Positivamente Irracional – Adaptação

A última parte de Positivamente Irracional talvez seja a que traz mais lições interessantes por página. Em seus derradeiros capítulos Ariely descreve a forma como as pessoas se adaptam a novas situações, independentemente do seu caráter positivo ou negativo.

Quando você recebe um aumento, por exemplo, fica feliz com o reconhecimento e com o dinheiro extra. Mas rapidamente seus hábitos de consumo também sobem um patamar e aquela felicidade efêmera vai embora – assim como a folga no saldo bancário. Quando uma pessoa ganha na loteria, o choque inicial logo dá lugar a sensação de que ela precisa de outro bilhete premiado.

Do  lado oposto, as pessoas também tendem a se acostumar e aprendem a lidar com os revéses impostos pela vida. Ariely ilustra sua constatação com relatos e histórias de pessoas que precisaram encarar algum tipo de limitação a partir de determinado momento na vida, como diabéticos e paraplégicos.

Será que se adaptar é tão difícil assim?
Será que se adaptar é tão difícil assim?

Apesar da disparidade dos exemplos, cada um dos extremos ilustra, a seu modo, a evoluída plasticidade da mente humana.

Dan Ariely teve motivos muito pessoais para interessar-se pelo tema: ele próprio viu-se obrigado a passar por um longo período de adaptação, depois de ter mais de 70% do seu corpo severamente queimado num grave acidente com fogos de artifício, durante seu treinamento militar obrigatório em Israel.

Os relatos de suas dolorosas experiências revelam um autor desprendido e autêntico. Ariely expõe-se de forma sensível, sem ser piegas nem apelar para o coitadismo. Sua narrativa é precisa, cartesiana às vezes, mas nem por isso menos emocionante.

Além de toda a dor física que as cirurgias, o tratamento e a fisioterapia impuseram-lhe, Ariely experimentou, também, um grande período de adaptação psicológica. Ele precisaria adaptar seu novo corpo à sua antiga mente. Em sua mente, conta, ele ainda era o jovem bonito e atraente de que se lembrava antes do acidente. Mas o que via no espelho era radicalmente diferente. Uma fração de segundo, um momento de descuido e as duas imagens foram trocadas para sempre.

Adaptar-se não significa, continua, baixar a cabeça e conformar-se à nova realidade. Representa, antes disso, a necessidade de levar a vida adiante.

O ponto de partida para este tema, explica, surgiu de uma conversa que ele teve com um professor universitário que, também num acidente militar, teve suas duas pernas amputadas. A bizarra coincidência que os unia era o fato de nenhum dos dois recorrer à anestesia quando sentavam na cadeira do dentista. Ambos imaginaram, então, se a resistência à dor estaria relacionada às suas dramáticas experiências passadas.

Resolveram, então, colocar a hipótese à prova num experimento realizado num clube de veteranos de guerra. Os voluntários faziam parte do centro de reabilitação, onde a maioria estava envolvida em algum tipo de tratamento sério. O procedimento consistia em colocar o braço dentro de um recipiente com água aquecida a 48o Celsius e cronometrar: 1. o limite a partir do qual a sensação de calor transformava-se em dor e; 2. em que momento a dor tornava-se insuportável.

"É seguro?" Laurence Olivier e Dustin Hoffman no clássico Maratona da morte
“É seguro?” Laurence Olivier e Dustin Hoffman no clássico Maratona da morte

Depois disso os 40 participantes foram divididos em dois grupos de acordo com a severidade dos seus ferimentos: de um lado os que haviam sofrido danos irreversíveis e, de outro, ferimentos sérios mas que se recuperaram após tratamento adequado.

Como esperado, os pacientes Recuperados tinham um limiar para a dor mais baixo que os Irreversíveis (sentiam dor depois de 4,5 segundos com o braço dentro do tanque, contra 10 s do outro grupo); além de menor tolerância à dor (resistiam, em média, 27 s, contra 58 s). Parecia claro que havia uma diferença significativa entre os dois grupos, mas por que isso aconteceria?

Dois outros participantes dariam uma valiosa dica. Em vez de terem sofrido traumas, eles estavam ali buscando conforto para as sérias enfermidades das quais padeciam: um tinha câncer e o outro uma grave doença degenerativa no sistema digestivo. Curiosamente, ambos tinham limites muito baixos para a dor. Mais baixo, inclusive, do que os pacientes Recuperados.

O valioso insight que Ariely e sua equipe tiveram diz respeito ao prognóstico encarado por cada um dos grupos e o significado da dor para ambos. O grupo dos Irreversíveis havia suportado dores indescritíveis mas se recuperaram, embora tenham ficado com sequelas. Os Recuperados também sentiram dores e ficaram bem depois. Nos dois casos a dor estava relacionada à recuperação e, portanto, havia um bom motivo para suportá-la. Mas para os outros dois participantes a dor não fazia sentido porque não resultaria em melhora, remissão dos sintomas ou cura.

Do lado oposto, também nos acostumamos às coisas boas e aos prazeres, naquilo que se batizou de Adaptação Hedônica. O prazer do carro novo parece ir embora junto com aquele cheiro característico, assim como a empolgação com o novo emprego ou o desafio de morar numa nova cidade.

Para entender melhor o fenômeno da adaptação, Leif Nelson e Tom Meyvis estudaram o efeito de pausas durante tarefas irritantes ou prazerosas. Qual seria o impacto de fazer uma pausa enquanto você preenche o seu Imposto de Renda, arruma seu quarto, ou enquanto assiste ao último capítulo da novela ou come uma tigela de brigadeiro?

