Por que o final de Lost foi tão bom?

Antes do texto propriamente dito, preciso confessar que jamais assisti sequer um episódio de Lost. Só sei que tinha um gordinho barbudo e um tiozinho careca.

Fora isso, não reconheço um ator, não identifico uma música e jamais entendi uma piada sobre a série. Mas entendo perfeitamente por que tantas pessoas adoraram o desfecho da trama – mesmo outras dizendo que não houve desfecho.

Scooby Doo: suas tramas são melhores do que muita série por aí...
Scooby Doo: suas tramas são melhores do que muita série por aí…

Não sou mesmo muito fã de séries. Vi as sete temporadas de The Shield, duas de Lie to me, duas de The Mentalist (que começou bem, mas no final os causos lembravam os mistérios desvendados por Scooby Doo e sua turma) e essa semana ainda termino a oitava de 24h. Parece muito, mas perto da quantidade de séries que passa na TV, sou bem café-com-leite.

Ocorre que eu não vejo muita televisão, então nunca sei quando uma nova produção vai estrear. Também não tenho paciência para ver um capítulo por semana e costumo alugar na locadora e ver tudo de uma vez. Por isso eu só começo a assistir o que meus amigos recomendam – desde que eu acredite e confie na recomendação.

No caso específico de Lost, não tive uma mísera recomendação que me convenceu – e, acredite, não foram poucas. Eu não conseguia ver graça no fato de “algumas pessoas estarem perdidas numa ilha, sem nenhuma explicação aparente sobre a forma como foram parar lá”, ou “um grande clima de mistério ronda a trama”. Isso me cheirava a Uma simples formalidade, com Roman Polanski e Gérard Depardieu.

Uma temporada baseada nessa historinha já era suficiente. Seis é enrolação. Ou um estrondoso sucesso de público, dirá a leitora. Sem dúvida, incontestável! Mas não necessariamente isso tem a ver com a qualidade da trama, atores ou produção. Alguns efeitos psicológicos deram muito mais IBOPE à série do que o descamisado mudinho vivido pelo Rodrigo Santoro.

A base para esta explicação está na Teoria da Dissonância Cognitiva, descrita por Leon Festinger mais de meio século atrás. Basicamente, a Dissonância Cognitiva é um estado de tensão que ocorre quando uma pessoa tem duas cognições (idéias, atitudes, crenças, opiniões) que são psicologicamente inconsistentes. Ela tem uma crença, mas mesmo assim age contra aquilo em que acredita.

Dois exemplos práticos são muito ilustrativos nesse aspecto:

A emocionante vida amorosa dos pássaros!
A emocionante vida amorosa dos pássaros!

Em Mistakes Were Made (But Not by Me), Carol Travis e Elliot Aronson explicam um engenhoso experimento1 realizado pelo próprio Aronson e seu colega Judson Mills para avaliar uma situação corriqueira. Alunos de Stanford eram convidados a se juntar num grupo para discutir a psicologia em torno do sexo.

Mas antes de serem admitidos eles precisariam passar por um ritual de iniciação. Metade do grupo deveria recitar em público as passagens mais picantes e explícitas de “O amante de Lady Chatterley” que representava, na década de 1950, o supra-sumo da pornografia. Os demais leriam apenas palavras de conotação sexual contidas num dicionário comum.

Após esses diferentes procedimentos, todos ouviam juntos uma suposta gravação da reunião anterior, que os participantes veteranos desse mesmo grupo teriam organizado.

Os diálogos resumiam-se, contudo, a monótonas discussões sobre os hábitos de acasalamento dos pássaros – como as empolgantes mudanças em suas plumagens e seus emocionantes ritos de azaração. Além disso, o ritmo da conversa era propositadamente entediante e desinteressante, sem variação no tom de voz e longas pausas entre as frases.

Finalmente, os voluntários deveriam avaliar a gravação ouvida, de acordo com vários aspectos. Como era de se esperar, os que passaram pelo ritual de iniciação mais leve (ler o dicionário) detestaram a experiência e consideraram-na extremamente sem sentido e aborrecida, confessando-se arrependidos de estarem ali. Já os que sofreram um pouco mais (lendo em público as peripécias de Lady Chatterley) classificaram a mesma gravação como muito interessante e empolgante. Será que esse segundo grupo (a) realmente gostou ou (b) seus participantes estavam apenas tentanto se justificar e reduzir o sofrimento pelo qual haviam passado?

Para os autores da pesquisa a resposta era a letra b: quando as pessoas passam por uma grande dor, desconforto, esforço ou vergonha para realizar algo, elas se dirão mais felizes com esse algo do que alguém que não experimentou os mesmos percalços. A Dissonância Cognitiva vem dos seguintes sentimentos conflitantes: sou uma pessoa sensível e inteligente versus fui enganada por seis anos. Essa segunda parte é bem mais difícil de engolir do que a primeira, levando-(n)os a enganosas auto-justificativas.

Caverna do Dragão Redux?
Caverna do Dragão Redux?

Noutro estudo2, o próprio Festinger pagou alunos para contarem uma mentira. Uns receberam US$ 1,00 e outros US$ 20,00. Posteriormente os que receberam menos sentiram-se muito mais apegados a suas lorotas e buscavam mais argumentos para justificá-las.

Para o pesquisador, os alunos não se sentiam bem em receber apenas US$ 1,00 para mentir e, por isso, precisavam de outras razões para tal. Já os que ganharam mais logo abandonavam a farsa pois, afinal, receberam um dinheiro razoável por sua integridade.

Festinger batizou esse comportamento de Paradigma da Recompensa Insuficiente. Será que o primeiro grupo realmente acreditava nas mentiras que contava ou apenas tentava se justificar e reduzir o sofrimento por venderem suas consciências a um preço tão vil?

Independentemente das resposta aos dilemas anteriores, fato é que Lost foi um estrondoso sucesso de público e crítica – ao menos até o penúltimo capítulo. Mas agora que já acabou, sejamos sinceros: você realmente gostou do final de Caverna do Dragão Redux?

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1. Elliot Aronson e Judson Mills (1959), The Effect of Severity of Initiation on Liking for a Group, Journal of Abnormal and Social Psychology, 59: 177-181.

2. Leon Festinger (1961), The psychological effects of insufficient rewards. American Psychologist, 16: 1 – 11.

14 pensamentos em “Por que o final de Lost foi tão bom?”

  1. Ah, adorei seu texto!
    Mas como assisti à primeira temporada e nada mais, sou mais simples na resposta:
    O final de Lost foi bom porque acabou. Ufa!
    (é, concordo com você e com o Alexandre. Caverna do Dragão total! Porém, sou mais a original)
    Bjs

  2. Parabéns, Rodolfo.
    Estou simplesmente adorando seu blog e lendo todos os posts. Há muito tempo procurava uma boa leitura na internet e agora que encontrei não quero deixar escapar. Será minha página inicial. Continue escrevendo.
    Abraços

  3. Depois da leitura deste post, estou entendendo melhor porque, mesmo sabendo que nossas relações, como o casamento, apesar de estarem numa m…, continuamos a encontrar justificativas para manter a relação. Estou enganado há 33 anos? Jamais…rs
    Abraços.

  4. Já pensou em misturar psicologia e antropologia?
    Não se já existem livros com esse tema, mas acredito que pesquisas de base ciêntifica ainda não muito recentes. Já imaginou se tivéssemos numeros do século 1 ou antes disso?
    A única coisa que se repete é a estupidez humana, basta ver a ultima feita de Israel. Particularmente eu não acredito em nenhum dos lados. Tanto os palestinos quanto os israelenses estão errados. E finalmente os ativistas conseguiram chamar atenção, mesmo que dando suas próprias vidas… Coisa que para o ocidente é impensável, afinal estamos muito bem nas nossas poltronas.
    Tentei ver um capitulo de Lost, e foi o suficiente. O mais curioso é a hype e rios de pessoas se achando inteligentes e acusando terceiros de não entender. Antropologicamente vale colocar nesse estudo de seriados “Twin Peaks” do David Lynch, que é bem mais complexo e fez muito sucesso, e diga-se… de boca a boca.
    Estou vendo filmes da década de 80, tentando traçar um paralelo do que vivemos hoje. A grande crise financeira ainda não chegou de verdade, e é vendo os filmes dos 80 que é possível imaginar o que acontece hoje e o que aconteceu a 30 anos.
    Minhas dicas:
    Paris, Texas (1984) do Win Wenders
    They Live (1988) do John Carpenter (Favelas nos EUA?)
    E o seriado que na minha opinião é perfeito para retratar a moderna sociedade americana nos anos 90:
    Six Feet Under (Tenha a paciência de ver toda a primeira temporada, vale muito a pena ver TODAS as cinco temporadas)
    O cinismo e a confusão de sentimentos dos relacionamentos humanos é a base desse seriado. E claro, a morte sempre inevitável é ótimo pretexto para nos subjulgar e nivelar a todos.
    Six Feet Under até hoje é a unica série que vi unanimidade. E se imaginar que é baseado no dia a dia de uma família que mora em uma funerária e o principal par romântico da trama são gays, e a segundo plano drogas, neuras e lá no final até o capitalismo americano se torna pequeno diante desse novelão.
    Já TV… Praticamente parei de ver (só noticiários, as vezes)
    Se eu tomar pequenas doses de MTV, GNT (e pasmen) Nickelodeon, passo a perder a fé na humanidade 😀

