O livro subiu no telhado

A cada novidade do mercado de tecnologia acumulam-se mirabolantes previsões sobre seus impactos no nosso dia-a-dia. Apesar de algumas delas causarem espanto e certa euforia, no fim das contas poucas deixam, efetivamente, o campo da pura ficção. Os imprecisos profetas vão se revezando para, disfarçada ou descaradamente, tentar direcionar o mercado.

A Bíblia de Gutemberg... num iPad! Um pelo outro?
A Bíblia de Gutemberg… num iPad! Um pelo outro?

A mais recente premonição ocorreu durante a festejada chegada do iPad que, tal como o Kindle, reacendeu o debate sobre o fim do livro impresso. Os gurus apontam, inclusive, o prazo de validade da já moribunda criação de Gutemberg: uns chutam cinco anos, outros arriscam dez.

Puro vapor. Nunca vi uma dessas estimativas que fosse baseada em números. Ninguém considerou unidades vendidas, histórico do mercado, últimas tendências ou pesquisas de opinião.

Tampouco vi uma análise fundamentada à luz de qualquer teoria de inovação como a de Christensen, por exemplo. Tenho minhas convicções a respeito dos e-readers e, dentre elas, não está o papel de substituto do livro (que trocadilho!). Eles representam, sem dúvida, uma inovação disruptiva – mas não do livro. Talvez possam revolucionar algum mercado, mas não o editorial. Se algum dia eu vir um crente com sua e-Bíblia no Kindle chegando ao culto, talvez mude de ideia.

Mas o livro subiu no telhado por outro motivo: ninguém quer ler; ninguém mais gosta de ler. Nesta semana eu esperava na recepção de uma empresa, ao lado de duas moças de aparência mais humilde. Enquanto eu lia meu livro, cada uma delas pinicava um moderno celular – muito mais modernos que o meu, diga-se, e provavelmente comprados de agiotas travestidos de varejistas.

No dia seguinte, antes de uma miniconferência numa entidade de classe, era o meu livro contra uma dúzia de BlackBerries, uma dezena de iPhones, meia de notebooks e um iPad empunhado por um pavão.

Minha contribuição à média: os lidos em 2010
Minha contribuição à média: os lidos em 2010

Em seu recente The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains, Nicholas Carr argumenta que a constante exposição à Internet e seus peculiares formatos e vídeos e cliques e pop-ups e janelas e blips e splashes transformou radicalmente nossa relação com o texto escrito.

São tantos estímulos simultâneos e concorrentes que a atenção fica irremediavelmente comprometida – na tela e, ainda mais importante, fora dela.

O resultado disso é que ninguém consegue ler textos maiores do que dois page downs, seja num website, no jornal impresso, uma revista de fofoca ou, last but not least, um livro. E aqui não importa se o livro é digital ou em papel. Quem não gosta de ler não vai ler – independentemente da mídia.

Por isso esse texto ficou bem curtinho mesmo…

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ATUALIZAÇÃO: O Carlos enviou o vídeo abaixo através dos comentários. Achei tão bacana que resolvi acrescentá-lo ao texto. Espero que vocês curtam!

 

ATUALIZAÇÃO II: Continuando a construção coletiva desse texto, acrescento duas contribuições do @ripchip: um texto do Umberto Eco e um vídeo mostrando como era o suporte ao livro na Idade Média:

 

14 pensamentos em “O livro subiu no telhado”

  1. Ah, eu vi um Kindle achei até legal, mas não vejo como pode substituir um livro. É difícil, eu mesmo prefiro ter o cd a fazer um download pago pro meu hd e dps perder o hd e o dinheiro pago. Prefiro ter o livrinho, aonde eu posso sublinhar, riscar, carregar pra lá e pra cá sem ser importunado pela criminalidade, já que ao invés do livro ele me levará o celular.
    Ainda que eu goste de ler, estou bem longe do que eu gostaria, pois leitura não é um hábito muito forte em mim, gosto muito de algumas literaturas não científicas, mas meu curso exige ler vários livros de Direito e é uma tarefa ardua, principalmente pra se acostumar com o vocabulário… Mas eu vou tentando…
    O blog continua ótimo Rodolfo. Eu estou distribuindo seus textos, de forma impressa pq se for pela net ninguém lê, pois eu acho que eles contribuem muito para nossos comportamentos, nossos parâmetros e nossa consciência. O que eu acho mais interessante e é o que eu me esforço para divulgar é “o mito do vício”, pois abre uma nova concepção sobre o tema, saindo daqueles dois idéais. E, recentemente, seus posts sobre motivação foram extraordinários, pois você escreveu, o que eu achava que tinha sentido, de uma forma excepcional que, se as pessoas forem pensar no texto, faz muito mais sentido do que ficar se falando exclusivamente que dinheiro motiva o mundo.
    Abraço, continue assim!

  2. Sensacional, Rodolfo.
    Não há suporte melhor que o papel na hora da leitura. Não há.
    Além de que no Brasil, pra falar de um mercado ainda MUITO fresco com relação aos e-readers, precisa-se se gastar uma fortuna tanto na aquisição do reader quanto na aquisição de e-books. Li uma matéria que comparava o mercado Brasil/EUA. Nos EUA com preço de e-reader + preço médio do ebook com mais ou menos 30 livros você “paga” o investimento na substituição do papel. Já no Brasil, precisa-se de 700 livros. Piada, né?!
    Nada contra os e-readers ou a própria internet. Ao meu ver estes são potenciadores. Se a pessoa gosta de ler, na internet pode encontrar coisas ainda mais interessantes – eu encontrei o seu blog e os livros mais bacanas que li ultimamente foram dicas suas – ou pode se tornar um simples preguiçoso, pois como uma palavra no Google se tem muito conteúdo.
    Agora o que se faz com isso tudo? Quantidade não significa qualidade.
    Creio que o papel ainda terá uma longa vida.
    Grande abraço.

