O motor do consumismo e a morte da iniciativa

Sempre fui um feroz crítico dos livros de autoajuda, mas a recente leitura de Bright-sided: How the Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America fez-me enxergar ao menos um lado positivo: eles fazem a economia andar. Não me refiro aos mais de US$ 20 bilhões que esta indústria movimenta anualmente1, mas ao irresponsável modo como ela incentiva o consumo.

6a00e554b11a2e88330147e0aebc43970b-200wi Segundo a autora Barbara Ehrenreich, “[C]entenas de livros de auto-ajuda exploram a forma como o pensamento positivo pode atrair dinheiro – um método tão confiável que encoraja as pessoas a começar a gastar imediatamente” (p. 46). Esta doutrina pode ser vista claramente nos anúncios e infomerciais dos supérfluos da moda, sejam telefones celulares, câmeras digitais ou TVs de plasma, em tantas “irrisórias” parcelas quantas você consiga se lembrar – ou se esquecer.

A atual cultura consumista incentiva as pessoas a querer sempre mais, colocando o pensamento positivo ao seu alcance para mostrar que elas realmente merecem mais e, incidentalmente, podem ter o que desejam se realmente assim o quiserem e estiverem dispostas a se esforçar por isso (leia-se: pensar positivo, tão somente).

Do ponto-de-vista econômico parece não haver nada errado com isso, uma vez que o estímulo ao crescimento espelha um princípio fundamental do capitalismo. Mas outras atividades também impulsionam a economia, como a guerra, o tráfico de drogas, e as Igrejas Evangélicas. Nem por isso, porém, elas são vistas como essencialmente positivas à sociedade.

Os dois últimos, aliás, guardam curiosas semelhanças com a autoajuda na medida em que, muitas vezes, entram na vida das pessoas em momentos de instabilidade emocional, proporcionam breves momentos de euforia, distanciam da realidade e viciam, além de comprometer seus futuros.

O grande argumento de Ehrenreich reside, no entanto, no fato de a autoajuda e o pensamento positivo prometerem benefícios e realizações sem esforço algum – exceto o de se pensar positivo – tal como antecipei em O nascimento do auto-atrapalha. Para ela, “(…) o pensamento positivo não é garantia de sucesso (…) e pode, além de tudo, atrofiar nossa capacidade de encarar problemas reais” (p. 10).

Quando era adolescente,tinha uma conhecida cujo irmão levou um tiro na coluna enquanto brincava com a arma do pai, ficando tetraplégico. Seu discurso, no entanto, era de um injustificável otimismo, apoiado numa fé ilógica na ocorrência do improvável. Impressionou-me, à época, sua quase patológica dissonância cognitiva, negando os fatos e apoiando-se numa realidade semelhante à fantasiada por Manoel Carlos, onde os tetraplégicos terminam a novela dando mortais de costas.

O que você tem feito em busca do seu óleo de Lorenzo?
O que você tem feito em busca do seu óleo de Lorenzo?

Obviamente que quando a verdade é dura demais, procuramos alternativas à ela. Mas é preciso encontrar os limites a partir dos quais isto deixa de ser uma questão de sobrevivência e passa a nos desconectar do mundo.

Por certo é muito fácil escrever isso do meu confortável e saudável lar, dirão meus críticos, mas Barbara Ehrenreich teve esses insights durante suas sessões de quimioterapia enquanto tratava-se de um câncer de mama. Talvez seja este o momento em que o mundo divide-se entre os que ficam pensando positivo e os que partem em busca do Óleo de Lorenzo.

Uma valiosa lição que a História nos ensina, contudo, mostra que o crescimento perpétuo, seja de uma empresa específica ou de uma economia inteira, é uma idéia absurda. Mas o pensamento positivo sugere que isso é possível, senão obrigatório.

Além disso, se o otimismo é a chave para o crescimento material e você pode alcançar resultados positivos através desta filosofia, então não há desculpas para o fracasso, transformando o sucesso no inevitável resultado de qualquer existência mundana.