  5. Olha, concordo!!! O final foi bom porque ACABOU!!! Assisti todos os episódios, era um drama toda semana baixar capítulos sem sentido…. quando acabava, nem acreditava que tinha assistido… mas na verdade queria saber onde aquilo ia acabar… acho que muita gente pensava assim…
    Bjs

  6. Rodolfo, acompanhei Lost religiosamente durante os últimos 6 anos. Sem dissonância nenhuma, admito que o final foi uma bomba, mas o conjunto da obra foi bacana. É a mesma coisa que fizeram com Matrix: criaram uma mitologia fantástica e cagaram tudo na continuação e desfecho.
    Sobre Lost, resumi a parada em menos de 140 caracteres:
    Fim de #Lost parece com Erasmo encerrando o Elogio da Loucura – depois de contar sobre todo o mal do mundo ele diz: “Eu estava brincando”.
    Abraço!

  7. Lost tem um grande mérito: inovar a forma como histórias são contadas na TV. Com flashbacks, flashforwards e flashsideways, a série rompeu vários paradigmas. Até complementos da trama espalhados na web e várias citações a livros, mitologias, etc. É uma narrativa transmídia que ultrapassa a esfera do programa de TV.
    Por mais que as pessoas reclamem do final, é preciso entender que não há um final propriamente dito, apenas um último episódio. Como colocar um conceito tão estático como final em uma série que envolve viagem no tempo. Poderia o final ser antes do início?
    Mas não é só isso que me cativou na série. Ela mostra que mais importante que um final, é o percurso. Poxa, quantos capítulos já não torcemos por personagens que antes odiávamos, como nos interessamos por física quântica e outros conceitos que seriam entediantes em outros programas.
    Os personagens de Lost possuem uma profundidade impressionante, de fazer qualquer novela passar vergonha. E a mudança de caráter do 1º pro último episódio é feita gradual e convincentemente, como se cada passo fosse mesmo necessário.

  8. Rodolfo, entrei aqui para te recomendar Six Feet Under.
    Ok, mas uma recomendação, e essa de um total estranho.
    Se puder assista, os personagens são muito bons e bem mais complexos que de outras séries. Pensei em te recomendar por achar que vai gostar a partir do que escreve aqui.
    Também gosto de assistir tudo logo e vi as 5 temporadas em uns 3 meses.

  9. Rodolfo,
    Acho o que as pessoas fizeram nos casos apresentados (final de Lost e experimentos relatados) foi talvez melhor resumido e descrito por André Gide em “La porte étroite” (“A porta estreita”) e por ele chamado de “le jeu de bonnes raisons” (“o jogo das boas razões”). Naquele livro, escrito na terceira pessoa (mas conhecendo a vida de Gide dá para imaginar que, trocando o sexo da vítima, e a profissão do protagonista, a coisa toda teria um viés bem autobriográfico), o protagonista é um pastor que, por assim dizer, “adota” uma LINDA adolescente ceguinha, sob o pretexto em que ele verdadeiramente acredita (daí o jogo das boas razões, se ele não acreditasse não haveria jogo, apenas canalhice pura), de ajudá-la, quando, efetivamente (embora ele não o admita, nem para si, reitero), ele está é atraído sexualmente pela sua pupila e deseja seduzi-la. Você já leu “A porta estreita” ou o outro livro de Gide que vai mais adiante na análise do “jeux de bonnes raisons” em comparação com a canalhice pura e simples dos “faux monnayeurs” (“falsos moedeiros” que é o título destoutro livro de Gide)?

  10. Nunca vi tanto ‘intelectual’ metido a besta junto… Parem com as drogas e aceitem que a série não teve o fim que VOCÊS queriam, a opinião de vocês não é nada perto do legado que a obra deixou.

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