Proibindo a sede

Quando fiz minhas críticas às 50 ações contra o aquecimento global, fui acusado de insensível, apontado como malvado vilão destruidor da natureza. Na verdade eu não torço para nenhum dos dois lados. Claro que não gostaria que todas as florestas fossem desmatadas, mas não ligo a mínima para quantas espécies de baleias existem ou se haverá mais uma geração de micos-leão dourados. Simplesmente porque eles não fazem a menor diferença na minha vida. Nem na sua, a bem da verdade.

Mas o que me irrita nessa história de preservação ambiental é a capacidade de os ecologistas inventarem soluções mirabolantes achando que salvarão o mundo. A seu favor, admito que têm as melhores intenções. Por outro lado, são incapazes de antever as consequências mais óbvias de suas soluções demasiadamente simplistas.

Sugerem, por exemplo, trocar todas as lâmpadas incandescentes por fluorescentes, esquecendo a quantidade de lixo que isso vai gerar. Ou mandar os monitores velhos – feitos com materiais tóxicos e alto consumo de energia – para as ONGs. Ora, você não pode ter essa tranqueira em casa, mas uma ONG pode, né? Beleza de caridade…

Não tem água? Bebam brioches!
Não tem água? Bebam brioches!

A mais recente pixotada foi protagonizada na cidade americana de Concord (Massachusetts): a localidade simplesmente baniu a venda de água mineral em garrafinhas. A medida, que visa reduzir a quantidade de lixo produzida, traz consigo uma série de inconvenientes facilmente identificáveis, mas invisíveis ao olhar monocromático dos ecologistas.

Um desses erros foi esquecer de proibir os habitantes da cidade de sentir sede. Desta forma, eles continuarão sentindo sede e, assim, comprarão suco, refrigerante, cerveja, leite ou qualquer outra coisa líquida disponível. Em lata ou garrafa plástica. A principal diferença é que os cidadãos passarão a consumir bebidas menos saudáveis*.

A sede representa aqui o lado da demanda – de uma forma mais biológica do que mercadológica. Tal como Dubner e Levitt propõem em SuperFreakonomics, para banir (ou reduzir) o consumo de substâncias danosas (nossa, estamos falando de água!) precisamos agir no consumo e não na produção – pois tudo resume-se à relação entre oferta e demanda.

Quando a polícia prende um traficante, por exemplo, o preço da droga na região sobe. Quando o preço sobe, o mercado torna-se mais atraente e, por isso, novos traficantes vêm para a região, aumentando a oferta e fazendo com que o preço caia novamente. Reações simples e identificáveis em qualquer mercado. Inclusive no de água engarrafada.

Começo a pensar que ecologistas são pessoas de raciocínio muito curto, incapazes de enxergar alguns lances na frente e, especialmente, cegos às relações entre as partes de um sistema. Resulta pouco provável, portanto, que eles compreendam o funcionamento de algo tão dinâmico e complexo como um Ecossistema. Por isso suas sugestões não fazem nenhum sentido, ainda que algumas incrivelmente sejam transformadas em leis.

Exemplo de um sistema complexo demais para um ecologista
Exemplo de um sistema complexo demais para um ecologista

Por último, entendo que respeitar o meio ambiente – ou ter consciência ecológica, seja lá como a leitora prefira chamar – deve ser uma atitude consciente e deliberada e não um amontoado de leis.

Uma lei não motiva ninguém; ela apenas obriga. Se a pessoa realmente tem consciência ecológica ela já não usa garrafinhas plástica há tempos (ela tem seu próprio squeeze, que nunca lavou e tem mais bactérias do que a caçamba de um caminhão de lixo).

Mas se os ecologistas preferem insistir, tenho minha lista própria de sugestões para melhorar o meio ambiente:

– Proibir a venda e o aluguel de fósforos: isso vai acabar com as queimadas e os incêndios;

– Coibir a comercialização de gasolina e diesel: adeus CO2!

– Fechar todas as saídas de esgotos dos prédios das cidades litorâneas, para que os coliformes fecais não sejam despejados próximos às praias.

– Replantar toda a vegetação nativa do mundo. Isso significa demolir bairros inteiros como Ipanema e Leblon, lar de grande parte dos ecologista cariocas por exemplo, que gostam de reflorestar o quintal dos outros. Também implica destruir a maior parte das plantações de soja e pastagens do país, levando nossa economia de volta à Idade da Pedra.

Se você também tem sua sugestão para melhorar o mundo e salvar o planeta, escreva-a nos comentários – e vamos rir juntos!

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* Conspiracionistas dirão que foi uma iniciativa do forte lobbying dos fabricantes de refrigerantes – ao que eu responderia com uma sonora gargalhada.

13 pensamentos em “Proibindo a sede”

  1. Não posso evitar… Dá-lhe Rodolfo!
    Dá para levar algo a sério depois da proposta de coletar os “peidos” das vaquinhas para diminuir o efeito estufa?
    O pior é que tem gente que realmente acredita nestas coisas destrambelhadas, mas se recusa a acreditar que Deus existe…

  2. Mais um artigo que eu vou acabar linkando no meu blog! Você consegue escrever o que eu penso melhor do que eu! Esqueceu de falar que precisamos também acabar com tudo o que usa a eletricidade, pois ou ela é gerada em termoelétricas, que emitem gases poluentes, ou em termonucleares, que geram resíduos radioativos, ou em hidroelétricas, que destroem ecossistemas enormes pra represar a água que irá mover as turbinas que transformarão a energia cinética em elétrica. Podíamos mesmo voltar à idade das cavernas, seria o melhor pro meio ambiente! Hehehe…
    Abraços!

  3. Além de concordar com seu artigo, permita-me acrescentar mais algumas sugestões:
    a) abolir a energia elétrica no mundo moderno, para que o Governo pare de inventar moda ao querer construir novas usinas hidrelétricas, como Belo Monte, ou concluir Angra 3;
    b) que todos voltemos a consumir apenas frutas silvestres e peixes (se houver onde pescar), para que as áreas cultivadas, principalmente com soja, retornem ao seu estado natural e devolvidas ao índios. O único problema, para o qual não tenho sugestão, é onde vamos colher frutos e pescar se tivermos que devolver as terras aos seus antigos habitantes (ou donos, como muitos antropólogos insistem em dizer).
    Abraços.

  4. Na verdade, o lance de não comprar água em garrafas plásticas é uma perspectiva interessante, desde que a água encanada seja suficientemente boa para consumo, como acontece em algumas cidades dos EUA. De vez em quando aparece um filme onde o personagem bebe água da torneira – o lance é que isso não acontece só nos filmes. Uma boa conversa sobre isso (apesar de que eu não concordo com tudo o que é dito):


    A questão é proibir a venda. Isso sim é absurdo.
    No Brasil, beber água encanada seria o mesmo que tomar um ponche do Rio Tietê. =P

  5. Prezado Rodolfo. Não posso concordar inteiramente com você, como fazem os “clacs” do seu blog. Permitir que se extinguam espécies de animais e vegetais, só porque (hoje) não fazem a menor diferença na nossa vida, é algo abominável. É esse pragmatismo capitalista que vem destruindo a natureza…
    O sistema econômico obriga as empresas a desenvolverem modernas estratégias para afastar a concorrência e dominar mercados. De fato, querem criar um pensamento único em torno da questão ambiental, para rotular quais os produtos e serviços seriam ambientalmente corretos e quais seriam “nocivos”. O sistema define o vencedor, não é?
    Assim como toda unanimidade é burra, nenhuma solução ambiental absolutista pode ser inteligente.

  6. André, concordar ou não comigo é um direito do leitor. Chamar de claque é deselegante – até porque você já concordou comigo várias vezes e nunca recebeu esse rótulo.
    Espécies animais (ou vegetais) surgem e outras somem, paciência. E será que não existiu outrora uma espécie de peixe ou crustáceo que foi dizimada pelos golfinhos? Será que os golfinhos se recriminam uns aos outros por isso?
    Sou pragmático sim e capitalista. Mas isso não tem a ver com a destruição. Os comunistas destroem igualmente, assim como os idealistas, os budistas e os gays.
    A diferença é que a própria seleção natural eliminou o comunismo. O que sobreviveu foi o capitalismo – que realmente tem no pragmatismo um grande aliado. O capitalismo também pode ser considerado culpado pela acumulação de riquezas*, a consequente cobiça, a posterior violência e, em última análise, os que trabalham pela perpetuação das fortunas: as empresas de segurança.
    Atenciosamente, Rodolfo.
    __________
    * Pesquisas recentes já mostraram que isso é uma tendência natural em qualquer sistema em que os indivíduos não precisam produzir o que comem.

  7. Rodolfo, muitooo bom o post (me fez refletir sobre a idéia dos ecologistas) e, a resposta ao nosso supet amigo, foi melhor ainda!
    Gostaria de ver a sociedade hoje sem celular e internet (pois sabemos como esses 2 fatores prejudicam o meio ambiente)… todo mundo iria entrar em estado de choque!

  8. “No Brasil, beber água encanada seria o mesmo que tomar um ponche do Rio Tietê. =P”
    Não generalize. Aqui em Santiago – RS bebo água da torneira todos os dias.

  9. Bom, a situação para mim é simples. Eu sinto um imenso prazer em respirar ar puro, ver animais diferentes, cachoeiras, florestas,etc. Então gostaria que isso continuasse existindo. Simples assim.

  10. Encontrei esse blog por acaso e até concordo com alguns dos pontos de vista. Extremismos e irônia sempre geram problemas. Vivemos numa época de alienação. Não concordo com a colocação de que as dicas ambientais não tem fundamento. O exemplo das lampadas não precisa ser extremista como foi dito, basta esperar que a lampada incandescente “queime” e então trocar por outra fluorescente, gerar o resíduo vai gerar do mesmo jeito (e existem empresas que reciclam todo esse material). Em relação a água engarrafada eu penso ser mais um lance comercial do que propriamente devido a qualidade da água (eu bebo água da torneira e nunca passei mal por isso), mas na duvida pegue uma amostra e mande analisar num laboratório (pode sair caro, mas pelo menos tu tens certeza).
    Não sou ambientalista, não quero que o progresso pare, nem que deixemos de ter televisão, computadores, sacolas plásticas e tal, mas acredito sim que podemos ter soluções melhores se os interesses economicos e politicos fossem deixados em segundo plano. As soluções estão ai. Temos opção hoje de ter combustiveis alternativos para veiculos, para casas, temos a opção de produzir mais sem poluir, só temos que mudar é a forma de pensar, e acho q acima de tudo precisamos ter respeito pelas outras especies em nosso mundo. E ao autor desse blog: criticar é fácil meu amigo, ajudar a resolver um problema é dificil. Pense nisso.

  11. Olá Luiz Augusto,
    Eu também não acho que as dicas ambientais não têm fundamento – por isso não escrevi isso no texto. Tudo o que leio sobre ecologia tem algum fundamento. O problema é que, na maioria das vezes, o fundamento é equivocado.
    Também não gosto de ironia e acho que a população desta cidade deveria protestar seriamente contra esta piada de mau gosto dos seus governantes.
    O autor deste blog avisa que criticar não é fácil não, porque é preciso ter coragem para ir contra a maré de acéfalos. Com meus textos criticando as pixotadas dos ecologistas já fiz muita gente abrir os olhos. E isso é uma ajuda e tanto!
    Combustíveis alternativos: você está falando sobre etanol? E combustíveis para casa, você se refere a energia solar, por exemplo? Se for, você precisa se informar melhor.
    À propósito: em quê contribui quem critica o crítico?

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