Convivendo no Limite

6a00e554b11a2e88330133f5977df6970b-200wi Estou terminando de ler Leading at the Edge : Leadership Lessons from the Extraordinary Saga of Shackleton’s Antarctic Expedition, uma magnífica análise da épica jornada de Sir Ernest Shackleton à Antártida, onde ele e sua tripulação ficaram perdidos por quase dois anos.

Dennis Perkins, o autor, extrai da aventura algumas lições de Liderança e faz sua transposição para o ambiente corporativo, misturando narrativas empolgantes, dramáticas, emocionantes.

Uma delas, em especial, fez-me parar um pouco para escrever este texto. No capítulo destinado aos Valores Centrais da Equipe (Core Team Values), Perkins ressalta a importância de se tratar todos de forma igual, independentemente da hierarquia que ocupem – o que Shackleton levava ao pé da letra.

Não que a hierarquia por si só seja algo ruim ou que diferenças entre cargos e salários não tenham que existir. Ela apenas não deve criar uma estratificação dentro do grupo, gerando uma perversa sensação de superioridade/inferioridade.

Um dos mecanismos para atingir tal equilíbrio, continua o autor, é estimular a camaradagem entre os membros da equipe, de forma que os eventuais problemas – inevitáveis, aliás – não tornassem o ambiente insuportavelmente pesado.

Dentro deste contexto, vem a passagem que traduzo livremente a seguir:

“Sob essas desesperadoras condições, e após uma noite sem dormir e com todos encharcados, surgiu uma discussão entre Worsley, Macklin, Orde-Lees e Robert Clark, o biólogo. Pego no meio dela, Greenstreet derramou sua pequena ração de leite quente e gritou com Clark. Foi um momento trágico1. Em seu livro sobre a expedição do Endurance, o autor Alfred Lansing descreve a cena:

6a00e554b11a2e88330133f5979814970b-800wi‘Greenstreet parou para recobrar o fôlego e naquele instante sua raiva passou e ele repentinamente ficou em silêncio. Todos na tenda ficaram quietos, também, olhando para Greenstreet, com seus cabelos desgrenhados, barba por fazer, e sujo com fuligem de gordura de foca2, segurando nas mãos a caneca vazia e olhando desamparado para baixo, onde a neve sedenta absorvera o seu precioso leite. A perda fora tão trágica que ele parecia ao ponto de cair no choro. Sem dizer nada, Clark segurou a caneca de Greenstreet e derramou um pouco do seu leite nela. Depois foi Worsley, depois Macklin, Rickerson e Kerr, Orde-Lees e, finalmente, Blackborow. Eles terminaram em silêncio’.”

O evento, emblemático por si só, mostra que mesmo no limite, ainda que em condições sub-humanas, é preciso conservar o senso de camaradagem e cordialidade para que todos possam atingir o objetivo em comum: a sobrevivência.

Ainda que o dia-a-dia da maioria de nós não reserve momentos tão dramáticos, a lição que fica é que os problemas devem ser isolados e tratados dentro do seu próprio contexto. Fora dele, devemos zelar pelo bem-estar de todos – mesmo que isso signifique pequenos sacrifícios individuais.

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1. Não é necessário lembrar o tipo de privação pelas quais eles passaram, especialmente no que se refere à comida.

2. A gordura de foca era a fonte de energia usada por eles, para abastecer os fogões e aquecedores.

 

 

1 pensamento em “Convivendo no Limite”

  1. Sou fã de Shacketon, como sabe, e já estou ansiosa para ler esse livro, embora a humanidade e universalidade da história me interessem mais do que eventuais lições corporativas.
    Gostei muito do seu texto, acho que escolheu uma passagem especial. Acho que muitas relações, não só no trabalho, se deterioram exatamente por isso: por deixar que os problemas extrapolem o seu contexto.
    Aproveito para repetir que adorei o novo layout.
    Beijo

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