Futebol, política e tomates

Uma lei acabando com os jogos de futebol às 22:00h foi recentemente aprovada pela Câmara Municipal de São Paulo, mas vetada pelo prefeito Gilberto Kassab. Em breve voltará a plenário para ver se o Legislativo derruba o veto do Executivo.

Já na Câmara Federal, um projeto de lei impedindo que cidadãos com problemas na justiça concorram a eleições demora a decolar. Este, é claro, não vai a lugar algum, porque contraria os interesses dos políticos. Eles próprios, sempre enrolados.

Mas o que esses dois casos têm em comum? Ambos são exemplos de como a população não consegue se mobilizar para resolver problemas do seu interesse imediato.

Você come porque gosta. Ou não?
Você come porque gosta. Ou não?

Se ninguém gosta de jogo de futebol que começa às 22:00h e termina perto de meia-noite, por que não deixam de ir?

Com duas rodadas de estádios vazios, será que as federações não mudariam os horários, independentemente dos contratos com as televisões? Será que as torcidas não sabem o que é boicote? Não conseguem se mobilizar para poderem torcer por seu time num horário mais tranquilo?

Já o caso dos políticos, considero ainda mais intrigante. Porque você não precisa mobilizar toda uma torcida de futebol. Basta que você – repito: você – não vote num candidato que tenha problemas com a justiça. A coisa me parece tão simples que não entendo o alvoroço em torno dessa lei.

Parece uma lei que proíbe as pessoas que não gostam de tomate, de comer tomate. Precisa de lei para isso? Ou o único motivo que leva uma pessoa que não gosta de tomate a comer tomate é querer sofrer, só porque gosta de sofrer?

E antes que venham com esse papo de que o povo é ignorante e não consegue separar o bom do mau, eu respondo: o eleitor do Maluf não sabe que ele é ladrão? E ele não tem milhões de votos em toda eleição? Isso quer dizer que o eleitor vota em ladrão mesmo sabendo que ele é ladrão.

Ah, mas o Maluf é um caso atípico, dirá a leitora, porque seus problemas com a justiça estão sempre na mídia. A maioria dos outros políticos não tem tanto destaque assim e, por isso, não tem como saber se tem algum processo pendente.

Ora, direi eu, o mínimo que um eleitor deve saber sobre o seu candidato é se ele é honesto. Se o eleitor não tem interesse em saber sobre o passado do seu candidato, então o que tem de errado um estelionatário ser governador ou um assassino ser presidente?

Por favor não venham com esse papo de que a maioria dos eleitores não tem condições de saber coisa alguma sobre os candidatos. O eleitor consegue saber muitas coisas sobre a novela, sobre o Big Brother e sobre o pastor Fulano. Além disso, se ele não tem condições de saber nada sobre um candidato, como ele pode escolher um em vez de outro? Como ele vota? Por que ele vota???

- Esse povinho bunda faz-me rir. Duas vezes.
– Esse povinho bunda faz-me rir. Duas vezes.

Desde a época da nossa ditadura, o brasileiro tem um incrível ranço por leis. São contra qualquer tipo de lei, só pelo fato de representar um tiquinho de regulamento. Brasileiro detesta seguir regras. Mas quando precisa fazer alguma coisa por livre e espontânea vontade, para atingir um objetivo que lhe interessa diretamente, aí ele precisa de uma lei.

Mas quando vier a lei, aí vão dizer que agora não conseguem assistir ao futebol porque ainda estão no trabalho. Que o Maluf está sendo perseguido. E aí vão apontar o monstrinho da pseudoditadura embaixo da cama. Povo esquizofrênico, meu Deus…

Esse mesmo povo, que não consegue se mobilizar por causa de questões que lhe interessam diretamente, decidiu o último Big Brother Brasil com 195 milhões de votos. Lula foi eleito com pouco mais de 60 milhões. Esta última edição, aliás, teve mais votos do que todas as eleições para Presidente do Brasil. Somadas.

Esse povinho que não consegue mudar o horário de um jogo de futebol quer acabar com a corrupção? Esse povinho que vota em político que é ladrão (sabendo que é ladrão) quer salvar o meio ambiente? Tá bom…

ATUALIZAÇÃO 28/04/2010: Estava demorando, mas já marcaram uma passeata pela Lei da Ficha Limpa. Onde? Em Ipanema, claro. Domingo, dia 2. Não perca mais essa festinha e, quem sabe, um chopp depois.

