Meus filmes da década de 1990

Dando uma pausa nos textos mais ácidos – crítica demais deixa a gente meio amargo e eu detesto chocolate meio amargo – vou pagar uma dívida que ficou desde o início do ano. Depois de citar meus filmes favoritos da década passada, dei-me conta que vários filmes que adoro ficaram de fora, pelo simples fato de terem sido feitos no período anterior.

Às minhas leitoras mais sensíveis, peço desculpas antecipadas pelo fato de nove dos dez filmes serem policiais ou suspenses. Sem mais enrolação, vamos a eles!

ATENÇÃO: Dado o gênero predominante, a maioria dos textos contém spoilers. Se você não viu algum dos listados, pule-o!

10. Fogo contra fogo (1995) Escrito e dirigido por Michael Mann o filme foi rodado em 65 locações em Los Angeles e não tem sequer uma cena em estúdio.

"Don't let yourself get attached to anything you are not willing to walk out on in 30 seconds flat if you feel the heat around the corner."
“Don’t let yourself get attached to anything you are not willing to walk out on in 30 seconds flat if you feel the heat around the corner.”

Heat participa dessa lista pelo seu formidável elenco e a estética toda própria de seu diretor.

O antagonismo polícia/ladrão é baseado em personagens reais vividos por Al Pacino (Ten. Vincent Hanna) e Robert De Niro (Neil McCauley) e mistura conhecidos ingredientes dessa relação, como a mútua admiração e a forte influência que as carreiras exercem sobre ambas as vidas.

O bando de De Niro conta ainda com sempre psicopata Tom Sizemore (Michael Madsen foi cogitado para o papel), o sinistro Danny Trejo e o versátil Val Kilmer. Envolvidos em golpes cada vez mais audaciosos, eles devem exercitar o desapego e estar sempre dispostos a deixar tudo para trás se virem o inimigo dobrando a esquina.

Uma curiosidade que confirma a Teoria dos Seis Graus de Separação: Ted Levine é um dos policiais da equipe de Hanna e fez o papel de Búfalo Bill, o serial killer de “O Silêncio dos Inocentes” (veja texto logo abaixo). Do outro lado, quem dá as dicas aos bandidos, the-man-with-the-plan (o da cadeira de rodas) é Tom Noonan, que fez o serial killer de Caçador de Assassinos (ManHunter, 1986), o primeiro filme onde aparece o canibal Hannibal Lecter, dirigido por… Michael Mann!

Fogo contra fogo tem cenas clássicas entre filmes policiais, como a vigilância monitorada por câmeras infra-vermelho, a tocaia às avessas no cais do porto e o civilizado encontro entre os dois personagens principais no restaurante.

Em ótimas participações especiais aparecem no filme, ainda, uma incipiente Natalie Portman, a infiel Ashley Judd, o astuto Jon Voight, o covarde Hank Azaria (dê uma olhada nessa cena em que Pacino comenta os atributos de Judd; sua fala é totalmente improvisada, daí a cara de espanto de Azaria) e mais covarde ainda Willian Fichtner.

9. O profissional (1994) Outro fantástico jogo de gato-e-rato com dois protagonistas de peso, Léon (título original) opõe um assassino bonzinho e um policial malvado. Jean Reno é um matador de aluguel subcontratado pelo dono de uma cantina local (Danny Aiello) para eliminar desafetos alheios. Sua perícia profissional contrasta com o ingênuo analfabeto de vida simples cuja melhor amiga é uma planta, a quem dedica seu amor e afeto.

A pupila e seu mestre
A pupila e seu mestre

A reviravolta dá-se por conta de um massacre ocorrido no prédio onde mora, que resulta na forçada adoção da recém-órfã Mathilda, a ainda ninfeta israelense Natalie Portman.

Por uma dívida de drogas, sua família é trucidada pela gangue de Stansfield, o melhor papel da carreira do intenso Gary Oldman. Na improvável relação que se desenvolve, Léon treina a menina em sua arte para que ela execute sua vingança particular.

Destaque para a cena de abertura, em que o profissional invade uma cobertura atrás de um medroso gângster. Merece lembrança, também, o treinamento da menina que aprende que rifles de longa distância são armas de novatos e que atinge-se a perfeição quando se enfrenta o alvo olho-no-olho, empunhando uma singela (porém mortal) faca.

