Acabou o Karatê Kid

Espero que você tenha gostado do remake de Karatê Kid, porque você nunca mais verá um filme como este. Nem tanto pela qualidade da obra, mas porque sua trama corre o risco de ficar totalmente inverossímil.

Além de confirmar o talento precoce de Jaden Smith, a obra revelou um Jackie Chan ator – e não só o ótimo malabarista de sempre. A cena do treino nas sombras com as varetas guia, por sinal, é forte candidata à mais emocionante do ano.

- Pegue o casaco, pendure o casaco, pegue o casaco... - Cansei! Vou ligar para a Embaixada. E pro Chuck Norris também!
– Pegue o casaco, pendure o casaco, pegue o casaco…
– Cansei! Vou ligar para a Embaixada. E pro Chuck Norris também!

Talvez chamasse a polícia e conseguisse um mandato de restrição de aproximação – ou sei lá o nome que se dá a isso.Mas hoje percebo que o filme foi rodado na China por motivos além do enredo: a estória jamais seria possível nos EUA. Fosse em solo americano, o franzino Dre Parker iria à direção da escola e denunciaria Cheng por bullying.

Por ser negro, ainda acusaria o oriental de racismo e conseguiria para ele uma passagem só de ida (ou só de volta?) para a China.

Dre teria o respaldo, apoio e aplauso do seu presidente que, na semana passada, reforçou a cruzada americana anti bullying. Obama incentivou as crianças a denunciar seus coleguinhas agressores a “uma pessoa de confiança”.

O país dos excessos jurídicos abre mais um perigoso precedente para estragar de vez suas futuras gerações. Por mais cruel e pernicioso que seja o bullying, a criança precisa aprender a se defender sozinha em seus ambientes coletivos. Desde pequena, deve cultivar anticorpos sociais para passar à vida adulta. Escapar – e defender-se, até – dos assépticos conceitos politicamente corretos. Se de cara ela já apela para uma lei, vira a mariquinha intocável da escola.

Quando era criança, tive minha (pequena) cota de bater e apanhar. Os tapas que dei provavelmente me ensinaram mais do que os que levei. Mas não trocaria nenhum deles por levar uma bronca do Diretor da Escola ou dedurar um valentão que me perseguisse.

Brigar na escola é preciso. Você não precisa sair no tapa, mas tem que saber se defender na hora certa e ser agressivo quando necessário. Sem estes conflitos naturais, termos gerações covardes que vão sempre voltar correndo para casa, choramingando, para ir com a mãe na delegacia.

De qualquer forma, temos um país que proíbe as crianças de brigar – trazendo as leis adultas para o mundo infantil – quando deveria mostrar para elas que não se deve brigar. Que as diferenças são inevitáveis, mas os conflitos podem ser contornados ou amenizados.

É realmente um país esquizofrênico. As crianças não podem brigar na escola, mas seus pais podem ter arsenais em casa. Armas automáticas, quilos de munição e calibres próprios para safaris. Os meninos não podem se estapear, mas todas as condições para promoverem massacres estão disponíveis. Talvez eles devessem brigar mais e atirar menos.

Além de continuações de Karatê Kid, estão condenados os remakes de Cuidado com o meu guarda costas (1980), A vingança dos Nerds (1984), De volta para o futuro (1985), Te pego lá fora (1987), Garotos não choram (1999), Legalmente loira (2001), Meninas malvadas (2004), além de um dos meus seriados favoritos: Todo mundo odeia o Chris (2005-9). Você se lembra de mais algum?

