A TV é um meio sem princípios nem fim

SuperFreakonomics Uma das passagens mais interessantes (e menos exploradas) do SuperFreakonomics – O lado oculto do dia-a-dia aborda a correlação entre a televisão e a violência. Mas antes que a leitora desande a falar mal da programação da TV brasileira (que ela mesma assiste vidrada), esclareço que a nefasta influência pouco tem a ver com o que quer que esteja passando.

No início dos anos 1970, Stanley Milgram (o mesmo dos Seis Graus de Separação e do Experimento da Obediência) fez um dos mais criativos estudos para verificar se o teor dos programas de televisão poderia ter alguma influência no comportamento dos indivíduos.

Em seu elaborado experimento, patrocinado pela rede CBS, Milgram customizou um episódio de Medical Center – uma série de TV sobre a rotina de um grande hospital. Nele, um dos personagens vive um infortúnio atrás do outro: ele perde o emprego, sua mulher fica doente e seu barco afunda (literalmente).

Desesperado, ele arromba a caixa de donativos do hospital e rouba o dinheiro ali contido. O filme oferecia, então, dois possíveis finais: num deles o sujeito é preso pela polícia e, no outro, escapa incólume. Depois que os voluntários assistiam a uma das versões do programa, era-lhes prometido um pequeno rádio como brinde por participarem do experimento, sendo que eles precisavam retirar o mimo num escritório perto dali.

Ao chegar no local, contudo, encontravam-no vazio. Mas numa sala adjacente havia um pote de plástico transparente com donativos para uma obra de caridade. O desfecho do estudo consistia em observar que porcentagem dos voluntários roubava o dinheiro ali contido e ver se havia correlação com a versão do programa assistido.

Realizado entre setembro de 1970 e Novembro de 1971, o experimento falhou em mostrar qualquer relação entre o que as pessoas assistiam e seu posterior comportamento. A atitude antissocial do personagem da série não era suficiente para influenciar os participantes do estudo.

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O que você está assistindo, pequeno meliante? (Fonte: Getty)

Mas como, então, a TV conseguiria alterar o comportamento das pessoas, se não através do conteúdo dos seus programas? Levitt e Dubner encontraram a resposta vasculhando estatísticas de três décadas antes do experimento de Milgram.

Durante a década de 1940, as transmissões de TV foram avançando nos EUA uma cidade após a outra. Esta penetração sequencial revelou-se um imenso laboratório natural uma vez que, incidentalmente, dividia o país entre as localidades que tinham TV e as que não tinham. Os pesquisadores puderam, então, avaliar semelhanças e diferenças entre essas e aquelas. Uma das diferenças era, exatamente, o índice de violência.

Segundo suas contas, para cada ano a mais que uma cidade foi exposta à TV, os crimes violentos aumentavam em 2%, enquanto que infrações contra a propriedade cresciam à taxa de 4%. Pode não parecer muito, mas durante a década de 1960 inteira isso representou, para as cidades com TV, índices de violência maiores em 25% e 50% respectivamente – esse sim, um número alarmante.

Até aí, nenhuma novidade, certo? Mas o grande talento do pesquisador revela-se na busca de explicações para o fenômeno observado. Os autores de SuperFreakonomics propõem uma teoria pouco ortodoxa: crianças que passam longo tempo na frente da TV têm maior propensão a cometerem crimes na idade adulta, independentemente do que assistam.

A interessante idéia de Levitt e Dubner chama atenção não para o que a criança faz (assistir TV), mas para o que ela deixa de fazer. Quanto mais tempo uma criança passa à frente de uma TV, menos tempo ela tem para brincar com seus amigos, ler ou interagir com a família. Do mesmo modo, pais que assistem muita televisão dedicam menos atenção a seus filhos. Com esse esgarçamento das relações sociais e familiares, valores éticos e conceitos morais tornam-se mais frágeis, abrindo caminho para desfechos indesejados. Como a violência.

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A TV preparando mais uma grande geração

Quase meio século antes de Levitt e Dubner, o canadense Marshall McLuhan escreveu Understanding Media: The Extensions of Man, onde cunhou sua célebre frase O meio é a mensagem*.

Com essa econômica sentença, McLuhan deu importante contribuição à Teoria de Comunicação sugerindo que, muitas vezes, o meio de comunicação interfere diretamente na forma como a mensagem é percebida. Isto é, uma mesma mensagem pode ter impactos diferentes se for transmitida pela televisão, impressa numa revista, rodopiada num aviãozinho na praia ou estampada nas costas de um campeão olímpico.