8. Um plano simples (1998) O roteiro deste filme parece ter sido baseado nos estudos de Phil Zimbardo, que explica como pessoas comuns podem ser levados a cometer atrocidades inimagináveis quando submetidos a situações extremas, naquilo que batizou de Efeito Lúcifer.

Hank (Bill Paxton) e Sarah (Bridget Fonda) formam um casal comum de uma pequena e gélida cidade americana, até que descobrem uma pequena fortuna num monomotor que despencou na região. Os dois decidem guardar o dinheiro por um tempo, para ver se alguém aparece para reclamá-lo e, então, tomar posse definitiva do tesouro.

Mas o plano simples começa a dar errado quando o destrambelhado irmão de Hank (o grotesco Billy Bob Thornton) descobre o dinheiro e, meio sem querer vaza o segredo. Quando outros moradores da região pouco a pouco vão tomando conhecimento do dinheiro, o casal encurralado começa a eliminar um a um.

Dirigido por Sam Raimi (antes de ele entrar na péssima franquia do Homem-Aranha), o filme retrata uma desastrosa sequência de erros, onde cada emenda é pior que o soneto anterior, culminando com um trágico desfecho para a outrora pacata família. Um plano simples é daqueles filmes que jamais terá uma continuação – por absoluta falta de personagens.

7. Se7en (1995) Com o objetivo de expôr à sociedade suas próprias mazelas, John Doe (“Fulano de Tal” em inglês) enumera os sete pecados capitais da forma mais real e explícita possível. O desenrolar dos crimes revela crescentes crueldade e perversidade em sua execução, deixando perplexo até mesmo o experiente Detetive William Somerset – interpretado por Morgan Freeman na época em que ele ainda não se considerava o melhor ator do mundo.

Desde os créditos iniciais – a melhor montagem que já vi -, o público entra na incômoda atmosfera de Seven, onde um criativo psicopata nos obriga a revisitar os pequenos desvios diários que cometemos, porém em situações e intensidades bem mais amenas.

Amenidade, contudo, não é o forte de John Doe, caracterizado de forma memorável por Kevin Spacey, num papel em que cogitou-se entregar a Mike Stipes, vocalista do REM (Spacey aceitou o projeto dois dias antes de as filmagens começarem).

Clímax ou anticlímax?
Clímax ou anticlímax?

Considerado o oitavo filme mais assustador de todos os tempos pela Entertainment Weekly, o roteiro foi recusado até por David Cronenberg e não foi estrelado por Denzel Washington que o considerou macabro demais.

Seu papel coube, então, a Brad Pitt, numa das melhores atuações de sua carreira – a cena da execução final é simplesmente arrebatadora!

Curiosidades: o personagem de Brad Pitt aparece no filme com o braço enfaixado. Na verdade, Pitt sofreu uma queda numa cena em que persegue Spacey embaixo de chuva, quebrando o para-brisas de um carro com o braço, ferindo-o de verdade; A insossa e chatíssima Gwyneth Paltrow não queria fazer o filme e teve que ser convencida por seu namorado – na época, Brad Pitt; Num final alternativo – contido na Edição de Colecionador em DVD – é Freeman quem mata o psicopata; Leland Orsen, que comete o crime da luxúria, ficou alguns dias sem dormir para fazer a nervosa cena do interrogatório, de modo a ficar realmente desorientado durante as gravações.

6. Ajuste final (1990) Considero este o melhor filme dos irmãos Coen e, como já escrevi um texto completo sobre ele, não vou me repetir aqui. Os únicos destaques que não me importo de repetir são a maravilhosa combinação de fotografia/direção de arte e trilha sonora, além da épica cena da execução, que conta com memoráveis interpretações de Gabriel Byrne e, especialmente, John Turturro.

5. O silêncio dos inocentes (1991) Uma obra-de-arte do gênero suspense, este filme foi a segunda adaptação para o cinema de uma obra de Thomas Harris (a primeira foi citada em Fogo contra fogo, lá em cima), contando as peripécias gastronômicas nada ortodoxas de Hannibal Lecter.

Apesar de altamente macabro, o roteiro de Harris apóia-se em alguns fatos reais, exatamente onde mais se imagina ser ficção: Hannibal assemelha-se com Jeffrey Dahmer (o famoso canibal de Milwaukee); Buffalo Bill, o serial killer, tem traços de Ed Gain (que colecionava partes de suas vítimas e também inspirou Psicose) e Ted Bundy (que fingia-se machucado e pedia ajuda às futuras vítimas).

