Entrevista com Nicholas Carr

FOTO: Cláudio Rossi
FOTO: Cláudio Rossi

No último dia 1o tive a oportunidade de encontrar Nicholas Carr, por ocasião de um evento em São Paulo onde ele foi o keynote speaker. Apesar do seu jeitão introspectivo, Carr respondia bem às previsíveis provocações deste que vos escreve, tornando a entrevista uma agradabilíssima conversa sobre tecnologia, inovação, raciocínio e – por que não? – filosofia.

Agradeço a todos os que me enviaram perguntas (espero que consigam identificá-las no meio do texto) e, antecipadamente, aos que lerão até o final. Um obrigado, também, ao pessoal da INFO Exame, que me proporcionou o encontro e, especialmente, à Amanda Salim, da parceira Você S/A, que uniu todas as pontas e me colocou na cara do gol.

– Em seu novo livro, Nassim Taleb usa o mito grego da Cama de Procusto* para descrever algumas aberrações corporativas do mundo moderno. Você acha que a indústria de TI funciona assim?

6a00e554b11a2e88330148c6864110970c-120wi Acho que em alguns casos sim. O que é estranho nas empresas de TI é que elas usam uma abordagem oposta, tentando customizar tudo, de forma a poderem cobrar mais por isso. Então é o problema oposto, vendendo uma solução única para cada companhia, em vez de perceber que muita coisa pode ser padronizada. Talvez o mais correto seja dizer que eles fazem uma cama específica para cada cliente, em vez de fazer um padrão que seja mais barato para todos.

– Seu livro Does IT Matter? (A Tecnologia de Informação faz diferença?) provocou reações furiosas da comunidade de TI. Isso já passou ou ainda dói? As empresas de TI conseguiram ver o lado positivo da crítica e reinventar seus negócios, como você previu ou sugeriu?

Não acho que ainda doa. A reação mais significativa veio de empresas de TI e não de CIOs. E se você notar o que houve desde então, muitos dos temas aos quais me referi no livro tornaram-se realidades. As empresas de TI já assumiram hardware e os softwares mais básicos como commodities e agora estão se redirecionando para serviços mais específicos. Desde 2004, quando o livro foi lançado, muitas empresas de TI passaram a se comportar da forma como eu previra.

6a00e554b11a2e88330147e07d2177970b-120wi Foi muito difícil para empresas que vendiam produtos com margens elevadas perceber que o que comercializavam havia sido padronizado. Mas isso é o que acontece com tecnologia: as coisas se tornam genéricas e você precisa descobrir novas maneiras de fazer dinheiro. Como, por exemplo, acrescentar uma nova camada de serviços personalizados àquilo que já foi padronizado. SalesForce e os serviços de infra-estrutura de TI da Amazon são bons exemplos disso.

– Você acha que eles tinham noção da forma como tratavam o mercado? Acha que ainda estariam fazendo tudo da mesma forma se alguém não tivesse chamado a atenção para isso?

Eles teriam que mudar, não porque eu ou qualquer outra pessoa disse que era preciso, mas porque seus clientes já estavam começando a mudar. Eles passaram a pensar: “Eu não preciso do melhor computador do mundo, mas de algo que faça o serviço de que preciso”.

– Em The Shallows você sugere que novas tecnologias estão mudando a nossa forma de pensar. Ao mesmo tempo, autores da Economia Comportamental detectaram mudanças nos padrões de motivação das pessoas. Você acha que essas duas tendências podem estar relacionadas de alguma forma?

Acho que sim, deve haver uma relação. Quando a nossa atenção é despedaçada fica mais difícil encontrar maneiras efetivas de oferecer um elemento motivacional, encorajar o pensamento criativo. E se você não consegue se focar em algo, não consegue se motivar. Então deve haver uma relação sim.

– O neurologista americano Gregory Berns afirmou que os iconoclastas têm cérebros diferentes do restante das pessoas, em vários aspectos. A transformação pela qual passamos, descrita em The Shallows, significa que teremos pessoas menos criativas, menos inovadoras, menos espontâneas, menos humanas?

Vamos nos tornar pensadores menos iconoclastas. Obviamente há diferentes maneiras de ser inovador e criativo. Mas o que diferencia um pensador iconoclasta é que ele desafia o status quo, eles desafiam a sabedoria tradicional.

6a00e554b11a2e88330147e07d27dc970b-120wi As evidências científicas sugerem que se você é multitask o tempo todo, mudando o foco da sua atenção frequentemente, você tende a não questionar a sabedoria tradicional. Você pode ser criativo, mas não estará pensando em maneiras completamente novas de fazer as coisas. Você está andando por caminhos já traçados.

