A Origem: uma obra-de-arte de Christopher Nolan

Se você não gostou de Amnésia – ou não entendeu – então passe bem longe de “A Origem” (Inception, 2010). Assim vai economizar algum dinheiro e sua cabecinha não vai doer.

Em seu filme de estréia* o diretor britânico Christopher Nolan já hava pregado várias peças no público, fazendo com que muitos espectadores saíssem do cinema com a sensação de que algo lhes escapara, em meio às idas e vindas de um filme rodado às avessas. Depois disso entregou o bom Insônia (2002), o muito bom O Grande Truque (2006), o ótimo Batman (2005) e o formidável O Cavaleiro das Trevas (2008).

Nessa impressionante escalada de qualidade, muitos se perguntavam do que Nolan ainda seria capaz. Pois “A Origem” é a estrondosa resposta do cineasta mais brilhante da última década – e que tem tudo para merecer novamente o título.

DiCaprio e Nolan, promissora parceria
DiCaprio e Nolan, promissora parceria

Como em suas obras anteriores – especialmente em o Cavaleiro das Trevas – Nolan não se contentou em apenas escrever um roteiro absurdamente original. A realização também precisava ser fantástica. Em todos os aspectos.

E de fato ela é. Primorosa, impecável, indescritível. As ações e histórias encaixam-se de uma forma arrebatadora.

Uma vez que a trama roda nos sonhos dos personagens, Nolan teve total liberdade para criar qualquer tipo de situação imaginável. Nos 150 minutos do filme ele parece levar isso às últimas consequências, usando e abusando de diferentes ritmos de narrativa, intercalando vários níveis entre diferentes realidades. Tudo ao mesmo tempo.

E, assim como em O Cavaleiro das Trevas, A Origem foi filmada sem uma
Segunda Unidade de Produção, isto é: Nolan dirigiu, ele
mesmo, absolutamente todas as cenas. Também como nas outras vezes, tudo supervisionado pela produção competente de Emma Thomas, aliás, sua esposa.

Diante das câmeras Leonardo DiCaprio reforça sua maturidade (mostrada desde Os Infiltrados) na pele do atormentado Cobb, um astuto criminoso que persegue um objetivo profissional, enquanto o objetivo pessoal o persegue de volta.

Gordon-Levitt, DiCaprio e Hardy sonhando com dias melhores
Gordon-Levitt, DiCaprio e Hardy sonhando com dias melhores

Como seu braço direito, Joseph Gordon-Levitt é um coadjuvante correto, responsável por uma das mais ousadas sequências do filme, em que transporta um comboio de gente por um ambiente sem gravidade. Além disso, são deles as cenas de luta de perder o fôlego onde, aliás, ele não usa dublês. De espantar, também, sua semelhança física e os mesmos trejeitos do falecido Heath Ledger.

Nos papéis femininos, Ellen Page é a menina-prodígio que ajuda Cobb a desvendar seus próprios segredos, descobrindo e explicando os caminhos a percorrer. Enquanto isso Marion Cotillard vive (num sentido um pouco figurado) a esposa amalucada que atormenta-lhe a vida, quase sempre ao som de sua inesquecível Piaf. (Ambas concorreram ao Oscar em 2008, que Cotillard levou.)

Despontando para a repentina fama vem também o novo Mad Max Tom Hardy, o abrutalhado galã que desabrochou em Handsome Bob, o valentão gay de RocknRolla. Hardy participa de outra série de cenas originalíssimas no enredo, revezando-as com Tom Berenger – digamos, no sentido mais literal da palavra.

O andrógino Cillian Murphy (o espantalho do primeiro Batman) e o samurai Ken Watanabe completam as peças que faltam no filme, sem comprometer, mas também sem nenhuma emoção adicional. Ah, e Michael Caine, que não fede nem cheira.

Desce daí, menino!
Desce daí, menino!

A história da criação e produção deste filme vem de longe: assim que acabou de rodar Insônia, Nolan ofereceu o roteiro de Inception à Warner, que prontamente aceitou-o. Mas naquela época não havia uma linha escrita, sequer. Acreditando que a tarefa levaria alguns meses, Nolan errou feio sua previsão e finalizou o script nada menos que oito anos depois.

Grosso modo – e isso não será um spoiler, pois é o resumo dos jornais – o filme fala de um ladrão de dados que usa técnicas específicas para furtá-los diretamente das cabeças das pessoas. Quando lhe pedem para fazer o inverso (isto é: colocar algo lá dentro), a coisa se complica.

Neste aspecto, um dos grandes méritos do filme – e que também acredito que tenha sido a maior dificuldade de Nolan nesses oito anos em que brigou com o roteiro – foi encontrar explicações minimamente plausíveis para a trama. Claro, considerando que estamos falando de invadir os sonhos dos outros…

Ainda assim, até mesmo a parte central, onde uma idéia é implantada, tem um fundamento de verdade: no final da década de 1980 a psicóloga americana Elizabeth Loftus realizou um experimento onde ela foi capaz de implantar memórias nas mentes de seus voluntários. Seu célebre estudo Perdido no Shopping mostrou que nossas lembranças nem sempre são fiéis aos fatos originais.