Clarice e Hannibal: uma delicada relação
Clarice e Hannibal: uma delicada relação

O argumento central do filme também teve origem em fatos reais, a partir da colaboração prestada por Ted Bundy ao investigador do FBI Robert Keppel no caso do serial killer de Green River, em Seattle (o assassino, no entanto, só foi preso em 1991, dois anos após a execução de Bundy).

Com esses ingredientes o diretor Jonathan Demme, cujo passado registrava apenas comédias e musicais, trouxe crimes brutais e assassinatos em série para o imaginário popular, reforçando uma estética hiperrealista que, até então, provocavam risos nos filmes de terror.

A trama gira em torno da improvável colaboração entre uma policial em início de carreira – vivida pela precisa Jodie Foster num papel sabiamente recusado por Michelle Pfeiffer – e um irrecuperável criminoso condenado à prisão perpétua – encarnado de forma soberba por Anthony Hopkins, até então um ator mediano, num papel onde o preferido do diretor era Sean Connery e também foi recusado por Jeremy Irons.

À base de trocas mútuas de pequenos favores – quid pro quod – a relação desenvolve-se através da troca de informações: valiosos insights sobre a mente de um lunático que só outro lunático consegue enxergar, por dolorosas lembranças pessoais imediatamente transformadas em fetiche, num tortuoso jogo psicológico entre protagonista e antagonista.

O Silêncio dos Inocentes teve, ainda, outras três continuações: Hannibal (não dá pra colocar Julianne Moore num papel que foi de Jodie Foster!), Dragão Vermelho e o menos famoso caça-níquel Hannibal – a origem do mal. Destaca-se, ainda, o fato de ter sido o terceiro filme a ganhar o grand slam do Oscar, sendo premiado como melhores Filme, Diretor, Roteiro Original, Ator e Atriz principais – feitos realizados anteriormente apenas por Aconteceu naquela noite (1934) e Um estranho no ninho (1975) – e jamais depois. Hannibal Lecter ganhou, também, o honroso posto de maior vilão do cinema, segundo o American Film Institution.

Curiosidades: A parte do diálogo em que Hannibal sacaneia Clarice por seu sotaque caipira foi um improviso de Hopkins e a reação furiosa de Foster é genuína; Assim que leu o livro de Thomas Harris, Foster quis comprar seus direitos, mas Gene Hackman havia chegado antes dela; A célebre frase de Hannibal “Hello, Clarice“, jamais foi dita no filme.

4. Gênio indomável (1997) Tanto a primorosa atuação quanto o impecável roteiro (premiado com o Oscar) foram os responsáveis pelo surgimento de Matt Damon – um dos maiores talentos de sua geração. Gênio Indomável conta a história de Will Hunting, um rebelde com um enorme leque de habilidades – da retórica irretocável ao talento matemático inato, passando por assombrosa memória – que, infelizmente, não inclui qualquer aptidão para a vida em comunidade.

O filme poderia ter sido a descrição da vida real de Chris Langan, o homem com o maior QI já registrado até hoje, mas cujos empregos foram de operário a porteiro de boate. A diferença no desfecho das duas histórias deve começar, no entanto, no momento em que Hunting é forçado pela Justiça a frequentar um terapeuta. Da obrigação legal à necessidade pessoal, a relação começa com embates filosóficos entre os dois personagens, cujos objetivos diferem entre precisar ter razão e mostrar que não é preciso ter razão.

Matt Damon encarna de forma soberba o jovem problemático, compondo um Hunting ao mesmo tempo auto-confiante mas com um enorme medo de errar, ou de expôr suas fraquezas – o que, no final das contas, é a mesma coisa. No mesmo nível, Robin Williams (cuja atuação valeu-lhe um Oscar) vê no amargurado rapaz algo do seu passado e uma oportunidade de livrar-se de seus próprios traumas. As sessões de terapia evoluem para uma liberação mútua, nas quais ambos exorcizam seus fantasmas na dolorosa e desesperada tentativa de levarem suas vidas adiante.

"Não é sua culpa."
“Não é sua culpa.”

A relação tem seu momento mais intenso provocado por um impassível Sean diante do incrédulo Will. A exaustiva repetição de “Não é sua culpa” vai arranhando a casca protetora de Will, e aos poucos rompem-se todas as suas barreiras, deixando-o indefeso como uma criança.

O catártico desfecho compõe uma das mais emocionantes cenas do cinema, especialmente para marmanjos embrutecidos.

