Livros de 2010 – parte I

Depois da Retrospectiva 2010, lembrando os textos que mais gostei de escrever neste ano, senti-me um pouco forçado a comentar sobre o que mais gostei de ler.

A leitora haverá de notar que, mesmo para os meus padrões, 2010 foi um ano atípico pela quantidade. Do lado de cá, no entanto, diria que foi ainda mais atípico pela qualidade. Como li coisas boas neste ano! Não foram raros os momentos em que terminava um livro com um sentimento de pesar, por virar a última de uma sequência de ótimas páginas.

Assim como na revisão dos textos, achei por bem dividir os livros em tópicos, mesmo que eu jamais tenha pensado em qualquer classificação enquanto os lia, tampouco no momento de comprá-los.

Como o texto vai ficar longo, recomendo que você dê uma passada de olhos e pare nos títulos ou assuntos que mais lhe interessem.

BIOGRAFIAS

6a00e554b11a2e88330147e118e087970b-150wi Depois de conhecer os perturbadores estudos de Stanley Milgram – onde ele avaliava o poder da autoridade sobre um indivíduo – busquei mais informações sobre a pessoa por trás do cientista (no bom sentido, claro). The Man Who Shocked The World: The Life and Legacy of Stanley Milgram (Basic Books, 2009) é um relato primoroso sobre o peso que representa escancarar ao mundo uma face do ser humano que ele próprio preferia não conhecer.

Mas Thomas Blass faz ainda mais e nos conta um pouco sobre vários outros trabalhos de Milgram, revelando um pesquisador inquieto, criativo e extremamente ousado para o seu tempo. Leitura fácil se você gosta de Psicologia.

6a00e554b11a2e88330147e1197547970b-150wiEndurance: Shackleton’s Incredible Voyage (Carroll & Graf, 1999) não é exatamente uma biografia, mas um relato sobre uma das mais incríveis aventuras de todos os tempos: os dois anos em que Sir Ernest Shackleton e seus 27 companheiros vagaram pela Antártida, no início do século passado, depois de uma fracassada tentativa de atravessar o contiente a pé.

A narrativa de Alfred Lansing foi escrita na década de 1950, a partir dos diários originais dos tripulantes, além de diversas entrevistas com os próprios e, por isso, serve como base para a maior parte do que se escreve sobre a viagem. Mais abaixo você ainda verá um pouco mais sobre este tema…

CIÊNCIAS

6a00e554b11a2e88330147e11900f1970b-150wi O primeiro livro desta categoria é a antítese de um livro sobre Ciências. Idiot America: How Stupidity Became a Virtue in the Land of the Free (Anchor, 2010) critica a forma como a disciplina é ensinada nas escolas e posteriormente tratada pela sociedade americana.

Os autores mostram como as políticas científicas de sucessivos governos foram capazes de aumentar ainda mais o abismo existente entre a comunidade acadêmica e o público leigo, marginalizando aqueles e condenando estes às eternas trevas da imbecilidade – situação com a qual parecem extremamente confortáveis.

6a00e554b11a2e88330148c72272a7970c-150wi Parece pouco promissor que alguém seja capaz de escrever algo sobre a inexatidão – e, menos ainda, que isso possa ser interessante. Pois Kees van Deemter consegue as duas coisas em Not Exactly: In Praise of Vagueness (Oxford University Press, 2010), um livro tão agradável quanto improvável.

Sua obra mostra o quanto conceitos tomados como finitos, concretos e absolutos são, em verdade, infinitos, abstratos e relativos. Sem apelar muito para fórmulas elaboradas ou explicações muito científicas – coisa que o livro anterior já deveria ter desencorajado – o autor desfia uma lógica extremamente elegante para expor a falta de precisão de nossas frases, argumentos e pensamentos.

A parte boa, segundo van Deemter, é que a maioria das imprecisões que propagamos são benignas e até necessárias pois sem ela, prossegue, não haveria muita alternativa para a comunicação.

6a00e554b11a2e88330148c7227fe9970c-150wi A leitora mais assídua já não aguenta mais me ouvir falar/ver escrever sobre The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains (WW Norton, 2010). Além de uma longa resenha sobre o livro (leia aqui), também publiquei uma entrevista com o autor, Nicholas Carr (veja aqui).

HISTÓRIA

Origin of Wealth: Evolution, Complexity, and the Radical Remaking of Economics (Harvard Business Press, 2007) foi sugerido pelo amigo Marcelo Pereira de Carvalho, com efusivas recomendações sobre sua qualidade.

6a00e554b11a2e88330147e11929f8970b-150wi Nenhum elogio era exagerado ou desmerecido, mas o início desta leitura foi adiado diversas vezes devido ao seu intimidador tamanho: quase 600 páginas bem recheadas – e que valem uma por uma.