  3. Para aumentar o coro da sua percepção (bastante pertinente, aliás), vi uma mudança radical no comportamento de europeus cujo hábito de ler, como se sabe, é infinitamente maior que o nosso. Diferenças culturais, claro, mas bem marcantes. Em 2002, em Londres e em Paris, observei as pessoas indo e vindo no metrô com seus livros nas mãos. Uma maneira eficaz, claro, de passar o tempo da viagem entre a casa e o trabalho. Neste ano, os franceses, pelo menos, leem o jornal gratuito que é distribuído no começo da manhã e no início da noite. Em outros horários, simplesmente trocaram seus livros por seus celulares, iPods etc. Com a internet funcionando inclusive nas estações de trem e metrô fica fácil acessar o bate-papo, ler as últimas atualizações de blogs, twitters etc. Por outro lado, o sucesso de vendas do iPad mostra o interesse das pessoas em aproveitar a funcionalidade do aparelho para adquirir ebooks. Ou então disfarçar, já que ter a tablet da Apple é considerado muito fashion. Os jornais (vide Jornal do Brasil) também estão sofrendo com a internet. E, ao que tudo indica, é um processo irreversível. Só não dá para saber, como uns e outros “profetas” decretaram, se o livro impresso vai acabar em cinco, dez anos. Assim como o rádio e o cinema não acabaram após a chegada da televisão.

  4. bom exemplo é o CD vs LP, o LP tá 99,9% morto, mas tem gente (boa) na música ainda lançando LPs ……
    Depois que vi que os argentinos consomem 6x mais livros que os brasileiros, e que temos (só) 6 de nossas universidades entre as 500 melhores do mundo, me assusto também …. sem dizer que grandes executivos de grandes empresas mal conseguem compor um parágrafo que faça sentido. E quando vemos textos incompreensíveis escritos por agências que cobram pelo serviço?!?!?!?!?
    Eu estou lendo minha cota (e a de mais alguém de livros) (e isso inclui crepúsculo, harry potter, fernando pessoa, ignacio de loyola brandão e algumas das boas sugestões daquele que não pode evitar)

  5. Eu poderia gastar muitas linhas citando exemplos como TV 3D (que ninguém consegue assistir por 1 hora sem vomitar), mas o “mercado” aponta como a próxima bola da vez…
    Mas… Eu realmente não entendo mais nada de mercado, nada de finanças (o mercado está bombamdo e TODAS as empresas que conheço estão no vermelho), a lógica que aprendi não funciona mais, pelo menos ao que me parece. Isso é muito claro vendo esse tipo de campanha:
    http://www.diesel.com/be-stupid/

  6. Rodolfo,
    eu gosto do livro de papel, porém, não sou avessa a experimentar outros meios de leitura. Contanto que o conteúdo seja bom! Para mim, ler é lazer, é diversão, é prazer, e também uma forma de aprender.
    Como mãe, para mim o grande desafio é mostrar a minha filha o prazer da leitura. Não importa em qual meio. Assim, todas as noites, leio para a minha menina, livros de papel, com poucas ilustrações e histórias longas que duram por dias.
    Ainda não entrei na era dos e-books, passei ao largo dos audios books, mas a tecnologia não me assusta. Como você destacou no seu ótimo texto, não é o meio o desafio, e sim, o conteúdo.
    Valeu o post!
    Beijo

  7. Rodolfo,
    Teria muitas coisas a escrever sobre este fenõmeno de “o-cinema-vai-acabar-com-o-teatro-ou-a-televisão-vai-acabar-com-o-rádio”. O que está havendo e haverá mais nesse caso, como nos anteriores (cinemaXteatro e televisãoXrádio), é – obviamente – uma especialização. Certo tipo de obra – livros de consulta sem dúvida nenhuma – são mais apropriados para o formato digital ou outros muito pouco. Quem viver verá. Mas o que quero realmente dizer-lhe é que descobri seu “blog” hoje (21-08-2010) quando estava procurando algo na Internet sobre um livro escrito por um amigo meu Rodolfo Araújo de Moraes. Coisas do Google. Gostaria, contudo, de registrar que gostei muito deste caso de “serendipity” digital. Li, com muito prazer, seus “posts” antigos sobre “autoatrapalhação”. Porque, enfim, fazem o que um bom escritor sempre faz, isto é, produzem aquela conclusão instantânea na mente do leitor: “que escritor ótimo, que diz com precisão e maestria, aquilo que eu sempre soube de maneira vaga e enevoada!”. Parabéns e deixe-me juntar uma achega às suas conclusões sobre os perigos do excesso de “pensamento positivo” ou “otimismo”: eu costumo dizer que os judeus alemães pessimistas que fugiram logo da Alemanha sobreviveram (houve algumas milhares deles que se salvaram até mesmo emigrando para Xangaí e ficando sobre a proteção real dos japonesese que ignoraram os protestos alemães), enquanto que os otimistas, os do isso vai passar logo… bem…. . É isso. Acrescentei seu “blog” à minha lista de favoritos, de imediato, pois, inteligência, bem mais raro e valioso que a platina, não deve ser desperdiçada.
    Joaquim Dantas.
    De Recife-PE.
    joaquim.dantas@uol.com.br

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