Dia dos falecidos pais

Essa semana duas amigas jornalistas comentaram comigo sobre um mesmo incômodo: ambas precisavam escrever os infalíveis textos sobre o Dia dos Pais para suas respectivas publicações – sendo que os pais de ambas já morreram. Junto-me a elas como o terceiro da lista, antes por opção pessoal que por obrigação profissional – ou ainda, por solidariedade mesmo.

Como a leitora já deve imaginar, não vejo com muita simpatia essas datas comemorativas. Especialmente as que são completamente desprovidas de algum motivo além de vender quinquilharias – como o já citado, além do Dia das Mães, das Crianças, da Mulher, do Trabalho (quando ninguém trabalha, aliás), da Secretária ou do Médico*.

Implico, certamente, com o caráter essencialmente comercial de tais eventos onde a publicidade reduz, muitas vezes, uma relação que deveria ser espontânea e natural a uma obrigatória troca de presentes. (Atenção: eu disse que a publicidade faz isso, não você.)

A impressão que tenho é que sempre que somos obrigados a fazer algo (num dia específico ou não) é porque não desejamos fazê-lo de verdade. No Dia da Mulher, por exemplo, abundam as piadinhas dizendo que os 364 dias restantes são dos homens, coisa e tal. Sendo assim, raciocínio semelhante aplica-se às demais datas?

6a00e554b11a2e88330134860e1796970c-400wi Como é comum a filhos de pais separados, minha relação com meu pai sempre foi um tanto distante – e o tempo tratou de esticar ainda mais a separação geográfica entre Rio de Janeiro e Brasília.

Sua prematura e repentina partida, em 1997, parece ter deixado isso ainda mais claro. Assim como também deixou claro que uma relação antes capenga, jamais caminharia.

Claro que esse seria um motivo mais do que justo para eu não gostar do Dia dos Pais. Afinal, a gente normalmente desdenha daquilo que não tem, ou não pode curtir e apreciar. Mas eu também não gosto do Dia das Mães (ela já sabe disso) e também não curto Páscoa nem Natal.

Aos que se apressarem em imaginar um coração empedrado e peludo bombeando o meu sangue, pergunto qual o mérito em demonstrar carinho e afeto um dia no ano? Por que você se sente obrigado a amar uma horda de desconhecidos no Natal? E por que volta a ignorá-los no dia seguinte? Pois é assim que vejo essas datas. Um mero intervalo entre rancores diários.

* * * * * * * * * *

É improvável que alguém aqui ignore o pai (ou a mãe) o resto do ano. É um exagero meu para ilustrar um ponto-de-vista. Um ponto-de-vista de quem está fora da festa. Uma festa que já foi, mas não vai mais.

Enfim, também é provável que isso mude no dia em que for eu recebendo os presentes. (Eu disse “os” presentes…?)

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* Tem Dia do Blogueiro?

8 pensamentos em “Dia dos falecidos pais”

  1. Muito bom! Você acabou fazendo uma homenagem muito mais autêntica do que toda essa baboseira gosmenta que anda por aí.
    Também faço parte deste time que já não tem mais os pais. Também não lhes dei muitas alegrias enquanto em vida e amanhã sou o encarregado das homenagens aos pais na nossa igreja. Ainda bem que sou pai também e com isto tudo volta a fazer sentido. Os meus filhos também sabem que não gosto de melodrama fingido no Dia dos Pais e assim procuramos ser mais verdadeiros em nosso relacionamento.
    Tenha um excelente dia amanhã, apesar do Dia dos Pais!

  2. Ah, que texto bonito…
    Eu também não curto essas datas comerciais, a exceção do Natal, festa das crianças por excelência. Não há dia para amor, carinho, gentileza. E eu adoro dar – e receber – presentes “fora de hora”.
    (Desde já, invejo os filhos que você vai ter. Será um excelente pai! Devia começar logo…)
    Bjo

  3. Ô Ranzinzento Môr ………
    Como pode pensar assim? Bem. Eu sei. Concordo e adiciono:: odeio ser obrigado a ficar todo feliz no Reveillon (normalmente vou dormir 5 minutos antes da virada para não ter que ficar abraçando todo mundo), acho festa de Natal mala (sem contar o peru seco seco seco).
    A páscoa eu já acho bonitinha (mas o preço dos chocolates é f****).
    Mas vamos então criar o dia de nenhum dia!?!?!?
    Fui!
    Abrasss

  4. O mais triste é que a criminalidade aumenta quando se aproximam um desses “dias”. Devido ao velho sistema econômico (capitalista), além de explorarem nossos afetos, interferem na nossa segurança. Não quero ser repetitivo mas, é isso.

  5. Uma das jornalistas sou eu, né…rs
    Acho que como a maioria dos “semi-órfãos”, sinto falta do meu pai todos os dias, mas no Dia dos Pais parece que fica ainda pior…algumas pessoas te olham com uma cara de: “puxa, seu pai morreu”…como se isso te tornasse um grande de um coitado…
    Para mim, todas as datas comemorativas servem, de algum modo, para contribuir ainda mais com a chateação de quem não pode comemorar.
    Dia dos Pais ainda não é a pior…Natal, pra quem não tem família, ganha em disparada.
    Belo texto!
    Bjs
    Caru

  6. Caro Rodolfo
    Como companheiro no time dos ranzinzas com essas coisas, eu adicionaria mais algumas efemérides, cujos rituais vão se descaracterizando à medida em que se massificam, ao mesmo tempo em que a pressão social para que se façam aumenta: a data de aniversário, em que algumas pessoas invariavelmente me telefonavam (foram deixando de ligar à medida que eu não retribuía no aniversãrio delas)…
    Nada disso substitui ou compensa as pequenas atenções em momentos quaisquer, quando damos uma ligadinha pra convidar para um sorvete, um passeio na praça ou coisa assim. E, à medida que tendemos a ter relacionamentos em escala crescente, essas pequenas atenções sem data passam a ser realmente valiosas.
    Um abraço
    Sérgio

  7. Concordo com você e acrescento que, nestas datas, as pessoas correm e compram a primeira camiseta abaixo de R$ 50,00 como presente.
    Como a Nina também acho muito legal dar e receber presente fora de hora, porém mesmo com filhos, não gosto do Natal.
    Abraços

  8. Rodolfo,
    Posso falar de cadeira, pois fui uma das que não incentivava meus filhos a entrar nesse clima de comemorações de datas. Porém – contradição das contradições – ai deles se se esquecem de me ligar no dia das mães ou do meu aniversário …

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