Para ser realmente um iconoclasta, para realmente desafiar o status quo, você precisa ser capaz de focar, prestar atenção máxima em apenas uma coisa e filtrar todas as interferências. Então eu realmente me preocupo porque se as pessoas são interrompidas e distraídas o tempo todo, então nós veremos menos destes pensamentos revolucionários.

– Você acha que a perda da atenção afeta mais as novas gerações?

Algumas pessoas traçam esta linha entre os nascidos na tecnologia e os que imigraram para dentro dela e, por isso, os efeitos seriam diferentes. Eu acho que os efeitos são muito similares, não importa a idade. Dito isso, é claro que o cérebro humano é mais adaptável e maleável quando somos mais novos, então quando as crianças começam a usar celulares e computadores os efeitos podem ser maiores. Mas em geral os efeitos básicos da distração e falta de atenção permeiam todas as idades.

– O ex-campeão mundial de xadrez Gary Kasparov disse recentemente que em breve será impossível derrotar os jogadores mais jovens. Isso não seria um contrassenso, considerando que os mais jovens já nascem num ambiente desenhado para distrair?

Como eu disse, não acho que seja um problema específico de uma geração. Mas para ser um jogador excepcional de Xadrez, você precisa de uma combinação de habilidades muito específicas. Então não acho que seja um bom indicador para tendências mais gerais. São pontos fora da curva.

– Que tipo de conselho você daria a pais cujos filhos estão começando a ter contato com as novas tecnologias?

6a00e554b11a2e88330147e07d329f970b-320wi Particularmente para crianças pequenas, eu poria restrições no tempo que eles podem passar usando computadores e seria muito cuidadoso em dar um telefone celular para uma criança pequena. Há uma explosão no uso de SMS por crianças nos EUA e creio que essa distração perpétua pode ser prejudicial ao desenvolvimento da concentração de uma criança. Então acho que o caminho é por restrições no acesso a essas tecnologias.

– Existe alguma regra para determinar uma divisão ótima entre o tempo que se gasta lendo livros ou consumindo outras mídias?

Não acho que haja uma regra específica. Deve haver apenas o equilíbrio. Não há nada errado em fazer várias coisas ao mesmo tempo, usar SMS ou navegar na Internet. Isso só começa a se tornar um problema quando se deixa o resto todo de lado. A pessoa não disponibiliza nenhum tempo para se concentrar na leitura, conversar sem ser interrompido. O importante é manter o equilíbrio e ter certeza de exercitar o lado mais contemplativo do seu cérebro. Porque se você não exercitar isso, você simplesmente perderá estas habilidades.

– Quando escrevi uma resenha sobre The Shallows, muitas das pessoas que comentaram negaram que tivessem alguma perda de concentração por causa da Internet. Este tipo de negação é comum?

Sim, como você pode imaginar há reações de todos os tipos. Há os que me agradecem dizendo “obrigado pela descrição no livro, porque eu também me sinto assim” e também há os que dizem “isso é exagero, não acontece comigo”.

– Se você alertou os outros sobre o problema, quem te alertou?

Bom, isso faz uns dois anos. Eu já usava a Internet e computadores pessoais há um bom tempo e percebi que estava tendo problemas em me concentrar. Quando eu sentava para ler um livro percebia que a minha mente queria funcionar da mesma maneira que faz quando estou online.

6a00e554b11a2e88330148c6866a8c970c-300wi Meu cérebro não queria pensar de uma forma linear e concentrada. Ele queria saltar entre pequenos pedações de informação, checar emails ou outras fontes de mensagens. Isso foi o clique para o livro, então comecei a fazer pesquisas sobre neuroplasticidade e os efeitos da tecnologia.

– Mas como você conseguiu se concentrar, então, para escrever um livro?

Eu não precisei me isolar completamente. Continuei a usar a Internet para pesquisas básicas, mas reduzi a minha dependência da Internet. Eu cancelei minhas contas do Facebook e do Twitter, não usava o celular quando estava em casa e não acessava email enquanto escrevia.

Eu continuo a usar a Internet no que ela é boa – que é encontrar informações importantes, coisas que possam ser úteis para aquilo em que estou trabalhando. Mas normalmente gosto de imprimir os artigos para ler em lugares mais calmos. E não demorou muito até eu perceber que a minha atenção havia voltado ao normal.

– Você costuma conversar sobre o tema com seus amigos e familiares que não leram o livro?

Isso já está se tornando uma preocupação comum às pessoas, que sentem que perdem o controle sobre suas mentes. Percebem que a tecnologia exerce um controle muito grande sobre suas vidas. Já vejo gente que desliga sua conexão com a Internet nos fins de semana.

