Das coisas simplesmente boas

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Dunga, um vencedor questionado

Semanas atrás Dunga convocou os jogadores que disputarão a Copa do Mundo na África do Sul, no mês que vem. Todo mundo chiou, reclamou por Pato ou Ganso, Nilmar ou Neymar. O brasileiro já culpa o Dunga pela perda de uma Copa que ainda nem começou.

Não concordo 100% com seus escolhidos, mas talvez o único jogador de quem sinto falta na lista é Roberto Carlos – e mesmo assim não é muita.

Dunga está sendo criticado por convocar exatamente os mesmos jogadores que classificaram o Brasil em primeiro lugar nas Eliminatórias (9 vitórias, 7 empates e 2 derrotas) dando uma chinelada na Argentina lá na casa deles, ganharam a Copa América e a Copa das Confederações (com direito a uma piaba na Itália).

Reclamam que os jogadores chamados são reservas em seus times – e às vezes nem isso. Estão corretos. Mas eles são verdadeiros leões com a camisa da seleção. Bem diferente daqueles que comem a bola em seus clubes e têm nauseantes indigestões na seleção. Raí em 1994 e Ronaldinho Gaúcho em 2006 são exemplos disso, além do argentino Messi.

Independentemente de como estejam em seus clubes, Elano é um monstro na seleção (no bom sentido), Luís Fabiano é fabuloso e o criticado Júlio Baptista deve ter a maior média de gols por minuto jogado. Marcou um golaço no chocolate contra a Argentina na Copa das Confederações de 2005 e evitou uma humilhante derrota para o Equador nas Eliminatórias, mesmo com Ronaldinho Gaúcho e Robinho em campo. Equador!

A torcida queria Neymar e Paulo Henrique. Jogam o fino no Santos e já estão entrosados com o Robinho. Mas futebol são onze. Faltam oito. Oito que eles nunca viram na vida.

No futebol de hoje um talento excepcional não ganha um campeonato. Sim, o Messi levou o Barcelona nas costas o ano todo. Mas quando foi bem marcado pelo ferrolho italiano – o que se faz com disciplina tática, preparo físico e bem menos talento – seu time foi massacrado pela Internazionale na Copa dos Campeões. E sem esquecer que estamos falando de seleções e Copa do Mundo – e não de um campeonato que tem todo ano.

Neymar já pregou enormes brilhantes em suas orelhas, raspou o cabelo à moda moicana e troca a cor de suas fluorescentes chuteiras a cada jogo. No Paulistão desse ano ficou descontrolado ao ser expulso por falta violenta quase no final do clássico contra o Palmeiras.

Cuidado Messi, lá vem o Lúcio!
Cuidado Messi, lá vem o Lúcio!

Já Paulo Henrique, dois anos e meio mais velho que Neymar, acumula a seriedade e maturidade que faltam ao seu companheiro de clube. Aparentemente ele é imune às más influências de Robinho, seus deboches, sua soberba e a fanfarronice que o fizeram fracassar espetacularmente na Europa.

Nas categorias de base da seleção, Paulo Henrique foi vice-campeão mundial (sub 20) em 2009 no Egito, enquanto que o time de Neymar sofreu uma inédita eliminação na primeira fase do torneio (sub 17) de 2009 na Nigéria.

Parecer bom não é suficiente na seleção brasileira, especialmente numa Copa do Mundo. Portugal não é Naviraiense. O buraco é bem mais embaixo. A pressão é enorme. Ronaldo teve convulsões em 1998, no auge de suas formas física e técnica.

Em 2006 Parreira levou os favoritos do público e comandou, ou melhor, assistiu àquele papelão da seleção de um bilhão de dólares.

Doze anos antes, o mesmo Parreira ainda não tinha muito a perder e ousou ganhar uma Copa do Mundo com um time mediano. Um time que recebe dez vezes mais crítica do que o de 2002, que levou o mesmíssimo troféu. O time de 1994 paga por ter ganho pela força do conjunto, da disposição tática – apesar de ter merecido o prêmio da Fifa para a equipe que mais deu espetáculo, além do destaque de Fair Play.