O filme conta ainda com belíssimas interpretações de Minnie Driver, na mocinha rica que se apaixona pelo jovem probretão e tem que lutar para romper barreiras sociais que, no final das contas, também não é sua culpa. E as lindas que me perdoem, mas ela é uma das atrizes mais charmosas do cinema, apesar do seu enorme maxilar. Não à toa Damon viveu um romance com ela durante as filmagens. Ah, o filme também tem o canastrão Ben Affleck, num papel de consolação por ser co-autor do roteiro.

Curiosidades: Gus Van Sant pediu a Affleck e Damon que reescrevessem o roteiro, incluindo a morte de Chuckie (Affleck) num acidente. A contragosto os dois cederam, mas Van Sant mudou de ideia porque o desfecho seria macabro demais; Numa das sessões de terapia, o texto onde Sean conta a Will sobre os peidos de sua falecida esposa foi totalmente improvisado – o que explica a espontaneidade das gargalhadas de Matt Damon e o ligeiro tremor da imagem, provavelmente devido às risadas do cameraman.

3. Los Angeles: cidade proibida (1997) É difícil destacar um motivo especial pelo qual gosto tanto desse filme, por isso meu palpite é que ele é todo bom. A trama é muito envolvente, o elenco está em perfeita sintonia e a produção foi extremamente caprichada. Os personagens são densos, complexos e recheados de dilemas internos. Todos têm intenções ocultas por trás de seus atos, mesmo que eles mesmos não se deem conta disso.

Ainda que não tenha sido o primeiro filme da carreira de nenhum deles, Los Angeles marcou a arrancada para o estrelato de (até então) duas jovens promessas: Russell Crowe e Guy Pearce. O primeiro faz um homem violento porque traumatizado, que encontra na carreira policial a chance de vingar e reparar as agressões sofridas; o segundo representa o jovem cuja desmedida ambição é escrever uma história tão ou mais gloriosa do que a do próprio pai. Ao conflito entre as aspirações e métodos dos dois soma-se, ainda, o amor pela mesma mulher e o que temos é um conflito do início ao fim do filme.

A trama desenrola-se através de elementos bem conhecidos: sexo, morte e corrupção. Dirigindo uma revista sensacionalista, Danny DeVito faz de tudo para ter o que contar em sua publicação. Até mesmo promover o encontro entre um garoto de programa (vivido pelo mentalista Simon Baker, coitado) e um político local (quem desconfiaria que Ron Rifkin fosse moça?).

Só que quando as coisas fogem do controle e pessoas começam a morrer, até mesmo DeVito entra na máquina de moer carne. Enquanto correm para desvendar os homicídios, Crowe e Pearce deparam-se com uma trama ainda mais complicada e, para resolvê-la, terão que remexer o lixo local. Com a ajuda de Kevin Spacey, eles vão subindo na hierarquia política e derrubando o que vêm pela frente.

Cenas antológicas permeiam o filme, como o interrogatório de dois suspeitos baseado no dilema do prisioneiro e o momento em que Bud White (Crowe) descobre que Ed Axley (Pearce) dormiu com sua namorada e a sequência onde ele o espanca.

2. Cães de aluguel (1992) O debut de Quentin Tarantino é também sua obra-prima. Seu filme de estreia foi rodado quase todo dentro de um galpão e contou com parcos recursos – parte deles conseguidos através de Harvey Keitel, também produtor executivo da película.

Reservoir Dogs conta a história de um bando de criminosos da pesada reunidos para um grande assalto a uma joalheria que, aliás, não é mostrado. Mas algo sai errado durante o roubo e, imaginando como os policiais teriam chegado lá tão rápido, concluem que há um traidor entre eles. O restante do filme rola em torno da confirmação da suspeita e suas tentativas de descobrir quem é o delator.

Blonde, Brown, White, Orange e Pink: os anônimos cães de aluguel
Blonde, Brown, White, Orange e Pink: os anônimos cães de aluguel

Tarantino usa e abusa de um recurso que o tornaria famoso para contar a história de cada um dos participantes: flashbacks.

Ficamos sabendo, assim, o passado leal de Mr. Blonde, encarnado pelo psicopata Michael Madsen. Seu personagem mistura um sádico torturador na pele de um cínico criminoso.

Segundo conta no DVD comemorativo pelos dez anos da obra, ele passou mal filmando a cena em que arranca a orelha do policial. Seus atos cruéis de extrema violência contrastam com sua fala mansa e gestos moderados.

Na mesma entrevista ele relata que quando vê crianças na rua acompanhadas de seus pais, os pequenos olham felizes para ele lembrando de seu cândido papel em Free Willy, enquanto que os grandes têm aquele ar desconfiado por suas maldades como Mr. Blonde.

Já o passado de Mr. White concentra-se em sua relação com uma ex-namorada e as decepções que viveu com sua parceira em seus golpes. Do seu diálogo com os contratantes, surge a conclusão que ninguém é confiável.

O terceiro flashback revela de cara quem é o traidor: Mr. Orange é preparado por seu mentor para ser o agente infiltrado. Ele treina histórias para entreter seus parceiros e ensaia um passado inexistente de bandido perigoso. Mas na derradeira ação é ele quem acaba ferido e passa a ser protegido por Mr. White. Mas da mesma forma que vai-lhe drenando a vida, seu ferimento parece garantir-lhe imunidade, na medida em que seus parceiros não acham que um traidor seria baleado. Curiosa ironia vivida pelo agonizante Tim Roth, dividido por sua dupla missão e defendido pelo homem que deveria entregar.

Além de brincar com a cronologia dos fatos no filme, Tarantino imprime outra marca registrada sua: diálogos afiadíssimos. A sequência de abertura onde debatem o significado por trás da letra de Like a virgin já é um clássico do cinema. Logo depois uma discussão sobre se devem ou não dar gorjetas. Uma pérola atrás da outra.

1. Os suspeitos (1995) Recentemente o jornal britânico The Independent apontou Os suspeitos como a terceira maior reviravolta da história do cinema, atrás apenas de O sexto sentido e Psicose. Não é para menos. O roteiro de Christopher McQuarrie é um primor e magistralmente executado por um jovem Bryan Singer (da franquia X-Men).

"A culpa é de vocês. Não se coloca cinco caras assim juntos numa cela."
“A culpa é de vocês. Não se coloca cinco caras assim juntos numa cela.”

Cinco habilidosos bandidos são envolvidos por uma lenda do crime chamada Keyser Soze para executar um ataque mortal a um barco supostamente carregando drogas.

Cada um amarrado por um motivo diferente eles se vêm sem saída, a não ser obedecer o que lhes impõe o megacriminoso, através do sinistro advogado Kobayashi (o soturno Pete Postletwhite, de Em nome do pai).

O bando reúne o perito em explosivos Todd Hockney (o contido Kevin Pollak), o fraudulento Fred Fenster (um magérrimo Benicio del Toro), o atirador Michael McManus (o inconsequente Stephen Baldwin), o cérebro Dean Keaton (o morto-vivo Gabriel Byrne) e o aleijado Roger “Verbal” Kint (um múltiplo Kevin Spacey). Perseguindo o bando está o perdido David Kujan (o durão Chazz Palminteri, vários passos atrás e achando estar sempre adiante).

Entremeando as tramas secundárias está o depoimento de Verbal Kint, onde constrói-se a lenda de Keyser Soze, um criminoso húngaro notório por seus métodos violentos e seu desapego a qualquer valor. Questionado por Kujan por que não entrega Soze, Kint pergunta-lhe: “Como você atira no diabo pelas costas? E se você errar…?” Noutro sinistro momento, Kint descreve uma das lendas em torno de Keyser Soze, revelando a origem de sua carreira criminosa explicando como ele foi capaz de encontrar “motivação para fazer o que os outros não estavam dispostos a fazer”. Um resumo até simplista da forma bárbara como Soze resolveu as violências cometidas contra sua própria família.

Os suspeitos é recheado de um fino humor, presente em cenas como as prisões de cada um e os interrogatórios dos protagonistas, além dos diálogos que travam quando são presos todos juntos. Há outras passagens memoráveis, como o assalto ao contrabandista de esmeraldas, o “melhor serviço de táxi de Nova Iorque” e o ataque ao barco argentino (Stephen Baldwin com o rifle dizendo que Lee Oswald era uma bicha é uma pérola!).

A beleza da trama – e que também possibilita sua total reversibilidade – é o fato de que ela é totalmente baseada na narrativa de Verbal Kint. Quando o espectador começa a pensar se tudo aquilo realmente existiu, bom, já é tarde demais. E como diz o próprio Keyser Soze no filme, “O maior truque jamais perpetrado pelo diabo, foi convencer o mundo de que ele não existe.”

Como da outra vez, ficaram de fora alguns filmes excepcionais, já que decidi relacionar apenas dez deles. Mas fica o registro: Magnólia (1999), O sexto sentido (1999), Melhor é impossível (1997), Fargo (1996), Atraídas pelo desejo (1996), Coração valente (1995), Um sonho de liberdade (1994), Tiros na Broadway (1994), Pulp Fiction (1994), Os imperdoáveis (1992) e Os bons companheiros (1990).

Também não citei duas obras de que gosto muito, porque possivelmente muitos de vocês não ouviram falar e já há textos aqui no blog dedicados a eles. Meus hors concours são Os santos justiceiros e Coisas para fazer em Denver quando você está morto.

8 pensamentos em “Meus filmes da década de 1990”

  1. A década de 1990 também foi marcada pela globalização da política neoliberal. Também fiquei viciado nos filmes de ação e violência norteamericana. Mas hoje prefiro filmes como AVATAR, A CORPORAÇÃO e outros do Michael Moore. Muito recomendáveis…

  2. IMPECÁVEL!!!
    Mas não sobrou nem uma vaguinha pro Forrest Gump?! Nem que seja pela trilha sonora ele tem um lugar.
    Da lista só não vi o Ajuste Final, dos Coen!
    Agora fiquei curiosíssimo!
    Grande abraço.

  3. apenas algumas correções de nomes:
    Sam Raimi
    David Cronenberg
    irmãos Coen
    Jonathan Demme
    Michelle Pfeiffer
    Russell Crowe
    Kevin Pollak
    __________
    Nota do autor: Muito obrigado pela revisão, Renato! Já fiz as correções.
    Um abraço, Rodolfo.

  4. não tem O Pagamento Final na lista?! um dos grandes filmes da década
    e no gênero policial tem Justiça Cega (Internal Affairs)
    já viu Sem Medo De Viver (Fearless)?
    aproveitando eis alguns da década de 90 que acho que vc curtiria:
    A Chave Do Sucesso (The Big Kahuna)
    Alerta Vermelho (Hostile Waters)
    Amor Maior Que A Vida (Waking The Dead)
    Closet Land (Idem)
    Linha Direta (Public Access)
    Operação Nuclear (By Dawn’s Early Light)
    Proteção À Testemunha (Witness Protection)
    Vivendo No Abandono (Living In Oblivion)
    e não sei se conhece o trabalho do diretor Rod Lurie, mas acho que iria gostar dos filmes dele, alguns:
    Minutos Extremos (Deterrence)
    A Conspiração (The Contender)
    A Última Fortaleza (The Last Castle)
    O Resgate De Um Campeão (Resurrecting The Champ)
    Faces Da Verdade (Nothing But The Truth)
    além de 2 séries: Line Of Fire e Commander In Chief

  5. Renato,
    gostei muito sobre de Carlito’s way sim! Al Pacino está muito bem, além de o filme ter sido um dos primeiros que vi com o John Leguizamo. E The Contender tem um Gary Oldman perfeito! Mas qual dos dez você tiraria…?
    Éder,
    sendo 100% honesto eu achei Forrest Gump chato pra cacete…
    Abraço, Rodolfo.

  6. >>> Mas qual dos dez você tiraria…?
    não me pergunte pq ai eu tiraria vários hehe começando pelo número 1 hehe
    Os Imperdoáveis, Fogo Contra Fogo, O Pagamento Final, Antes Do Amanhecer, A Estrada Perdida estariam na minha lista, mas aí seria minha lista hehe
    vai do gosto de cada um, mas é que acho Carlito’s Way tão superior que me surpreendeu não estar entre os 10 (e nem entre os que ficaram de fora)
    notei outra coisa: quase todos são americanos (O Profissional é meio francês, mas totalmente no estilo americano), é uma preferência ou quase não vê filmes de outros países (asiáticos, europeus, nacionais)?

  7. Retrospectiva 2010

    Segundo o Google Analytics, quase 160 mil pessoas passaram pelo blog neste ano – um número do qual me orgulho muito, depois de mais de dois anos do início do Não posso evitar… 2010 não foi um ano tão prolífico…

  8. Santos Justiceiros é fantástico!
    Eu substituo O profissional por ele, Fogo contra fogo por Clube da Luta, Los Angeles: Cidade proibida por qualquer coisa 🙂

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