De Tiriricas e outras titicas

Não sei o que é pior: ter um candidato (a qualquer coisa) chamado Tiririca e fazendo uma campanha à sua altura; ou seus amigos acharem isso engraçado.

Depois de pensar quatro segundos inteiros, no entanto, concluo que a segunda parte é muito pior. Afinal, o Tiririca não teve estudo, instrução nem formação cultural.

Mas seus amigos tiveram. Seus amigos foram à escola, estudaram, aprenderam o que foi o AI-5 e viveram num país governado por uma junta militar. Seus amigos viram o movimento pró-Diretas, e lamentaram a morte do Tancredo. Seus amigos elegeram o Collor e suportaram o Itamar. E, por isso, não posso admitir que eles ainda achem graça numa aberração dessas.

Há programas humorísticos,

Galhofa eleitoral: o palhaço é o que vota
Galhofa eleitoral: o palhaço é o que vota

standup comedy, boas comédias no cinema ou em DVD, blogs e alguns séculos de vídeos no YouTube. São várias opções para rir.

Só que quando você ri do horário político, não está percebendo que você é o motivo da piada.

Em tempos de culto ao bizarro, elogio ao grotesco e palmas para a sordidez, eleger quem zomba das próprias instituições – antes ainda de fazer parte delas – parece até natural.

Se você acha graça daquele que diz que pior do que está não pode ficar, então você merece ser governado por um Tiririca, que seu dinheiro seja gasto pelo Paulo Maluf e sua cidade administrada pela Mulher-Salada-de-Frutas.

Porque de galhofa em galhofa o brasileiro vai destruindo sua tão cara democracia. Aquela pela qual lutou durante tanto tempo. Para agora colocar o Tiririca na TV e mostrar que não está preparado para tanta liberdade.

De qualquer forma, em outubro teremos o grande Censo de 2010 e mediremos, através das urnas, a quantidade de idiotas que tem no país. Você vai fazer parte dela? E o seu amigo?

6 pensamentos em “De Tiriricas e outras titicas”

  1. Concordo plenamente, Rodolfo!
    Uma piada de mau gosto mesmo! Nossas instituições políticas são aberrações, reflexo da pobreza intelectual de nosso povo…

  2. Rodolfo,
    Primeiramente, duas citações daquele que possivelmente foi o maior líder do Século XX, pois basicamente ele evitou que Hitler ganhasse a guerra em maio de 1940 (ver de John Lukacs, “Cinco dias em Londres”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 2001):
    1)”It has been said that democracy is the worst form of government except all the others that have been tried.” (Diz-se por aí que a democracia é a pior forma de governo, com exceção todas as outras formas que foram experimentadas); e, 2)”The best argument against democracy is a five-minute conversation with the average voter.” (O melhor argumento contra a democracia é um bate-papo de cinco minutinhos com o eleitor mediano).
    Em segundo e último lugar, que instituições? Quando se sabe que o Supremo Tribunal Federal teve a desfaçatez de enviar recentemente um projeto ao Congresso Nacional que torna automáticos os seus reajustes salariais que não precisariam depois dele passar pelo Congresso. Coisa manifestamente inconstitucional em todos os países do mundo em que exista um estado liberal democrático de direito à maneira conhecida, eis que suprime o controle do Poder Legislativo sobre o salário de agentes públicos. Nem João sem Terra, aquela que detonou o processo que conduziu à Magna Carta (1215) pensou num negócio desses.
    Nesse contexto, e, com o atual grupo no poder em instância nacional se preparando, com amplíssimo respaldo popular, para criar uma espécie de cópia rediviva do Partido Revolucionário Institucional, do México, e com os mesmos deletérios efeitos e resultados daquele monstrengo, votar em Tiririca ainda que, como forma de protesto deslavado, contra instituições que elas mesmas não se dão ao respeito faz muito sentido, sim. E, se eu fora eleitor em São Paulo, e, sem conhecer candidato algum em que pudesse confiar (ambas as premissas não me calham), votaria em Tiririca, sim, para escancarar os malefícios de um sistema eleitoral para deputados completamente maluco e que eu conheço bem (ver do seu xará Rodolfo Araújo de Moraes Filho “Pernambuco Geografia do Voto”, Editora Continente, Recife, 1986). Funcionaria talvez com alguma boa vontade como estímulo pelo mau exemplo para que se tentasse alguma forma de reforma eleitoral.
    É ao menos, o que eu penso, salvo melhor juízo.
    Joaquim Dantas.

  3. PS. Ocorreu-me agora que é bom esclarecer, pois eu me esqueci de dizê-lo acima (e pode sempre haver quem, por assim dizer, “não ligue o nome à pessoa”) que o lider em questão que salvou o mundo de cair nas mãos de Hitler e, por conseguinte, preservou a democracia para todos nós, sendo, aliás, depois disso democraticamente premiado (por razões basicamente James Carvillescas – isto é, econômicas) com uma estrondosa derrota eleitoral em julho de 1945 pelo eleitorado britânico, foi Winston Churchill.
    Joaquim Dantas.

  4. Rir do Tiririca não significa votar no Tiririca, e mesmo assim, ainda é preferível elege-lo, do que aberrações como Collor de Mello, Maluf ou Netinho. Senso de humor faz parte do brasileiro, desde a época do Cacareco.

  5. Eleitores Ficha Suja

    Causou comoção a recente decisão do STF de que a Lei Ficha Limpa não valerá para as eleições de 2010. Como tuitou a Senadora @Marinor Brito (PSOL-PA) “A constituição diz, pode ser corrupto até 2010 e em 2012 não?”. O…

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