12 pensamentos em “Futebol, política e tomates”

  1. Esta aí mais uam boa crítica de Rodolfo…
    As indagações no final do texto são exemplos tão claros…
    Por que dar tanto valor ao bbb e não a política que involve diretamente sua vida???
    Não entendo…

  2. A sua avaliação está corretíssima e seria perfeitamente aplicável em países de 1º mundo. Como ainda não passamos do 3º, em termos de educação, cidadania e civilidade, só mesmo a lei para regular esse circo.
    E, para completar a triste sina do brasileiro, ainda temos um legislativo que legisla em causa própria e um judiciário que julga sem a venda nos olhos.
    Enquanto isso, continuo vendo milhares de pessoas que se mobilizam de todos os cantos do Rio para encontros evangélicos, finais de campeonatos e paradas arco-íris.
    Salve-se quem puder!!!

  3. forma vs essência….
    povinho que tem medo de leis, que tem amor a leis só para reclamar quando a eles são aplicadas, e reclamar quando ninguém as cumpre
    esquizofrênico mesmo….
    pelo menos tivemos um exemplo de um bom policial em SC respondendo ” .. e daí?” para a carteirada ” … sabe quem eu sou?”
    estou desconexo hoje, é sono …..
    Muito boa análise (curta e correta) (no mundo moderno a tendência é que só se dê valor para análises longas, mesmo que terminem na mesma constatação) ….

  4. Acho que a lei é totalmente válida. Afinal quantas pessoas vão ter acesso a ficha criminal de um político? Esta é a questão. Se as fichas criminais dos candidatos estivessem a livre disposição de todo mundo tudo bem.
    Se você compra um produto pela ótima propaganda e quando chega em casa e não funciona o que você faz? Provavelmente vai reclamar de propaganda enganosa. Considerando uma questão tão importante como a política faz todo o sentido que o produto estragado não possa ser vendido……..

  5. Rodolfo, concordo com você. O povo ainda acredita em salvadores da patria, mais ainda, do tipo super heroi(Marvel Comics), que sem nenhum esforço por parte do povo, salva o planeta.

  6. Caro Rodolfo.
    Você perguntou: Mas porque votam?
    Votam por que é obrigado!
    Se não fosse, nínguem votaria por cabresto, ou sem conhecer os candidatos.
    Aqui temos que engulir uma eleição guela abaixo, e alguns candidatos esdruxulos.
    Como a Silvia falou, se vivessemos em um pais de igualdade, talvez pessoas não votassem em criminosos.
    Abraços

  7. Toda a razão à Silvia, enquanto pouca gente tem cabeça para se importar, ainda precisamos da lei para ajudar a regular esse circo. (Todos os meus últimos votos concientes não pareceram fazer cócegas no sistema…)

  8. Mate-me, por favor

    Começou na TV e nos jornais a campanha para crucificar o segurança que atirou num aposentado na porta do banco, nesta semana. Sem dúvida que uma bala na cabeça é terrível, uma tragédia pessoal e familiar. Mas isso não justifica…

  9. Não é tão simples assim.
    Não basta não votar em quem tem processos.
    Há um problema bem maior: a crise do processo eleitoral brasileiro.
    Por causa do mecanismo das coligações e do quociente eleitoral, mesmo que se vote somente nos bons políticos, as sobras eleitorais servem para eleger pessoas totalmente diferentes.
    Basta ver o caso de Eneias e de seus companheiros de partido. E isso extrapola o mesmo partido.
    Com o Ficha Limpa, candidatos condenados ficaram inelegíveis.
    Para que o voto tivesse o mesmo efeito do ficha limpa, será necessária a reforma eleitoral. Como diria Lúcia Hippolito, o sistema eleitoral brasileiro entrou em colapso de representatividade. E esse é o motivo que faz o Ficha Limpa ser tão revolucionário e mais que isso, necessário!

  10. Eleitores ficha-suja

    Causou comoção a recente decisão do STF de que a Lei Ficha Limpa não valerá para as eleições de 2010. Como tuitou a Senadora @Marinor Brito (PSOL-PA) “A constituição diz, pode ser corrupto até 2010 e em 2012 não?”. O…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *