A razão da irracionalidade

De uns tempos para cá tornou-se comum falar na irracionalidade do ser humano. Especialmente depois que uma das áreas mais apegadas à nossa racionalidade começou a rever seus conceitos: a Economia.

A popularidade do tema veio à tona quando Dan Ariely e Tim Harford adaptaram conceitos eminentemente acadêmicos a uma linguagem mais acessível ao público leigo em Previsivelmente Irracional e A Lógica da Vida, respectivamente.

A origem da discussão, no entanto, está nos trabalhos do Nobel em Economia Daniel Kahneman e seu colega Amos Tversky. Através de experimentos muito simples, porém extremamente engenhosos, os estudiosos mostraram que indivíduos às vezes tomam decisões contrárias ao que pregam os mais básicos princípios econômicos, como o da maximização da utilidade, por exemplo.

Jason Bourne: ultimato é com ele mesmo!
Jason Bourne: ultimato é com ele mesmo!

Um deles é o famoso Jogo do Ultimato*, no qual um dos participantes recebe uma quantia em dinheiro para dividir com seu colega da forma como achar que deve. Ele faz uma oferta sobre como o dinheiro será repartido e o outro, por sua vez, aceita ou não. Quando concorda, cada um leva a sua parte. Caso contrário, ninguém leva nada. Não há negociação, tampouco uma segunda rodada. É pegar ou largar (daí ultimato).

Num cenário assim, ganhar R$ 1,00 é sempre melhor do que não ganhar nada, certo? É neste ponto, dizem os estudiosos, que os resultados violam a teoria econômica. Para esta, o comportamento pode ser explicado como uma série de escolhas racionais, consistentes com preferências estáveis e bem definidas.

Mas as repetidas versões do experimento mostram que quem recebe tende a recusar ofertas inferiores a 25% do total em jogo. Assim, a pessoa prefere não ganhar nada a ganhar pouco. Olhando por um outro ângulo, ela paga para se vingar de alguém que foi ganancioso – algo que a economia não comporta. Não aceitar R$ 1,00 (ou R$ 0,01) é, portanto, irracional.

Até aí, nenhuma novidade. Há milhares de estudos e variações do Jogo do Ultimato, mostrando resultados muito semelhantes entre gêneros, culturas e nacionalidades. No ótimo The Predictioneer’s Game, Bruce Bueno de Mesquita sugere, contudo, uma nova abordagem ao próprio conceito de racionalidade.

Para ele, todas as atitudes das pessoas mentalmente saudáveis são racionais. Mas quando suas decisões violam o que pareceria normal para nós – ou para a sociedade em geral – dizemos que é algo irracional.

Um homem-bomba tem suas razões para se explodir junto com um bocado de inocentes (ele acredita que terá 72 virgens esperando por ele no Céu), assim como a Madre Teresa de Calcutá tinha um objetivo quando rezava (ela acreditava que assim também iria para o Céu…………).

Mesmo que não entendamos suas motivações, elas estão baseadas em propósitos claros e, por isso, são racionais. O simples fato de não entendermos ou não concordarmos com tais motivações não as invalida. Assim, o problema está em conhecer o conjunto de preferências individuais sobre quais as escolhas são feitas. Não cabe aqui questioná-las, somente entendê-las.

Por isso, da próxima vez que você tentar classificar a decisão de alguém como irracional, deixe de preguiça e imagine qual teriam sido as razões reais por trás de tal escolha. Certamente existe alguma!

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* Werner Güth, Rolf Schmittberger e Bernd Schwarze: An Experimental Analysis of Ultimatum Bargaining, Journal of Economic Behavior and Organization, 3:4 (Dezembro, 1982), 367-388.

O fato de os dois objetivos serem iguais foi mera coincidência.

11 pensamentos em “A razão da irracionalidade”

  1. Sensacional, Rodolfo.
    Pena que a maioria das as pessoas, inclusive eu, não aceita muito bem a posição ou ação do outro.O que chamamos de irracional. Independentemente da origem. Seja cultural, religiosa ou econômica.
    Espero ler mais textos seus sobre o assunto e quem saber entender melhor do assunto.
    Você é o cara!
    Abs

  2. Isso é uma das bases pela qual eu simplesmente não acredito na palavra altruísmo.
    Se uma freira ajuda pessoas, dedica a sua vida à religião e abdica dos prazeres carnais, não vejo isso como um ato de altruísmo, mas um ato consciente e com propósito claro: chegar ao fim da vida na certeza de que continuará habitando no “Reino dos Céus”.
    Ou o sujeito que ajuda animais de rua. Ele está se dedicando a algo que, aparentemente, não o beneficia diretamente, mas a recompensa é o prazer de se sentir ajudando ou se sentindo útil a outra vida (mesmo que não seja humana).
    E, sim, se o sujeito me desse R$ 1,00 eu “pagaria” pra ele não receber nada. =P

  3. Mais um excelente post, xará. Sugiro somente explicar no jogo do ultimato que quando o segundo não aceita, nenhum dos dois recebe. Quem não conhece o jogo pode não entender porque você fala de “vingança”.
    Grande abraço

  4. Grande Rodolfo. Não fiquei confortável com o seu texto, rs.
    Pessoas que não são mentalmente saudáveis também podem tomar decisões baseadas em propósitos claros. Sempre aprendi e pensei que a partir do momento em que eu tomo uma decisão baseado em ‘propósitos claros’ mas que o seu resultado não pode ser mensurado ou muito pouco provável, tomei uma decisão irracional, meramente emocional. Como acontece com jogos de azar…
    É, preciso digerir melhor seu último texto.
    Grande abraço.

  5. Olá Rodrigo, obrigado pelo comentário!
    Somente as pessoas que não são mentalmente saudáveis tomam decisões irracionais, mas isso não quer dizer que as pessoas que não são mentalmente saudáveis só tomem decisões irracionais. Percebeu a diferença?
    Sobre a confusão entre decisão racional ou emocional a explicação de Bueno de Mesquita é simples: você racionalmente optou pela decisão emocional. Ou seja, mesmo sabendo que você não tem muita chance num jogo de roleta, você deliberadamente escolhe apostar.
    Faz sentido?

  6. Grande Rodolfo! É muito interessante ver a ciência mostrando coisas que a gente pode concluir filosofando (vide link no meu nome – post escrito em 2008), com a grande diferença que eu ou qualquer um pode filosofar sobre qualquer coisa, e isso não dá nenhuma validade a essas conclusões, diferente do método científico, onde o método pode (e costuma) validá-las.
    Concordo quase integralmente com o texto, só tenho algumas ressalvas sobre as terminologias utilizadas pelo Mesquita, mas talvez isso mude se eu tomar vergonha na cara, comprar e ler o livro. A questão é até que ponto temos controle racional sobre nossos atos, mesmo nós, os “mentalmente sadios”? Uma coisa é ter consciência do que fazemos, até ter consciência da possíveis conseqüências, mas muitas vezes o lado irracional fala bem mais alto do que o racional. Aí eu questiono: quão racional é uma decisão tomada em situãções de emoções extremas ou mesmo muito fortes? Continuo preferindo o termo que escolhi – “interesse” -a “razão”, mas como disse, talvez isso mude quando eu ler o livro.
    Gostei muito do texto. Em breve irei linká-lo numa de minhas próximas “filosofadas”. Pena que seja difícil convencer as pessoas dessas idéias. Esse tipo de consciência pode trazer muito benefício ao ser humano… ou pelo menos a mim trouxe quando me toquei disso.
    Abraços!

  7. Jeferson, recentemente falei sobre “vingança” no post sobre o novo livro do Dan Ariely. Quer coisa mais irracional/emocional do que vingança? Você gasta tempo e dinheiro e muitas vezes se arrisca para satisfazer esse desejo. Mas essa decisão e todo o seu planejamento não são atos nitidamente racionais?
    E isso de filosofar sobre qualquer coisa e sair escrevendo livros sem nenhum embasamento científico se chama “auto-ajuda”.
    Abraço, Rodolfo.

  8. Que isso, rapaz! Não fale como se fosse um xiita. Sei que você sabe que não existiria ciência, história ou direito (não como os conhecemos) sem a filosofia, e como você bem sabe, os filósofos, inclusive Descartes, não usam o método científico (inclusive o método cartesiano já é obsoleto comparado à metodologia científica moderna). Espero não estar incluso nessa sua listinha negra de autores, até porque não ganho um centavo por escrever meus devaneios não tão devaneantes assim. 😉
    Eu concordo que seja possível encontrar motivos racionalmente compreensíveis pra tudo o que fazemos e o que os outros fazem, mas um exemplo básico de vingança em escala menor do que estamos acostumados já balança um pouco essa idéia. Normalmente quando uma briga começa, quem leva o primeiro golpe não para, pensa, planeja, pondera as possíveis conseqüências e depois resolve revidar ou não. Ele simplesmente se deixa levar pela raiva e revida, ou pelo medo e não reage. Isso também é racional? Então talvez eu esteja precisando repensar meus conceitos de “razão” e “racionalidade”.
    Abraços.

  9. Hoje estava conversando com o dono de um restaurante. Um chinês. Ele explicava como foi um péssimo aluno de matemática. A média nos colégios da China era de 6,0 e ele ficava com 5,8. O professor dava uma força e passava o sujeito.
    Ele, deu um exemplo de um teste que lhe fizeram:
    Se um ovo cozinha em 3 minutos, quanto tempo levam 10 anos para cozinhar? E 100 ovos?
    Ele respondeu o lógico, se um ovo leva 3 minutos, 100 ou 1000 também levariam 3 minutos. Essa era a resposta certa para o professor.
    Como ele veio a ser dono de restaurante, viu que sua resposta quando criança estava errada, e ele respondeu errado para agradar (e receber a nota) o professor.

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