Publicando o joio

Recentemente escrevi sobre o fenômeno da Viralização da Violência destacando a forma como a mídia transforma verdadeiras barbaridades em acontecimentos perfeitamente banais, absolutamente cotidianos. Veículos tradicionais e programas de grande audiência exploram tragédias pessoais e dores coletivas, embalando-os para presente sem nenhum pudor, tampouco constrangimento.

Meia Hora de desinformação
Meia Hora de desinformação

Ao mesmo tempo, a proliferação de atrações desta natureza revela a crescente aceitação da sociedade por esta modalidade de entretenimento voltada para a espetacularização do mundo cão. Uma reação aparentemente normal, característica dos livres mercados contemporâneos, onde as corporações oferecem aquilo que o consumidor demanda, em quantidades e configurações compatíveis com o que a sociedade comporta. Assim como a padaria da sua esquina, as montadoras de automóveis e os traficantes de drogas.

Em Origin of Wealth: Evolution, Complexity, and the Radical Remaking of Economics (Harvard Business Press, 2007), Eric Beinhocker oferece um enfoque evolucionista ao modo como enxergamos a Economia. Este olhar macro funciona para analisar, também, partes dos sistemas econômicos como, por exemplo, a mídia. Segundo Beinhocker, movimentos evolucionistas passam por três estágios principais: inovação, seleção e replicação.

Dos primeiros grunhidos dos hominídeos nas savanas africanas, à prensa de Gutemberg e ao advento da Internet, a comunicação experimenta inovações não só nas Tecnologias Físicas mas também nas Sociais, tendo estas influenciado naquelas – e vice versa. Enquanto que algumas criações perecem pelo caminho, outras triunfam sendo escolhidas e repassadas às gerações posteriores. Na etapa seguinte, as novidades estabelecidas têm seu uso amplificado, copiado e imitado tornando-se, muitas vezes, o novo padrão. Um processo amplamente difundido e comumente conhecido na literatura corporativa como competição.

A superexposição da vida privada e a exploração dos sórdidos detalhes de crimes macabros, que ora preenchem a mídia, também são frutos de processo semelhante. Originados em inovações como Big Brother, a série Faces da Morte ou campeonatos de Vale-Tudo, a bisbilhotice e a glamurização da violência foram selecionados pelo fetiche popular em ter livre acesso aos detalhes audiovisuais da vida alheia, quer na alegria ou na tristeza – com especial preferência a esta última, contudo.

Tal como no enfoque evolucionista de Beinhocker, tais inovações foram apoiadas por novas Tecnologias Físicas – como a proliferação de câmeras digitais cada vez mais potentes, reduzidas e baratas e na facilidade de armazenamento, transmissão e difusão de dados – e Sociais – como a crescente aceitação de escândalos e a paulatina redução dos pudores sociais, exigindo bizarrices cada vez mais escabrosas.

Destacar comportamentos grotescos – seja um parricídio ou a devassidão do astro da moda – carrega consigo componentes de degradação social, na medida em que colocam tais ações dentro de nossas casas, com ares de acontecimentos banais, quase corriqueiros.

Do mesmo modo que os jornais não publicam histórias de suicídios – para evitar a imitação – deveriam suprimir homicídios. Afinal, você não fica descrente ao saber que na maioria dos países os suicídios são mais frequentes que os homicídios?

Provavelmente a maioria dos massacres perpetrados por franco atiradores não aconteceria se isso não fosse garantia de destaque nos jornais, onde seus perpetradores buscam sua mórbida fama póstuma.

Antes que o leitor se apresse em identific

Forma e Conteúdo evoluem juntos? (Fonte: RyotIRAS)
Forma e Conteúdo evoluem juntos? (Fonte: RyotIRAS)

ar traços de censura no meu texto, alerto que a sociedade é baseada em torno de restrições a direitos individuais em nome de benefícios coletivos. A liberdade – especialmente a de expressão – serve ao interesse público, garantindo o acesso a informações relevantes principalmente no acompanhamento e controle das instituições públicas, no sentido de impor limites ao poder. Isso nada tem a ver com o direito de os paparazzi trabalharem, ou com fotos contrabandeadas do corpo inerte da menina Nardoni. Qual o interesse público na barriga do Ronaldo ou nos hematomas de uma criança morta?

Assim como uma economia de mercado seleciona aquilo que chega ao seu alcance e permite, por assim dizer, que a mídia se transforme neste monstrengo surreal, cabe a ela também impor seus limites e rechaçar aquilo que lhe é prejudicial, independentemente do horizonte temporal analisado – seja pão francês, automóveis ou cocaína.

Mas ao mesmo tempo em que há leis institucionais, sociais e de mercado para regular o consumo, isto não exime de culpa o lado responsável pela sua produção. O papel do jornalista e do editor torna-se, portanto, fundamental neste processo de desinfetar uma mídia sem limites. Embora eles respondam aos incentivos do seu setor – em última instância, a audiência – devem obedecer também a seus instintos e valores. Do contrário, correm o risco de ratificar a célebre frase de Adlai Stevenson: “Um editor de jornal é alguém que separa o joio do trigo – e imprime o joio”.

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Esse texto foi escrito originalmente para o site Novos Jornalistas.

7 pensamentos em “Publicando o joio”

  1. Eu fico me perguntando como pode o mundo ter mudado tanto em 20 anos.
    Realmente tenho dúvidas sobre o que a liberdade trouxe de bom…
    Claro, ainda estamos no meio do processo, iremos morrer e não veremos onde isso vai dar…
    Mas é realmente difícil ser positivista com os dados que temos.
    Me sinto o personagem Francisco do Ryot IRAS, que por sinal, foi a melhor linkagem da história… Ri demais com as tirinhas 🙂

  2. Salvei aqui pra ler ao final do dia… soube que tem um colunista especial nesse jornal… Lula! Nome da coluna?
    LEITOR DO MEIA HORA TEM PAPO RETO COM LULA
    Cada leitor tem o jornal que merece… rsrs
    Abrax

  3. History Channel; Discovery Channel; Biography; Management TV; BBC e tantos outros.
    Sem querer ser do contra gratuitamente, mas a televisão tem sim muito conteúdo interessante e relevante.
    A questão é saber escolher. Da mesma maneira que as amizades, os livros e tudo o mais na vida.
    Um abraço.

  4. Assim como existem políticos honestos e jogadores de futebol que amam seus clubes. O problema é que são a exceção quando deveriam ser a regra. E é o grupo que compõe a regra que perpetua seu comportamento.
    Abraço, Rodolfo.

  5. O gosto pela violência sempre existiu: vide os espetáculos sangrentos da Roma antiga que serviam para entreter o povo, as execuções públicas na Idade Média, a Inquisição. A mídia apenas reflete nosso apreço por tragédias alheias e tem, em sua defesa, um controle remoto que dá ao telespectador a opção de mudar de canal. (Embora eu acredite que possamos evoluir sim e a mídia ajudaria muitíssimo se mudasse o foco de suas notícias.)

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