O smartphone e o dumbuser

Estou vivendo um interessante dilema nos últimos dias: recebi da minha empresa um celular convencional, desses que dobram no meio e têm apenas teclados numéricos e sem acesso à Internet como um smartphone. Usar esse troço parece coisa do século passado!

Antigamente tínhamos menos recursos tecnológicos e mais recursos cognitivos. Hoje uma pessoa chega a um restaurante onde combinou de encontrar alguém, imediatamente liga para saber onde ela está sentada. Quando um grupo de amigos vai para o mesmo lugar separado em dois carros, nenhum deles consegue chegar se não forem conectados via celular durante o trajeto inteiro.

Ficamos mais ou menos assim ao celular
Ficamos mais ou menos assim ao celular

Antes do celular, as pessoas viajavam juntas, marcavam compromissos em lugares ermos, encontravam ruas perdidas e realizavam muitas outras peripécias sem contar com satélites, muito menos conexões 3G. Nossa capacidade de localização e senso de direção diminuíram na mesma proporção que tamanho dos aparelhos de celulares, GPSs e demais gadgets.

Se antigamente viajar em comboio significava o carro mais novo ir por último – porque era o menos provável de quebrar e, assim, poderia socorrer os demais – hoje em dia ninguém sabe o que fazer numa estrada caso um se perca do outro ou os celulares fiquem mudos.

Imagino o que teria ocorrido hoje no curioso experimento do Prêmio Nobel Thomas Schelling, onde ele perguntava aos voluntários o que fariam para chegar a um encontro agendado com um estranho, mas sem um lugar ou horário definidos, em algum ponto de Nova Iorque.

Para espanto dos pesquisadores – e total incredulidade da geração celular/GPS – quase todos os voluntários encontrariam seus pares, de fato, porque teriam ido ao mesmo lugar, no mesmo horário: Grand Central Station, ao meio-dia. Um “viva” para a inteligência coletiva – e a teoria do ponto focal –  mas que só ocorre quando resulta da soma da várias inteligências individuais.

A escravidão tecnológica de hoje só existe porque você deixa. Sua dependência do notebook ou do celular começou porque você deu o primeiro gole. Do contrário, é coisa da sua cabeça. Você se deixa escravizar pelos seus aparelhos porque quer.

Em algum momento da história recente, isso foi bonito. “Olha como fulano é ocupado! Olha como é importante e imprescindível!”. Hoje eu tenho uma incrível pena disso. Porque celulares e notebooks funcionam como coleiras invisíveis que as pessoas incrivelmente adoram vestir.

É notório o malestar que sentimos quando esquecemos o celular em casa ou a Internet fica inoperante – seja em casa ou no escritório. Nesta relação de dependência, os pequenos aparelhos parecem ter, também, a capacidade de sugar nossa inteligência tornando-se cada vez mais smart, enquanto nós ficamos cada vez mais idiotas.

16 pensamentos em “O smartphone e o dumbuser

  1. Ê, Rodolfo, adorei seu texto!
    Meu celular tem uns 4 anos e não senti ainda necessidade de trocar. Em compensação, lembro-me com espanto do tempo que guardava dezenas de números de telefone na memória! E sou totalmente dependente do pc/note para trabalhar. Em casa, fiquei uns tempos sem net e me virei bem com meus livros, apesar de um certo desconforto. Foi bom porque ia dormir bem mais cedo!
    Excelente a sua frase final, acho que é bem por aí. Nos acostumamos a ter gadgets pensando por nós!
    Beijo

  2. O ser humano, tal como outros seres vivos, dispõe de um poder sensorial muito forte, e todos estão “equipados” com o melhor celular jamais imaginado, só que a bossalidade e o exibicionismo nos remeteu ao fundo do poço da idiotice, ressalvados as necessidades inerentes dos avanços da ciência que nos trouxe máquinas e sistemas capazes de aprimorar e nos auxiliar nas tarefas para as quais fomos criados, só que existem alguns grandes grupos econômicos estudando este lado fraco da indole das pessoas e dos seres em geral com o único propósito de tirar vantagem financeira imediata deste detalhe, é a reedição daquela famosa lei de Gerson, onde o negócio é levar vantagem em tudo e sobre todos, custe o que custar, pois eles estarão garantindo a sua vaga nos primeiros lugares do “poder”.
    BEM FEITO AOS QUE SE DEIXAM MANIPULAR, ESTES MERECEM O QUE ESTÃO CONQUISTANDO…
    BetoK

  3. Li, há uns anos, um estudo que mostra como estamos levando nossos jovens, cada vez mais rapidamente, a serem totalmente dependentes dos pais. E um dos problemas sérios era o celular que esses jovens utilizavam.
    Possuindo o celular, eles perdiam o hábito de se programarem, e perdiam totalmente a capacidade de tomar decisões, pois na primeira necessidade mais básica … “pin pon pum pin pin” ligavam para os pais para perguntar o que fazer.
    A tecnologia é importante e vai evoluir conforme a lei de Moore, mas precisamos adpatar nossa sociedade para lidar com isso, a menos que queiramos correr o risco de nos tornarmos [mais] obsoletos e incapazes.
    Outra coisa importante que li, em linha com essa dependência, é um antropólogo que falava que, apesar de todo o conhecimento que possuimos sobre como as coisas funcionam ou são feitas, seríamos incapazes de [re]criá-las fosse um cataclisma ocorrer.

  4. Cara, adorei o seu texto. Claro que não vou jogar meu celular fora, mas vinha pensando nisto há alguma tempo, e agora tenho mais certeza, preciso me libertar dessa escravidão. Quem sabe um amish mais moderno. Há pouco estava a ponto de ter um infarto de raiva, porque a rede sem fio não funciona, o computador, comprado há menos de um ano já está ultrapassado, e, para completar, ontem à noite pensei que tinha perdido meu celular (Oh, meu Deus, como vai ser minha segunda-feira!…rs). Em suma, precisamos repensar essa relação doentia… Abraços, e assista a um bom jogo do Brasil, mesmo que seja por intermédio do radinho de pilhas..

  5. Tenho uma relação muito próxima com o computador. Adoro computadores e com internet então! Mas celular, prá mim é mais um orelhão móvel. Apesar de possuir um Smartfone de mais de 1000,00 que comprei por 89,00 em um plano de minha operadora (porque jamais paguei mais de 100,00 por um celular, qualquer que fosse), não sou escravo dele. Atendo ligações durante o horário comercial, mas tenho extrema facilidade para deixá-lo em casa ou simplesmente não atender uma ligação de um número que não conheço. Jamais acessei minha caixa de mensagem (até desliguei o servico) e nunca, jamais, em hipótese nenhuma retorno uma ligação não atendida (se não atendí é porque ou não queria ou não podia naquele momento). Costumo dizer que se for algo importante, vão me encontrar, senão, amanhã eu recebo o recado, ou não! Viví grande parte da minha vida sem celular, posso continuar vivendo sem ele.
    Adoro a internet para ler, comprei o Smartfone com a mesma finalidade (ler e-books), porém ainda prefiro o bom e velho livro, estou aguardando somente os tablets se tornarem populares para fazer uma experiência, mas os livros ainda tem vantagens (podemos fazer anotações, grifar partes importantes e mais importante! Não precisa recarregar as baterias).

  6. Rodolfo como muitos (ainda bem) sou bem independente do celular. Não posso dizer o mesmo do computador. Eu tinha um aparelho fabricado no século passado (quase retrasado) que me atendia muito bem. Perdi-o, acabei ganhando um blackberry. Agora tenho uma carro de luxo para ir à padaria! Só o uso para fazer e receber chamadas quando não está desligado.
    Mas, escrevi mesmo para sugerir, caso ainda não tenha visto, o filme Idiocracy.