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E o que temos, pois, quando juntamos Levitt e Dubner com Milgram e McLuhan? Temos uma sociedade que enfia a cabeça dentro de um tubo enquanto a vida passa lá fora. Temos um meio de comunicação que dita normas, regras e comportamentos. Temos um meio que passa a mensagem sobre o que pensa o povo. Ou pensará. Mas será isso tão ruim assim? Não. Ainda temos o Big Brother…

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* McLuhan também é o autor da frase “Se funciona, já é obsoleto” além do termo “aldeia global”. Outras tiradas suas incluem “Posso estar errado, mas nunca estou em dúvida”, “Dinheiro é o cartão de crédito do pobre”, “O problema da educação barata é que você nunca para de pagar por ela”, “O alimento da mente é semelhante ao do corpo: o que sai nunca é igual ao que entra” e a intraduzível All advertising advertises advertising.

8 pensamentos em “A TV é um meio sem princípios nem fim”

  1. Violência e TV é aquele tipo de sabedoria burra… ninguém conseguiu até hj provar nada, mas todos dizem que há relação… é igual beber 3L de água por dia ou comer carboidrato à noite rsrsrs
    Abrax

  2. Eu, normalmente, acho muito bons os textos de Rodolfo. Mas esse eu achei meio fraco.
    Sobre o tema ainda há muito mais a esmiuçar. Existe vários tipos de violência. Alguns são causados contra nós pela televisão, basta ver o modelo de vida.
    Só no final do texto ele aborda isso:
    “o que temos, pois, quando juntamos Levitt e Dubner com Milgram e McLuhan? Temos uma sociedade que enfia a cabeça dentro de um tubo enquanto a vida passa lá fora. Temos um meio de comunicação que dita normas, regras e comportamentos. Temos um meio que passa a mensagem sobre o que pensa o povo. Ou pensará. Mas será isso tão ruim assim? Não. Ainda temos o Big Brother…”
    Creio eu que daí da pra se desdobrar outras coisas…
    A televisão começa a mudar a percepção do ter para ser, com toda aquelas propagandas, isso é uma forma de violência… Violento não é só machucar fisicamente. Subjulgar alguém a uma determinada posição social pois não tem determinado produto é uma forma de violência, não tão nítida, mas ainda presente.
    Eu acho que ainda tem muitas coisas que podem ser abordadas nesse tema…

  3. Oi, Rodolfo!
    Concordo com o Alexandre, excelente texto para a série de paternidade.
    “A pessoa aprende sem o saber, e em consequência sem saber o que aprende. A violência da situação televisiva manifesta-se nesta espécie de captura de quem vê e que sem esforço não se consegue afastar.” (Liliane Lurçat, “Tempos Cativos: As crianças TV”)
    Isso aí, o problema é trocar um tempo com qualidade junto com seu filho por falta de conteúdo e reflexão. Aliás, o típico é que esteja cada um num canto, em frente a uma TV, assistindo a programas diferentes. Não é só o computador que é pessoal, a TV também se tornou individual.
    Minha filha não assiste TV no quarto. Ao menos, estamos sempre próximas para que uma reflexão seja possível, e também controle de tempo e tipos de programas.
    Aliás, as propagandas do canais infantis a cabo – todos – são as piores e mais consumistas possíveis.
    Você tem razão, ainda há mais a ser abordado nesse tema, e já aguardo os próximos posts!
    Bj

  4. Sou admirador do trabalho de Levitt e Dubner, ainda não li esse SUPER, mas imagino ser um investimento certo para os próximos dias.
    Adoro esses laboratórios psicológicos, um deles é bem famoso e tenta entender de onde vem essa violência humana.
    Falei de Dr. Philip Zimbardo aqui, e sempre gasto algum tempo lendo sobre essa coisa da psique humana.
    Lembro-me de um inesquecível texto que li em uma revista Seleções: “A Televisão comeu minha melhor amiga”. A narradora contava como o advento da TV mudou radicalmente sua infância.
    A TV nunca me assustou, já a Internet me deixa cada dia mais aterrorizado. É a maior arma já criada pelo homem. As chances de guerras começarem por água, estão ficando pequenas comparadas com o duelo pela rede que irá começar em breve. A economia sempre foi base do mundo moderno, e nunca existiu ferramenta mais poderosa de destruição que a informação em tempo real. As pessoas estão tão lincadas a rede que já se tornou um membro biológico, uma extensão do corpo. E se Levitt e Dubner começarem a comparar adolescentes/sexo/humor/qualidade de vida/familia/felicidade, a coisa vai se mostrar insustentável.

  5. Experimentos em Psicologia – A unanimidade burra de Solomon Asch

    O próximo pesquisador apresentado por Lauren Slater (em Opening Skinner’s Box: Great Psychological Experiments of the Twentieth Century) é Stanley Milgram, que realizou um dos mais perturbadores Experimentos em Psicologia de que se tem notícia. Enquant…

  6. Retrospectiva 2010

    Segundo o Google Analytics, quase 160 mil pessoas passaram pelo blog neste ano – um número do qual me orgulho muito, depois de mais de dois anos do início do Não posso evitar… 2010 não foi um ano tão prolífico…

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