Ehrenreich ainda ataca o pensamento positivo com uma lógica tão cruel quanto irrefutável: “[s]e o pensamento positivo for correto e as coisas realmente vão melhorar, se o destino do universo inclina-se em direção à felicidade e abundância, então por que se preocupar com o esforço de pensar positivo? Obviamente porque não acreditamos realmente que as coisas vão melhorar por si só. A prática do sentimento positivo torna-se, portanto, um esforço consciente para sustentar esta crença, mesmo diante de tantas evidências em contrário” (p. 5).

Isto aponta, portanto, para a necessidade de uma deliberada autoenganação, incluindo o esforço constante de reprimir ou bloquear possibilidades desagradáveis e pensamentos negativos. Pela lógica, isto representa admitir, consequentemente, que de fato existe lá fora um mundo real, inapelavelmente imune aos nossos desejos e que insiste em nos lembrar que não estamos no controle de tudo.

Minha opinião particular sobre este assunto é que enquanto ficamos com pensamentos negativos na cabeça, deixamos de procurar as soluções para os nossos problemas. Quando trocamos os pensamentos negativos pelos positivos, porém, nossa mente continua ocupada com outra coisa que não resolver o que atrapalha nossa vida. Se para você tudo o que importa é ter bons pensamentos – em vez de maus -, tudo bem, mas seus problemas continuam iguaizinhos – senão piores, porque o tempo está passando.

Como teria surgido, então, a falácia do pensamento positivo e sua milionária forma embalada para presente: a auto-ajuda? Quais as raízes desta doutrina quase religiosa? No próximo texto veremos como Barbara Ehrenreich dissecou suas origens e evolução através dos tempos. Clique aqui e veja como a América foi Do pessimismo calvinista ao otimismo paralisante.

5 pensamentos em “O motor do consumismo e a morte da iniciativa”

  1. Se você observa a coisa mais macro, a grande maioria hoje em dia está desconectada (usando suas palavras) do mundo real.
    De 20 anos prá cá, o acesso a faculdades vem formando muita gente esperta. Esperta e sem ética. Quem lida com publicidade aprendeu a criar um tipo de anestésico que é exatamente o que os pastores, autores de auto-ajuda, psicólogos e terapeutas usam, a alegria/felicidade falsa. A quantidade de pessoas que usam drogas legais hoje é absurda. Tudo para se manter com um sorriso no rosto, não importando o que realmente existe por dentro.
    Muito bom seu texto. É bom encontrar pessoas que ainda teimam em tirar esse pano sobre a realidade imposta.

  2. O pensamento positivo é importante? Sim, porque é uma dose particular e pessoal de motivação.
    Entretanto, como muito bem pontuado, tão e somente ele tende a ter efeito devastador no lidar com problemas e desafios – funcionando como uma viseira equina, que oferece foco, mas subtrai a percepação do todo.
    Um fato simples de ser comprovado descontrói completamente o tema da auto-ajuda: basta analisarmos a quantidade de pessimistas, mal-humorados e infelizes que consquistam sucesso financeiro em suas vidas.
    Pelo raciocínio, já que o pensar positivo traz dinheiro, o pensar negativo deveria afastá-lo.
    Acho que é isso. Parabens pelo tema.
    Um abraço.

  3. É óbvio que o pensamento positivo por si só não é capaz de fazer qualquer coisa. Acho que ninguém é capaz de acreditar nisso. Mas acho também que é inegável que o mundo tenha melhorado, basta ver os avanços na medicina, nos direitos humanos e no índice de alfabetismo comparado com 40 anos atrás (ou mais). Algumas coisas continuam ruins, mas ficar deprimido em um canto de braços cruzados também não vai ajudar.

  4. O golfinho benevolente e a vitória da auto-ajuda

    Nos dois últimos textos explorei as origens do pensamento positivo e da auto-ajuda, além dos motivos pelos quais vejo tais movimentos como prejudiciais. Mas por que então, perguntará a leitora, essas tão insidiosas práticas continuam amealhando cada ve…

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