– No livro você diz que as empresas de Internet dividem a nossa atenção para que possam colocar mais coisas dentro dela. É a velha máxima militar de “dividir para conquistar”?

Não acho que isso seja consciente. Mas se você olhar empresas como Google e Facebook, eles têm vantagens econômicas no despedaçamento da nossa atenção e em nossa mania de ser multitask. Deste modo eles têm mais oportunidades de exibir anúncios, coletar informações e saber mais sobre nós. Acho que muitas das companhias de Internet têm interesse econômico em nos manter distraídos e nos bombardear com pequenos pedaços de informações. Então acho que devemos ser mais conscientes destas influências sobre o funcionamento da nossa mente.

– Décadas atrás, quando concebeu-se o hipertexto, ele foi celebrado como uma ótima ferramenta para melhorar o aprendizado. Só que hoje as evidências mostram que isso não aconteceu realmente. O que deu errado?

O hipertexto nos proporcionou uma forma de navegar entre pequenos pedaços de informação interconectados – e foi isso que deixou os educadores empolgados. Estudantes seriam capazes de rapidamente comparar diferentes pontos-de-vista e assim por diante.

Mas o que eles não perceberam foi que os hyperlinks constantemente interrompem a nossa atenção. O resultado disso é que se você não consegue se concentrar, você não consegue apreender o que acabou de ler. A forma como você capta a informação é crucial para determinar o quanto dela você consegue lembrar ou entender e o quanto você aprende. Esse tipo de ruptura da atenção que o hipertexto causa foi um tiro pela culatra, que piorou a nossa habilidade em aprender.

6a00e554b11a2e88330148c6866c6b970c-320wi O seu cérebro precisa parar, mesmo que por um breve instante, para decidir se clica naquele link ou não. “Este link é importante ou não? Como isso se relaciona com o que estou lendo?”

Mesmo sem considerar se você clicou ou não, o hyperlink tem uma característica que leva a desatenção. O processo decisório de clicar ou não interfere com a interpretação e entendimento daquilo que você está lendo.

– Como as escolas podem contornar o problema da falta de atenção das crianças e o desinteresse pelas aulas?

Penso que as escolas precisam ser mais céticas com relação à tecnologia em geral – e os pais também. Isso não é o mesmo que dizer que os computadores não têm o seu papel na educação, eu acho que eles têm. As escolas precisam entender que há meios de usar o cérebro que não devem ser intermediados pela tecnologia. Os livros impressos têm o seu papel. As palestras e as conversas também têm os seus papéis. Recentemente temos pensado nas escolas em termos de tecnologias e isso é perigoso.

– Esses revéses da tecnologia não poderiam ter sido antecipados antes de começarmos a usá-las?

Quando chega uma nova tecnologia, as pessoas focam nos benefícios práticos imediatos. Poder conversar com três pessoas ao mesmo tempo e encontrar as informações necessárias de forma rápida, foram benefícios que encantaram e levaram a ignorar qualquer consideração com relação aos seus malefícios. Levou algum tempo para que as pessoas começassem a questionar as consequências da tecnologia. Então é possível que tivesse sido capaz de antecipar estes problemas, mas ninguém prestaria atenção aos alertas.

– Você acha que nós, escritores, estamos fadados à extinção?

Acho que não. Porque o valor de ler e extrair informação de um texto escrito é tão grande que não acabará. O que acontece é que a forma como escrevemos muda. Nós assumimos que o leitor não presta atenção, então você muda em direção a ideias mais simples, você quebra as coisas, simplifica os argumentos. O modo como escrevemos mudará. Não acho que as pessoas vão parar de escrever ou de ler.

– Você acha justo comparar a ânsia em estar conectado com o vício em drogas?

Não gosto de rotular essas coisas como vício, porque são bem diferentes. Por outro lado, já ficou bem claro que os seres humanos adoram ter novas informações. Pelos nossos hábitos pessoais e vendo como as pessoas agem, você pode dizer que há algo de impulsividade no uso da tecnologia e uma dificuldade em parar de buscar novas informações.

Não conseguimos parar e pensar sobre o que já encontramos e somos tomados por esse desejo de continuar vendo o que está acontecendo, clicando e lendo emails. Então há um lado viciante no uso de compoutadores e telefones.

– Alguma recomendação final para os que foram capturados pela Rede – além de ler o seu livro?

6a00e554b11a2e88330148c6866d4b970c-320wi O importante é ser consciente sobre a forma como você usa a tecnologia e como ela influencia o seu pensamento. Se você tiver consciência disto, então estará numa posição de fazer escolhas mais razoáveis de forma a se disciplinar melhor. Se você usar a tecnologia de forma inconsciente, então terá problemas.

