Prevenção imprevisível

Nesta semana o STJ isentou o Shopping Morumbi, em São Paulo, do pagamento de indenização aos pais de uma das vítimas do atirador que matou três pessoas durante um acesso de loucura num dos seus cinemas. O crime, ocorrido em 1999, chocou o país pela frieza como um jovem sacou uma submetralhadora e atirou a esmo dentro do estabelecimento.

Fúria não se previne, mas e as armas?
Fúria não se previne, mas e as armas?

Sem dúvidas que um crime desta natureza aterroriza, por sua frieza e brutalidade, além da aleatoriedade da escolha das vítimas – que poderia ter atingido qualquer um de nós. Mas daí a pedir uma indenização milionária ao Shopping, vai uma grande distância.

O que mais me chama atenção é o fato de o criminoso ter usado uma submetralhadora. Como um estudante de medicina tem acesso a um armamento de uso exclusivo das Forças Armadas? E por que os pais da vítima não processaram, então, a Polícia Federal ou sei lá qual o órgão responsável por este tipo de fiscalização?

Porque processar o Estado demora e não resulta em nada. Porque é no Shopping que está o dinheiro – e isso parece importar mais do que saber onde realmente está a culpa.

Não pretendo julgar aqui as motivações dos pais nem tampouco o sofrimento por que passaram. Jamais vivi algo semelhante e não teria como entender tais sentimentos.

Mas entendo que a justiça deve buscar punir os responsáveis diretos (quem puxou o gatilho) e indiretos (quem forneceu a arma, munição ou ainda, aquele que sabendo do seu estado deixou-o sem tratamento). Na minha lista o shopping não entra e nem entraria o cinema, se fosse na rua.

Tal crime poderia ter acontecido em qualquer lugar. Não há como prever, muito menos como prevenir. Como você impede que alguém entre armado dentro de um shopping center? A única maneira é impedindo que as pessoas comprem armas. Mas no Brasil é mais fácil comprar uma metralhadora do que um iPad. É mais fácil comprar heroína do que remédio para epilepsia.

Se colocam detetores de metais nas portas dos shoppings, as pessoas protestam da mesma forma como burramente fazem nos bancos. Acham que estão tendo sua privacidade invadida. Ora, eu prefiro ter minha privacidade invadida por uma revista na porta do banco do que por uma bala perdida.

Lembro-me quando colocaram cães de guarda na porta dos bancos, ainda na década de 1990. Os assaltos a banco eram diários e, com esta medida, foram reduzidos a zero. Mas tiveram que retirar os cachorros porque as pessoas tinham medinho. Ora, eu tenho medo é de ladrão.

Mas tem sempre alguém querendo aparecer dando um chilique na porta do banco. Alguém que não entende que algumas liberdades individuais precisam ser sacrificadas em nome da segurança coletiva.

4 pensamentos em “Prevenção imprevisível”

  1. Bem, eu concordo com tudo que falou, e ainda tem um case para contar, sobre isso de liberdade coletiva.
    Uma grande empresa governamental, com mais de 10.000 funcionários diretos, tinha na sua matriz 2 excelentes restaurantes industriais. E alguém do SINDICATO resolveu que era um absurdo os funcionários serem obrigados a almoçar ali, e reinvidicaram Vales refeição para poder comer onde quisessem. Na reunião do sindicato (como sempre) só um punhado de bêbados votou, e acredite, os restaurantes foram fechados.
    Eis que agora os funcionários querendo ou não tinha que caminhar MUITO debaixo do sol para poder almoçar. E os bebuns que antes já não trabalhavam nada, saem as 12:00h e BEBEM seus vales refeição e só voltam as 17:00h para bater o ponto.
    O que tem haver com o caso do atirador?
    Bem, as pessoas não sabem o que querem, não sabem lutar pelo justo, e os mesmo que elegeram Lula irão ter muita raiva quando descobrirem que até 2016 a energia elétrica TEM QUE dobrar de valor, e ainda assim viveremos de apagões. E ainda tem o furo que o corte de impostos deixará para o próximo governo, a decadência do judiciário que virou casa de marketing, e das reformas políticas que nunca aconteceram. Fico imaginando do que será dos que nasceram nessa era Lula, com um incentivo a natalidade graças as bolsas. A crise de 2008/2009 foi uma fração do que virá por ai… Vivemos em um mundo sem lógica. Pais vão a justiça para ganhar dinheiro com a morte dos filhos, e advogados “espertos” orientam esses já desorientados.
    Vários dias de fúria 😀

  2. Chantinon, só um comentário: o regime de alimentação (beleza de trocadilho, hein?) na dita empresa só mudou porque os demais interessados não foram votar. Deixaram tudo nas mãos dos tais bêbados.
    Enquanto a minoria barulhenta tomar as decisões, a minoria silenciosa tem que acatar.
    Abraço, Rodolfo.

  3. Ranzinza que sou, não gosto nem de discutir esse assunto… Cada vez que vejo um político “defensor” indo contra as portas giratórias com detectores de metal em banco fico vendo qta gente burra cai nesse conto dando apoio.
    Fora o povo que dá pity na porta…
    Vc viu o caso do atentado frustrado nos EUA? Pegaram o terrorista de araque pelas câmeras de vigilância que tempinho atrás estavam sendo execradas em Londres, cidade onde rolou o atentado em 2006 no Metrô.
    O pessoal quer tudo ao mesmo tempo agora… segurança e liberdade pra tudo sem pagar o preço.
    Abrax

  4. Sobre temas jurídicos, eu acho que existe nossa opinião, e existe A LEI.
    Quando uma decisão, controversa ou não, está dentro da lei, acho que é respeitado o Estado de Direito. Mas aí começa outra discussão… Que são as diversas interpretações e infinitos recursos que a lei brasileira permite. Quando a lei é (ou pode ser) injusta, quem nos socorre?
    Quanto ao caso em questão, concordo com o seu texto, e com a decisão do Supremo. Parabéns de novo!
    (ah, sugiro a leitura desse texto aqui, sobre a falta de critérios na fixação de alimentos para filhos menores: http://robertomarinhoguimaraes.blogspot.com/2010/05/fixacao-exorbitante-de-alimentos-falta.html )

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