Figura 1: Experiências desagradáveis - tudo ao mesmo tempo agora?
Figura 1: Experiências desagradáveis – tudo ao mesmo tempo agora?

Intuitivamente os voluntários respondiam que preferiam ter as boas experiências de uma vez só, enquanto que as ruins deveriam ser interrompidas por pequenas pausas. Conheçamos, pois, o estudo, para vermos o quão enganados estavam:

Os três grupos do estudo seriam submetido ao agradável ruído de um… aspirador de pó, daqueles bem possantes.

O primeiro (A) ouvia apenas cinco segundos; o segundo (B) sofria por quarenta segundos e, o terceiro, (C) padecia também por quarenta segundos, depois tinha cinco de silêncio e, logo em seguida, mais cinco de barulho (Figura 1). A tarefa consistia, então, em avaliar o quão desagradável eram os cinco segundos finais do eletrodoméstico ligado.

O grupo B relatava um desconforto menor do que o próprio grupo A, apesar de ouvir o ruído desagradável por mais tempo. A explicação dada pelos pesquisadores era que em quarenta segundos a pessoa tinha tempo para se acostumar/adaptar ao barulho. Por outro lado, o grupo C era o que mais detestava o som, porque o efeito da adaptação era quebrado pela pausa.

Já para testar a Adaptação Hedônica, os voluntários eram submetidos a sessões de massagem – daquelas expressas feitas em cadeiras apropriadas.

O primeiro grupo (A) recebia três minutos ininterruptos, enquanto que o segundo fazia uma pausa de vinte segundos entre dois breves períodos de oitenta segundos (Figura 2).

Figura 2: Mais pra cima... mais pra direita... Agora pare. Espere. Continue...
Figura 2: Mais pra cima… mais pra direita… Agora pare. Espere. Continue…

O curioso neste outro caso é que, agora, as pessoas na condição B avaliaram a massagem de forma muito mais positiva do que as da condição A e, além disso, estariam dispostas a pagar até o dobro do outro grupo pelo mimo – mesmo tendo recebido menos massagem.

A conclusão dos pesquisadores envolve também um conselho muito prático: ao realizar uma atividade desagradável, faça tudo de uma vez, sem parar (quando você para e volta, precisa se readaptar àquela chatice); mas quando for algo prazeroso, pequenas pausas vão prolongar a sensação positiva. (Já pensou besteira, né?)

Fato é que – na alegria ou na tristeza – estamos sempre inclinados a nos adaptar às nossas novas condições de vida. Na tristeza tendemos a nos acostumar seja porque percebemos que é algo passageiro e que logo voltaremos ao normal, seja porque a situação é irreversível. Na alegria, nos acostumamos porque talvez acabe a sensação de novidade.

Ainda assim, a idéia de que nos acostumaremos com a nova situação não é tão fácil de assimilar – especialmente nos momentos imediatamente após o fato determinante de mudanças mais significativas. Ariely argumenta que essa dificuldade reside no fato de nós projetarmos nossa vida para frente baseados em nossa realidade atual – e não na nova realidade. Nossas previsões não levam em consideração, também, eventos inesperados (por motivos óbvios).

Além disso, pessoas diferentes têm ritmos distintos, motivações diversas, desejos divergentes. No que tange às mudanças – positivas ou negativas – cada um haverá de se adaptar da sua maneira toda particular. Uns conseguem prolongar ao máximo os pequenos prazeres da vida (e os grandes também), enquanto que outros entediam-se rapidamente. Uns dão duas voltas por cima, enquanto que outros lamentam-se profundamente todos os dias de suas sofridas existências.

Que fique claro, no entanto, que não defendo uma visão otimista de tudo o que nos acontece. Em Do pessimismo calvinista ao otimismo paralisante explico por que buscar sempre o lado bom das coisas, além de ser de uma enorme imaturidade emocional, leva à morte por falta de atitude. O que precisamos é passar por cima do que aconteceu, mas de forma consciente e não através da pura e simples negação, ou mesmo a auto-enganação do “tudo tem um motivo”. O que não te mata, não necessariamente te fortelece. Nietzsche, aliás, morreu.

Sei que este final parece um pouco contraditório com o resto do texto – afinal, estamos falando sobre Adaptação, não é mesmo? Mas Adaptação não tem nada a ver com Otimismo, nem com Pessimismo. Tem a ver com o inegável e inescapável fato de que, querendo ou não, nos adaptamos às coisas – por mais irracional que isso possa parecer. E, como isso sempre acontece, é mais uma de nossas características Previsivelmente Irracionais.

Mas, se você ainda não se convenceu por completo, fique com Always look on the bright side of life, essa pérola do humor nigérrimo do Monty Python: 

3 pensamentos em “Positivamente Irracional – Adaptação”

  1. Fiz a proeza de adquirir TODOS os livros que recomendou, inclusive os da Wish List da Amazon.
    Então, faltando alguns ainda para terminar de ler, gostaria de saber se tem alguns novos livros em vista – que seleção iluminadora!
    Tenho a sensação de ter procurado por esse gênero de livro por muitos anos, antes de encontrar o seu blog
    Abraço

  2. The Upside of Irrationality – Motivação e Vingança

    No texto anterior, vimos a Motivação sob a ótica da Economia Comportamental. Conforme explica Dan Ariely em The Upside of Irrationality, nem todos os incentivos funcionam bem para todo mundo, contrariando os preceitos básicos da Economia Tradicional, e…

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