– Sua palestra será sobre a nova tendência de cloud computing e como isso pode ajudar a resolver problemas antes intratáveis. Além do poder somado de tantos computadores, há mais pesquisadores pensando juntos. Você acha que quanto mais força bruta, mais os pesquisadores precisam se esforçar ou é o contrário?

Acho que quanto mais poderosos os computadores, maior o risco de acharmos que eles são inteligentes. Vão confiar nos computadores para resolver problemas e acho que isso é perigoso. Quando falamos em mastigar números e este tipo de pesquisa, haverá uma explosão de inovações com este enorme poder de processamento tão barato e disponível.

Mas há outros casos onde apenas os seres humanos conseguem pensar em novas possibilidades, enquanto que os computadores só farão aquilo que foram programados para fazer. Então precisamos lembrar que quando se trata de grandes ideias, de descobrir os problemas nos quais os computadores podem ser aproveitados, isto ainda depende de pessoas inteligentes. Pessoas que consigam prestar atenção.

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* Procusto fazia com que seus hóspedes ficassem do exato tamanho da sua cama, seja esticando-os ou cortando suas pernas. Veja aqui o texto que escrevi sobre o livro de Taleb.

9 pensamentos em “Entrevista com Nicholas Carr”

  1. Rodolfo,
    Parabéns, você é um ótimo entrevistador, perguntas inteligentes, pertinentes e com uma sequência interessante de ler.
    Eu, particularmente, fiquei feliz em encontrar respaldo em Nicholas Carr, reduzo e adio o contato de minha filha de seis anos com a tecnologia, mas eu tinha dúvidas sobre essa ser ou não a melhor solução. Sua entrevista me deu a confiança de que estou no caminho certo. Primeiro os livros, depois o computador. Celular, o mais tarde possível.
    Obrigada, mais uma vez refleti, aprendi e também me diverti com seu texto!
    Beijo

  2. Parabéns Rodolfo,
    Muito boa a entrevista.
    Não li a resenha do livro, mas agora vou faze-lo.
    E é algo muito grave, o fato de não podermos nos concentrar.
    Estou lendo o livro 4-hour week. E o autor, tim ferriss, sugere uma dieta informacional. É o que estou fazendo agora, estou evitando qualquer fonte de noticias, e informações irrelevantes, e focando naquilo que pode me engrandecer e ajudar.
    O email é outro time waster que eu não consigo evitar, mas a luta é grande.
    Mais um vez, parabens pela entrevista, e que venham mais!

  3. Salve grande Rodolfo!
    Parabéns pela entrevista meu caro. Compartilhar idéias de um autor e poder fazer isso pessoalmente deve ser uma experiência bem bacana, ainda mais um contra-corrente como o Carr.
    Muito boa a entrevista, obrigado por compartilhar!
    []’,
    @RafaelROliveira

  4. Segui o conselho dele antes de ler esse texto 🙂
    Fechei a conta no Facebook, e deixei jogado o Orkut.
    Mesmo assim, ainda existe muita dispersão a minha frente.
    O que perdi de tempo essa semana tentando expressar minha opinião sobre o Wikileaks… tudo tempo perdido.
    As pessoas graças a internet pensam muito rápido, respondem tudo muito rápido, e formam uma opinião muito rápido.
    Talvez ai esteja parte da culpa do resultado da prova da OAB, 89% de reprovados. (Aposto 100:1 que 90% desses usam Twitter, Orkut, Facebook, etc)

  5. Livros de 2010 – parte I

    Depois da Retrospectiva 2010, lembrando os textos que mais gostei de escrever neste ano, senti-me um pouco forçado a comentar sobre o que mais gostei de ler. A leitora haverá de notar que, mesmo para os meus padrões, 2010 foi…

  6. The bed of Procrustes – Nicholas Nassim Taleb

    A primeira conclusão a que cheguei ao terminar The Bed of Procrustes: Philosophical and Practical Aphorisms (Random House, 2010) é que Nicholas Nassim Taleb perdeu o resto de fé que tinha na humanidade. Três anos após o clássico The Black…

  7. The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains? – Nicholas Carr

    Desde seu provocativo ensaio Is Google Making Us Stupid?, Nicholas Carr vem discutindo a forma como a Internet e sua ubiquidade vêm transformando não só a maneira como vemos o mundo, mas também nossos relacionamentos e, em última instância, nossos cére…

  8. ha sempre tres atitudes em face da tecnologia informaciona – a euforica, a ceptica e a crítica. o que me parece é que é sempre o utilizador, e a sua literacia informacional, que faz a diferença….
    não se se a posicao de carr propoendera para este ponto de vista pois nao conheco seu pensamento ….

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