    Abraços.

  7. Uma coisa que eu descobri, é que essas pesquisas que mostram que você vai ficando mais conservador/radical quando vai envelhecendo são pura verdade. Teimamos em não aceitar mudanças.
    Só que isso tem atrapalhado o bom senso, se é que isso ainda existe.
    Muita coisa tem melhorado, mas é curioso entrevistar pessoas de cidades do interior e cidades grandes fazendo a pergunta: O que mudou e melhorou nos últimos 20/30/40 anos. As respostas mudam absurdamente de acordo com a idade, mas existe algo engraçado. Pessoas de 20 e 70 anos costumam dar as mesmas respostas, e sempre relacionadas ao consumo e como tudo hoje é mais fácil de se ter.
    Resumo, um carro em 60 parcelas é um fator de felicidade indescritível (não para todos, é claro).

  8. Grande Rodolfo.
    É verdade. A tecnologia é assim. Faz tudo pra gente hoje em dia. Até pensar.
    Claro, nem tudo é ruim na tecnologia. Hoje podemos trabalhar em nossas casas, temos informação (em excesso, aliás) à disposição e outras várias comodidades que são úteis.
    Mas a tecnologia se atrapalha com coisas simples, por exemplo, há muita preocupação com obesidade e coisas do tipo, mas a tecnologia não nos deixa nem usar a força física pra fechar o vidro do carro!
    Boa ou ruim? Acho que sempre cabe o bom senso!
    Abração!

  9. Até por perceber esta “idiotização” que a tecnologia nos proporciona, tento exercitar alternativas e resistir à escravização como, por exemplo, contrariar a expectativa geral de que tenha que estar disponível ao celular a qualquer hora do dia e da noite.
    O que me preocupa, no entanto, é a geração que já nasceu dentro desta parafernália tecnológica. Eles nem sequer conhecem alternativas. Como poderão se libertar e recuperar um mínimo de intelecto, ou como você expressou, manter um mínimo de “recursos cognitivos”?

  10. A querida autora está tristinha porque ganhou um celular chulé e aí tá tentando se convencer que, para melhorar como pessoa e ser mais feliz, é melhor brincar com um brinquedo barato ou (que você mesmo tenha feito) do que jogar no PS3? 😉

  11. Caro Obsceno,
    eu ganhei um celular chulé mas abandonei o meu BlackBerry por opção. Muita gente que conheço carrega dois ou mais celulares – o que considero uma verdadeira aberração e certa dificuldade em gerenciar tarefas.
    Sempre achei que o celular idiotiza as pessoas que se deixam idiotizar. O mesmo ocorre com carros e outros símbolos de status que tiveram suas utilidades reais desvirtuadas.
    De qualquer forma eu entendo sua posição, já que você trabalha com isso. Assim, quanto mais estúpidas as pessoas, mais celulares mais caros vocês vendem – ainda que as pessoas não saibam usar.
    Seu último exemplo é legal sim – e eu concordo com ele. Acho que quem brinca com um telefone de latas unidas por barbante tem mais chances de ser mais inteligente do que quem se afunda num PS3 ou num Wii. Além disso, já está comprovado que videogames trazem sérios dificuldades de relacionamento.
    Um abraço, Rodolfo.

  12. Tá bom… devolve também o seu Volvo então 😉
    Quero ver convencer uma criança que duas latas com um barbante é mais divertido do que o Wii que todos os amiguinhos do colégio tem!!! Se você conseguir convencer, a vida política do Lula está com os dias contados…

  13. Carinhoso, meu carro não dirige para mim nem me deixa mais burro.
    O problema dos brinquedos então é apenas uma questão de ceder à pressão do grupo? Se você não consegue convencer uma criança a brincar com coisas simples porque os amigos têm Wii, então nem precisa falar sobre drogas com ela, porque ela vai usar – e muito! E também pode esquecer essa historinha de livre-arbítrio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *