Mate-me, por favor

Começou na TV e nos jornais a campanha para crucificar o segurança que atirou num aposentado na porta do banco, nesta semana. Sem dúvida que uma bala na cabeça é terrível, uma tragédia pessoal e familiar. Mas isso não justifica a pressa da atribuição automática de culpa.

Antes que alguém já pense em me criticar, adianto que não escreverei especificamente sobre o caso mencionado acima, mas sobre as atitudes individuais nessas situações e suas repercussões.

Portas de banco são um ótimo palco para essas demonstrações públicas de macheza, falta de civilidade e, como vermos adiante, burrice. Acontece assim: o sujeito chega na porta giratória do banco e ela trava. O segurança pede que você esvazie seus bolsos e mostre seus objetos metálicos.

– Cidadão, posso ver essa sua arma, por gentileza?
– Cidadão, posso ver essa sua arma, por gentileza?

Escrevi recentemente sobre o ranço idiota que o brasileiro tem de autoridades – especialmente as fardadas. Some-se a isso um grande apreço por aparecer em público e temos uma tragédia anunciada.

Aí começa a novela: o cidadão se acha insultado, ofendido, violado. Esquece-se que o aparato está ali para garantir a segurança das pessoas que estão dentro do banco, além da sua própria. Acha que tanto a porta quanto o segurança foram colocados com o único propósito de perturbá-lo, humilhá-lo.

Há vários relatos de criativos estratagemas utilizados por bandidos para entrar com armas em bancos. Desde cadeiras de rodas e muletas, passando por velhinas doentes e toda sorte de falsos pobres coitados. Os guardas estão escaldados e agem como tal.

Para o cidadão honesto que realmente vai ao banco cuidar de seus assuntos, resta entender o ambiente psicológico onde trabalha o segurança e, consequentemente, obedecê-lo. Há algum problema nisso? Claro que não! São as regras da casa, ora. No banco, você tem que mostrar o que carrega para poder entrar. Caso contrário, fica do lado de fora. Ponto.

No barbeiro, você não deixa um estranho colocar uma navalha na sua garganta? Numa sapataria, você não anda descalço ou de meias pela loja, nas pontas dos pés? Determinadas situações têm suas próprias regras. Um banco também.

Muita gente argumenta que os guardas são despreparados para a função, uns verdadeiros trogloditas de fardas. Isso é realmente lamentável para nós, clientes, que merecíamos um tratamento melhor. Ao mesmo tempo, é mais um motivo para manter a calma e ser ainda mais cauteloso. Se eles não têm o treinamento adequado para lidar com o público, nós tampouco temos habilidade para negociar com alguém armado.

Bandidos criativos e suas armas fantásticas (The day of the jackal)
Bandidos criativos e suas armas fantásticas (The day of the jackal)

No caso dessa semana, o aposentado usava um marcapasso, que o detetor de metais da porta giratória logo acusa. Segundo testemunhas, ele teria dito que entraria à força. Ora, não se pode entrar num banco à força! Em muitos lugares não se pode entrar à força. A regra é clara. Em alguns deles, quem insiste leva um tiro.

Das duas pessoas que participam desse drama, apenas uma delas tinha a certeza de que a outra estava armada. E como será possível que seja justamente esta que desafie a outra? Não me parece uma atitude muito inteligente.

Uma amiga me disse que eu não estava lá para ver e, por isso, não posso julgar. Verdade, eu não estava lá. Ninguém estava. Todas as notícias dos jornais, no entanto, põem a culpa no segurança. Sem ter visto o que realmente aconteceu.

Como disse no início, este incidente é uma tragédia particular para o aposentado e sua família. Por favor não me acusem de culpar a vítima, mas isso poderia ter sido evitado. Por ambas as partes.

Devemos pensar, por outro lado, quantas famílias estariam lamentando seus entes queridos, caso os bancos não tivessem portas giratórias. Quantos assaltos e a consequente violência já foram evitados por esses aparatos? Sim, pois já existe um clamor popular no sentido de banir o artefato. Os bandidos estão torcendo!

11 pensamentos em “Mate-me, por favor”

  1. Prevenção imprevisível

    Nesta semana o STJ isentou o Shopping Morumbi, em São Paulo, do pagamento de indenização aos pais de uma das vítimas do atirador que matou três pessoas durante um acesso de loucura num dos seus cinemas. O crime, ocorrido em…

  2. cara, concordo novamente …. e o ponto que TODOS devem ler antes de recriminar seu texto, como tenho certeza que muitos farão é a parte sobre uma das pessoas apenas ter certeza que a outra está armada ….
    o ladrão que te rouba está certo? claro que não, mas você não discute com ele (ao menos, quem tem um pouco de cérebro, e quer continuar com ele, não discute).
    a próxima bola da vez pros jornais será o scanner de corpo inteiro no aeroporto. é claro que você poderá se negar a passar por ele, e não poderá, somente por essa recusar, ser impedido de embarcar …. mas a contra-partida óbvia disso é que a polícia/ segurança vai achar estranho sua recusa e poderá, dentro das regras do local (a que o Rodolfo já citou), usar de outro expediente para certificar que você não se trata de um terrorista maluco … e aí vai começar o bate-boca …. long story short:: você que embarcaria em 10 minutos se passesse no scanner, não vai embarcar, vai aparecer nos jornais, pedir na justiça por isso e aquilo …….
    muita saúde para o senhor baleado, que se recupere. muita justiça para o segurança (qualquer que seja o resultado justo dessa justiça).

  3. Parabéns Rodolfo.
    Eu, de fato, pensei como a maioria, pelo local de disparo. Não estava lá, não vi, mas você chamou a atenção pro outro lado da moeda, o que é importante, sempre.
    Engoli a história da mídia como um amador…
    Parabéns por mais um texto cheio de função social!!!

  4. Caro Rodolfo,
    Como ex-bancário e como cidadão parabenizo você por este artigo. Não foram poucas as vezes que tive que ouvir desaforos da parte de clientes irresponsáveis e sem educação. Sem dúvida, já está na hora da imprensa agir de forma imparcial quando acontecem tragédias do tipo ora sob comento. A verdade não está automaticamente do lado da vítima. Exemplo disto é o caso do jornalista que matou uma criança numa briga de trânsito em Campo Grande (MS). Em sã consciência um cidadão de bem jamais mataria um menor, ainda mais da forma como aconteceu. Porém, basta dirigir alguns minutos na cidade para você ficar com os nervos à flor da pele tanto é o desrespeito às normas de trânsito e de civilidade que, por menor que seja o desentendimento, já é suficiente para desencadear brigas com consequências imprevisíveis.

  5. Caro Rodolfo,
    Parabéns pela abordagem. É preciso coragem e maturidade para se procurar entender o outro lado da história.
    Entendo que a questão da segurança tenha que ser amplamente debatida, pois aos Bancos cabe a obrigação de proteger-se e proteger seus clientes e usuários, há até equipamentos obrigatórios, como a porta giratória ou eclusa, mas a população em geral se sente ofendida ao ter que submeter-se a um protocolo de segurança…
    Acho que a imprensa, que tem um poder de penetração tão grande, que consegue condenar ou inocentar antecipadamente, deveria usar tal poder para instruir, esclarecer, educar a população sobre a importância e necessidade de tais protocolos e recursos de segurança.
    Queira Deus que o segurança tenha alguma chance de se defender.

  6. Filmaço esse Jackal! (A versão original e a do Bruce Willis) 😀
    Um caso que conheço foi assim:
    Um senhor de 70 anos, aposentado, (ex-militar, claro) as 06:00h da manhã bate na traseira de um carro. Desce deste carro 5 sujeitos sem camisa, tatuados e bombadões. E aos gritos o líder diz que vai quebrar o velho. O velho saca uma pistola e fala por duas vezes para o grupo não se aproximar, mas eles continuam avançando. Claro, o senhor fez o que eu faria, mandou bala!
    E desculpe minha opinião, mas foi um idiota a menos no mundo.
    Eu já fui defensor dos direitos humanos, bonzinho, otário…
    Mas vivemos um momento que muitos chamam de inversão de valores, e me desculpe, mas provavelmente nesse caso do banco, os dois sujeitos estavam errados. Ai entra o estresse do guarda em trabalhar em um banco e ganhar um salário de fome, mesmo vendo milhões passar na sua frente todos os dias.

  7. Esse papo me fez lembrar o causo de 2 amigos meus que nem se conhecem, mas serviram o exército em locais diferentes. Ambos relataram que há uma recomendação de qq aproximação suspeita vc fazer um alerta verbal, só depois um tiro ao alto e não havendo resposta fazer um 2o tiro dessa vez para acertar o sujeito. Os 2 disseram que a recomendação em off era dar o primeiro tiro no sujeito e o 2o ao alto para a perícia entender o contrário. A razão? O estado te obriga a servir o exército e vc vai por o seu na reta?? Transpondo pra esse caso, vem um sujeito que pode ter uma arma te ameaçando o que vc faz?? Óbvio que atira! Antes ele do que eu…

  8. Pois é, Balu, aí depois tratam de jogar a opinião pública contra as forças oficiais, como fizeram no Carandiru e em Eldorado dos Carajás.
    Por isso adoro aquela fala do Jack Nicholson em Questão de Honra, onde ele diz que aqueles que defendem a “suavidade” nesse tipo de relação nunca viram um AK-47 de frente.

    “Eu tomo café da manhã a 300 metros de 4.000 cubanos treinados para me matar.”

  9. Rodolfo,
    Busquei diversas fontes de informação antes de escrever meu comentário.
    Apesar de concordar com a argumentação geral, no caso em questão, acho que houve, sim, despreparo, comportamento abusivo e talvez até mesmo preconceito por parte do vigia do banco.
    Discordo que seja uma tragédia particular. Acho um caso gravíssimo, que deveria afetar a todos, e não tenho dúvidas sobre o lado culpado na história: o vigia que atirou.

  10. Ana,
    concordo plenamente contigo, a chance do cara ser despreparado é de, no mínimo, 95% ….. mas isso é como já falamos, mais um motivo pra não se discutir com ele.
    como tá no texto:, você sabe que ele tá armado, você sabe que ele é despreparado. Vai pra casa!!!!
    (não estou dizendo que isso é certo, mas isso é ‘survival of the fittest’, você se adapta à situação e vive pra contar a história).
    O senhor teve morte cerebral. triste. meus pêsames à família!

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