialmente a jamanta, que não tem ferrão) são um dos meu animais preferidos.
    É interessante pagar para ver os outros arriscarem a vida. Quase tão estranho quanto ser a pessoa que está ali, no centro da atração, desafiando a ordem natural das coisas.
    Bj

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