Aliás, todos os filmes americanos com adolescentes em escolas ou universidades estão condenados. O cinema lá agora vai viver só de Marvel – que aliás dá porrada em todo mundo…

9 pensamentos em “Acabou o Karatê Kid”

  1. Três comentários breves:
    1- Belo “leiaute” (não acredito ainda que essa palavra existe no dicionário)!
    2- Google Reader! \o/
    3- Anticorpos sociais – termo excelente! Muito pertinente!
    4- Abraços! (eu sei, eram 3)

  2. os americanos pecam pelo excesso, não só na comida…
    essa cruzada anti-bullying só iniciou por causa dos massacres estudantis, geralmente quem sofria bullying acabava fazendo alguma merda grande na escola – quer dizer, o método antigo, de cada um por si, não funcionava, os maltratados não revidavam, acumulavam raiva e descontavam em inocentes (duvido que os bullers estejam em qq estatítica de vítimas desses massacres) da maneira que aprenderam ao crescer: com armas
    ao invés de fazer algo para que os bullers se concientizassem resolveram ir pro outro lado, quem sofre bullying tem que denunciar…
    quanto ao fato das armas facilmente disponíveis isso nem se discute…
    aqui eu já acho que não ocorre, quem sofre bullying é o professor haha os alunos que mandam em certas salas desses país

  3. Me lembrou a historia recente de uma mãe em uma cidade do interior de SP. A filha de 14 anos não ficava no colégio, saia para beber e usar drogas. A mãe procurou ajuda ao conselho tutelar. Com sua sabedoria o conselho tutelas OBRIGOU a mãe a assistir as aulas com a filha, e para isso a mulher deve que abandonar o emprego. Diante das cameras a menina falou algo como: -Eu sei que faço errado, não tenho jeito mesmo.
    Agora a pouco rolou uma conversa aqui na empresa com alguns funcionários preocupados com um conhecido deles que é viciado em drogas. O sujeito sumiu por 24 horas, e os pais estavam preocupados. Ele voltou depois de vender as rodas do carro. Já tem pratica nisso… E acredite, os sujeitos aqui, bateriam em mim se eu sugerisse uma boa surra nesse bandido.
    Conheço vários adolescentes que agem como essa garota e esse viciado, os pais tem sempre o mesmo perfil, apáticos, e preocupados com suas horas de trabalho e contas a pagar.
    Nada disso me preocuparia, se o volume não crescesse exponencialmente.
    Que saudade dos tempos que trocava porrada na escola. Acho até que apanhei mais que bati, mas nunca pensei em matar alguém ou contar aos meus pais.

  4. Este artigo me faz lembrar quando tive um gerente covarde escondido atrás das políticas da empresa e em seu cargo com relação ao tratamento dos seus funcionários.
    Até que um dia, eu “levantei” a voz com ele e disse que a hierarquia e as regras eram outras fora da empresa. Deixando a entender que se ele agisse comigo desse modo fora da empresa levaria ma surra que não esqueceria pro resto da vida dele.
    Resultado: Passou a me respeitar

  5. Só agora li esse post. Muito bom. Na escola você não imagina o quanto escuto a palavra “bullyïng”. É mais um modismo do politicamente correto. Concordo que existam atitudes realmente agressivas e que necessitam intervenção, mas no geral as famílias agem exatamente como você descreveu. Já tem mãe acusando professor de fazer “bullying” com o filho. Não tá fácil não.

  6. Excelente.
    Você e sua ótica sempre diferenciada. ANIMAL.
    Tinha aquela sessão da tarde “Cuidado com meu guarda costas” em que um garoto contrata um fortão pra defendê-lo no colégio.
    É bem o cenário que você narra acima.
    A criança tem que saber se defender.
    Abração.

  7. As crianças não precisam apanhar nem bater. Elas precisas se educadas e receberem orientações suficientes para saber o que fazem. Depois de uma certa idade e de uma boa dose de educação ninguém mais vira bandido, vagabundo ou drogado. Acredito que os problemas dessas “mariquinhas” e dos “covardes” sejam pais omissos, mãe atrás de status, maridos atrás de amantes. Os filhos são o que conseguiram para darem uma satistação à sociedade.
    Uma vida de “faz-de-conta” onde ninguém é verdadeiramente ningém.

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