Mas o que Nolan explora em toda a sua repicada narrativa é: que fatos são originais?

O que essa minha arquiteta aprontou...?
O que essa minha arquiteta aprontou…?

Em resumo, “A Origem” é um filme excepcional. Um marco na história do cinema. Um enredo sólido numa realização soberba. Um projeto ousado, um convite, um desafio. A cada nova reviravolta eu dava risinhos na poltrona, enquanto pensava: “de onde esse louco tirou isso…?” Realmente não dá para saber. Só posso imaginar que ele deve ter sonhado com tudo aquilo…

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* Na verdade o longa-metragem de estréia de Nolan foi Following (1998), mas ele não teve lançamento comercial de fato.

Sua personagem, Ariadne, na mitologia grega era filha do Rei Minos, de Creta e foi quem deu a Teseu um novelo de linha para ajudá-lo a escapar do labirinto onde prendeu o Minotauro.

4 pensamentos em “A Origem: uma obra-de-arte de Christopher Nolan”

  1. Outro grande texto seu, hein, Rodolfo?
    Legal você ter dito tanto sobre o filme, sem spoilers.
    Sou suspeita, porque adoro Christopher Nolan – adorei até mesmo Insônia, especialmente pela situação do Al Pacino no filme.
    Mas A Origem/Inception é mesmo como você disse, um marco. Excepcional. Como no seu texto: que fatos são originais? Se a minha chatice me fez não gostar do belo (como cinema) mas falho (como roteiro) “A Ilha do Medo”, ela foi anulada pelas soluções do Nolan.
    Ah, bem destacado por você o paralelo com Ariadne, figura mitológica que gosto tanto que até já escrevi a respeito no meu blog.
    Outra vez, parabéns pelo post!
    Beijo

  2. Se o cara não entendeu “Amnésia” ele nem deveria ir ao cinema 😀
    Pra mim o mais difícil vai ser encarar o Leonardo DiCaprio, só se saiu mais ou menos em “O Aviador”. Falando nele, “A Ilha do Medo” para mim é um marco na historia do cinema, é o pontapé inicial do grotesco em larga escala (já não bastasse “Jogos Mortais”).
    Quando mais pop o mundo fica, mais é fatiado em nichos. É exatamente o inverso do que a liberdade prometia. Uma pena.
    Verei o filme… O visual roubou um pouco da concepção idealizada em “Dark City”, e curiosamente não vi ninguém lembrar disso 🙂


    Abraços!

  3. Desde o ano passado esperava pelo lançamento deste filme. Como todo bom cinéfilo eu faço minha listinha de lançamentos potenciais todos os anos.
    Adorei o texto, inclusive pela ausência de spoilers, mas só verei o filme amanhã, devido alguns compromissos sociais.
    O foda é que minha ansiedade, após a leitura deste texto aumentou consideravelmente.
    Abraço!

  4. “A origem”
    Mesmo que levássemos em conta apenas a superfície imediata do entretenimento, o filme superaria a média industrial hollywoodiana. Nem tanto por mérito do jovem e talentoso Cristopher Nolan, mas graças ao arrojo técnico empregado para contar sua história mirabolante. Os efeitos visuais atingem um grau de ilusionismo assombroso. A edição é exemplar. Prêmios técnicos não faltarão ao filme.
    Há, no entanto, um pequeno detalhe.
    A música “Je ne regrette rien”, cantada por Edith Piaf, surge freqüentemente, servindo a necessidades dramáticas. Os protagonistas a utilizam como uma espécie de gatilho para retornar das viagens pelos sonhos. Depois que os inconscientes foram devidamente treinados, basta-lhes ouvi-la e todos despertam imediatamente, salvando-se de apuros eventuais.
    Mas trata-se também de uma referência exterior ao próprio filme: a canção desloca nosso raciocínio da personagem-chave “Mal” para sua intérprete, a francesa Marion Cotillard. Pois é impossível não lembrar a própria Cotillard no papel de Edith Piaf, cantando exatamente “Je ne regrette rien”.
    Enquanto “Mal” só existe no mundo onírico, a identificação da atriz com seus trabalhos anteriores faz sentido apenas no plano dos espectadores conscientes. A citação extrai os personagens de suas imersões pela fantasia e ao mesmo tempo nos retira de “A origem” (ou do “sonho” representado pelo filme) para devolver-nos à realidade exterior.
    Se qualquer outra canção preservasse o mesmo sentido conveniente à trama (“não lamento nada”), as lucubrações acima virariam delírios absurdos. Mas a escolha dessa música, entre inúmeras possíveis, é precisa e enriquecedora demais para soar casual. E assim descobrimos a essência do código metalingüístico em sua plena realização.
    http://guilhermescalzilli.blogspot.com/

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