Nós brasileiros amamos heróis maravilhosos que dão piruetas e morrem pobres, de cirrose. Veneramos os habilidosos fora-de-série que driblam na ida e na volta sob efeito de infiltrações e voltam para casa de muletas. Mas ganhar de 1×0, huh-huh!, não é bacana. É inglório.

E talvez por amar o bonito excêntrico, o artista acrobata, por esperarmos sempre a perfeição, deixamos muitas coisas simplesmente boas passarem por nós. Por isso somos pobres. Pentacampeões, mas pobres.

Mané Garrincha e joão. Só joão.
Mané Garrincha e joão. Só joão.

Mas ser pentacampeão não contradiz minhas idéias? Absolutamente que não. Ganhamos três títulos na época do futebol romântico, quando os jogadores fumavam no intervalo do jogo. E mais dois no futebol profissional, onde nossos jogadores falam italiano e espanhol com seus colegas de time.

Em seu texto sobre a convocação, Juca Kfouri diz que Kaká é o Raí de 1994 e torce para não se repetir o que aconteceu naquela Copa. Eu torço para que 1994 se repita, ainda que com Josué substituíndo o camisa 10. Fomos campeões naquele ano. Kfouri confessa invejar argentinos e espanhóis. Um bobo. Aqueles vão à Copa sem Cambiasso, o melhor jogador da Copa dos Campeões também por opção de seu treinador. E estes, coitados, cada ano têm uma seleção melhor, cada ano levam um tombo maior (bem, dessa vez eles ganharam…).

Num texto anterior o mesmo Kfouri diz que seu meio-campo seria composto pelo formidável Hernanes, o habilidosíssimo Elias e o inigualável Arouca. Entre as traves o ex-goleiro Marcos. Como técnico, Kfouri é um péssimo humorista e junta-se ao Milton Neves e demais colegas para torcer contra. Este, aliás, foi extremamente grosseiro com Dunga na coletiva de imprensa após a convocação. Perguntou-lhe se não temia passar para a história como o técnico que deixou os dois santistas fora da seleção, comparando-o a Menotti que não convocou Maradona em 1978.

Milton Neves só não esperava que Dunga tivesse evoluído como entrevistado assim como o fez como técnico. Começou perguntando de volta quem tinha ganho em 1978. Sem Maradona, foi a Argentina. Menotti passou para a história como técnico campeão em 1978 e não como o técnico que deixou Maradona de fora. Argentino é sério nessas coisas. Em seguida, Dunga lembrou que o entrevistador fala mais de ofertas em seu programa do que de futebol. Em homenagem aos velhos tempos, direto na canela!

A imprensa no Brasil vive de tragédias, de falar mal dos outros. Sobrevive dos mortos e dos desgraçados. Só que Dunga personifica o fracassado que deu a volta por cima – o que atrapalha a imprensa. Para Dunga ser notícia e vender jornal, ele tem que se dar mal (ganhar a Copa vende jornal no dia seguinte; perder vende no mês seguinte inteiro; culpa sua que compra).

Seleção de 94 seria menos criticada se tivesse perdido
Seleção de 94 seria menos criticada se tivesse perdido

Criticam porque ganhamos nos pênaltis. Tivéssemos perdido, certamente não criticariam tanto. Noutro país Dunga seria um ídolo incontestável, herói nacional.

Carlos Alberto Torres é lembrado como o Capitão do Tri, mas ninguém chama Dunga de Capitão do Tetra – apesar de ele ter tido uma participação infinitamente mais decisiva na conquista da sua equipe do que o ex-lateral. Sua alcunha sempre faz alusão ao bando liderado pela Branca de Neve.

Preferem venerar Romário, que faz gol contra Camarões e se esconde contra a Itália*, faz cinco gols contra o Madureira e não joga contra o Vasco ou Flamengo, conforme o semestre. Bebeto jogou muito mais bola do que ele em 1994.

O lado positivo dessa história é que se todos detestaram tanto a convocação, se ninguém acredita nesta seleção, se Dunga é a unanimidade negativa, então provavelmente ninguém assistirá aos jogos, certo? Assim, pela primeira vez desde 1970, quando começaram as transmissões ao vivo pela TV para o Brasil, o país não vai parar durante uma Copa.

Claro, porque torcer para uma coisa que você não acredita é masoquismo. Ou burrice mesmo…

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* O gol contra a Holanda foi lindo porque ele faz daquele jeito, como num passe de balé. O Zinho teria feito aquele gol com o outro lado do pé, o Raí teria feito de peito e o Dunga de carrinho. Fazer o gol em si não seria dificuldades para nenhum jogador daquele time – exceto o Aldair, que deu o passe de 50 metros para o Bebeto tocar para o Romário, na cara do gol e, por isso, não conseguiria chegar a tempo.

9 pensamentos em “Das coisas simplesmente boas”

  1. Oi, Rodolfo,
    Como você sabe, eu adoro futebol. E uma das coisas que mais gosto no esporte é a sua imprevisibilidade. Acho que é o único em que nem sempre o melhor vence. E vencer, no fim, é o que importa. Por 1×0, 10×0… Não importa, “the winner takes it all”.
    Não gostei da seleção do Dunga, e o excelente texto do Marcelo explica o que penso melhor do que eu: http://blog.oquederevier.com/2010/05/05/porque-dunga-nao-vai-convocar-neymar-e-ganso/
    Mas, é o que temos para o momento. Então, vou torcer sim, e ficar feliz com a vitória, seja qual for o placar ou o estilo. Como fiquei em 1994.
    PS Eu adoro o Romário.
    PS 2: Adorei a frase “deixamos muitas coisas simplesmente boas passarem por nós”. No futebol, como na vida.
    Beijo

  2. Gostei bastante do texto, apresenta uma visão diferente do “feijão com arroz” que vemos por aí em todo lugar, mas discordo quando você critica a exigência do torcedor brasileiro de querer não apenas que o Brasil ganhe a copa, mas que ganhe jogando bonito, dando show, pra mim isso é ótimo!
    O futebol é mais do que apenas resultado, veja pela própria Nike, quem ela prefere patrocinar? jogadores puramente objetivos ou firulentos como Cristiano Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho? Quem vende mais camisas?
    O fato do torcedor brasileiro não se contentar com vitórias magras de 1×0 mostra que a diversão que ele procura no futebol vai além do mero resultado, a alegria de ver o time bonito as vezes supera o título em si.O torcedor prefere uma seleção que dê show porque sabe que ela ficaria imortalizada na cabeça de todos como foi a de 70, ou mesmo o carrossel holandês que não foi campeão, mas de que todos se lembram.
    Um torcedor de um país que já possui 5 títulos deve exigir não apenas que se ganhe mais um, mas que se dê show, já que assiste o esporte apenas buscando emoção e diverção, além dos resultados, é claro, mas estes são mais importantes para os dirigentes, jogadores, técnicos, etc que ganham dinheiro com isso…

  3. Interessante o comentário do Barata, concordo com ele no que diz respeito ao se esperar um belo show de futebol apresentado. É óbvio que o resultado de tanto show (o placar), caso não seja bom, provavelmente tirará a magia da diversão obtida com o jogão de bola. Contudo, um bom futebol apresentado é o mais importante para aqueles que realmente amam o esporte, pois quem realmente gosta, assiste tanto os jogos dos seu time, quanto aos de outros, que é o caso atual do Santos, que dá prazer de assistir esse time jogando (obs.: sou Flamenguista) pelo belo futebol ali mostrado. E é o mesmo que penso em relação a uma embaixadinha feita durante um jogo, um drible por debaixo das pernas, etc, descordo quando muitos dizem que isso é falta de respeito com o adversário, ora… isso é futebol, é show! Fala sério! Isso sim é bonito de se ver, e não aquele time medíocre jogando e ganhando por algum gol feito com pura sorte! Enfim, existem os que amam o esporte futebol, e existem os que amam a farra que se tem ao sair um gol, o estar num bar bebendo com amigos durante um jogo, etc, esses sim contentam-se com apenas qualquer vitória, pois não se importam com o show de bola e sim com a brincadeira em torno disso, o que não tem nada demais também, óbvio. Mas agora falando do texto, gostei muito dele! Por mais que eu ame psicologia e tenha lido todos os experimentos aqui apresentados, mesmo sabendo da unanimidade burra e da ignorância pluralística, por vezes aceito o que a mídia nos fala, mas faço isso despercebidamente, e os textos desse ótimo blog abrem meus olhos, e esse é mais um deles, e assim, torcerei muito pelo meu Brasil, até por que amo meu país e sou bem patriota, e afinal de contas, tenho certeza que todos ali presentes não estão a toa, além de serem profissionais bem qualificados por assim dizer, são craques da bola também, capazes de dar um show. É isso ai Brasil, seja como o Mengão (puxando saco agora, hehe) rumo ao HEXA! Abraços!

  4. Essa seleção pode até ganhar a copa, mas a convocação é ruim sim. Parreira levou para a copa de 2006 o mesmo grupo que havia vencido as eliminatórias, a copa américa e a copa das confederações, uma seleção que jogava bem e vencia, mesmo assim isso não foi garantia de sucesso. Messi joga mal na Argentina porque é mal escalado, o time é um bando e não tem um pingo de disciplina tática. Na convocação do Brasil, o que existe é um excesso de jogadores que fazem a mesma função e uma falta absurda de talento pra uma seleção como o Brasil. Pode ter ganho o que quiser, pode até ganhar a copa, mas não vou concordar com uma seleção destas de modo algum. Uma seleção que só tem um esquema tático e que corre o risco de sair na primeira fase. É só olhar os jogos onde o Brasil teve dificuldades e analisar que a partida mais difícil que teremos será contra a Coréia do Norte. Como um time que SÓ joga no contra-ataque vai jogar contra uma seleção que não deve atacar? Não conseguimos vencer a Bolívia no maracanã e todos os bons resultados que vc mencionou foram contra times que se abriram contra o Brasil. O time de 94 era igualmente medíocre em todas as posições, com excessão do gênio do futebol que tínhamos na frente, coisa que não temos hoje. Romário decidiu a maioria dos jogos de 94, quem você enxerga decidindo os jogos dessa copa?

  5. Não foi essa seleção sem talento que deu um nó na Argentina nas Eliminatórias?
    Acho que vários jogadores podem decidir as partidas. De Maicon a Kléberson, todos fazem gols.
    Mas o bom do futebol é que não precisamos de consensos – especialmente em Copa do Mundo.
    Abraço, Rodolfo.

  6. O Barça nem enfrentou o Bayern, quem “massacrou” o Barça foi a Inter (desde que vc considere uma vitória pra cada lado e a diferença de um gol massacre). E o Bebeto Pipoca definitivamente não jogou mais que o Romário. Parafraseando você mesmo, o Rodolfo Araújo como comentarista de futebol é um péssimo humorista.

  7. Putz Antonio, falha terrível, já remendada! Obrigado por tão educada correção.
    Quanto ao Bebeto, é questão de opinião: eu tenho a minha, você tem a sua e as leitoras podem ter outras. Meu blog aceita todas.
    Atenciosamente, Rodolfo.

  8. concordo com esse sujeito que escreveu e sim bebeto é gênio e injustiçado romário fez gol contra camarões mas contra a itália foi fraquinho se bebeto não é gênio Romário também não .romário fazia gol de bico todo mundo achava o maáximo bebeto em pleno maracanã contra a argentina de maradona fez de voleio eningém lhe deu uma placa merecia e mais romário fez mil gols….KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK boa tarde e sejam mais justo

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