Eric D. Beinhocker foge um pouco dos textos tradicionais da economia que buscam mostrar a forma como a riqueza é dividida. Para ele interessa, antes disso, a forma como ela é criada. Boa parte dos argumentos são emprestados da biologia e suas teorias evolutivas.

Ao mostrar a gênese da organização econômica através destas analogias, Beinhocker propõe um modelo extensivo, abrangente e, ao mesmo tempo, de fácil compreensão.

ILUSÕES COGNITIVAS

6a00e554b11a2e88330148c7229969970c-150wi Tanto Think Twice: Harnessing the Power of Counterintuition (Harvard Business School Press, 2009) quanto The Invisible Gorilla: And Other Ways Our Intuitions Deceive Us (Crown, 2010) são excelentes coleções de Ilusões Cognitivas muito bem explicadas.

O primeiro, escrito por Michael Mauboussin, é um pouco mais técnico e já mereceu, inclusive, uma resenha (leia aqui). Aliás, não escrevi ainda sobre o jogo de palavras da capa do livro. Você consegue percebê-lo?

6a00e554b11a2e88330148c722a23a970c-150wiThe invisible gorilla é a transposição para o papel de um estudo realizado por seus autores, Simons e Chabris, e que resultou numa espetacular ilusão, dando origem a diversas variações de pesquisas.

6a00e554b11a2e88330148c722d1f5970c-150wiThe Upside of Irrationality: The Unexpected Benefits of Defying Logic at Work and at Home (Harper, 2010) é o segundo ótimo livro de Dan Ariely, sobre o qual já escrevi uma série de três textos (veja o primeiro aqui) e, por isso, não vou me repetir.

O livro é bom – não tanto quanto Predictably Irrational por conta da novidade do tema – mas a escrita é mais pessoal e mostra um autor bem mais maduro.

Ariely escreve um pouco sobre alguns de seus dramas pessoais que motivaram a realização de pesquisas que respondem a perguntas aparentemente bizarras, como: Será que gente feia procura gente feia para casar? Por que umas pessoas aguentam mais a dor do que outras? É melhor sentir uma dor forte de uma vez ou uma dor fraca e mais prolongada?

PSICOLOGIA

6a00e554b11a2e88330148c722bc4b970c-150wi Demorei quase um ano para conseguir terminar de ler The Lucifer Effect: Understanding How Good People Turn Evil (Random House, 2008). Não porque o texto fosse ruim, o tema desinteressante ou o livro muito extenso (576 páginas embaralhadas com a menor letra distinguível a olho nu). Muito pelo contrário, talvez tenha sido o melhor do ano.

Tanto que antes mesmo de começar a ler The Lucifer Effect eu já havia escrito dois textos sobre o tema, dentro da série Experimentos em Psicologia.

Mas o tema é pesado, algumas passagens são extremamente deprimentes e a todo o tempo você compartilha das desanimadoras conclusões de Philip Zimbardo sobre a natureza humana, mostrando por que mesmo pessoas boas são capazes de atos de abominável maldade.

6a00e554b11a2e88330148c722c6f0970c-150wi A parte boa é que Zimbardo tem uma mensagem de otimismo muito positiva, ao descrever o que ele acredita ser o antídoto para o Efeito Lúcifer: a Imaginação Heróica.

O interessante é que recentemente fui consultado pela revista Amanhã (uma publicação do Sul especializada em negócios) , numa matéria sobre o Efeito Lúcifer nos escritórios.

Na qualidade de especialista sobre o tema e a obra de Zimbardo (sim, eu…!) ajudei a elaborar o texto que acabou sendo a capa da edição de Outubro de 2010, como você pode ver ao lado.

Bom, não teve jeito, vou precisar deixar os demais livros para outro texto. Minha leitura não terminou aqui. Veja aqui a outra metade…

Para o pessoal que está pedindo, apenas dois destes livros foram lançados aqui: A incrível viagem de Shackleton e Positivamente Irracional (The upside of irrationality).

7 pensamentos em “Livros de 2010 – parte I”

  1. Livros de 2010 – parte II

    No texto anterior comecei uma revisão dos livros lidos em 2010. A pedidos, inclusive, acrescentei aqueles que já foram lançados em Português e podem ser comprados aqui sem dificuldades. Curiosamente, sobraram dois temas bem ligados a trabalho. Então ve…

  2. Mais livros. Ou menos?

    Meu amigo Miguel Cavalcanti anunciou um ambicioso objetivo para 2011: ler um livro por semana. São 52 no ano, no total. Eu acabei de fechar 2010 tendo lido vinte e, devo confessar, foi uma tarefa difícil, bem difícil. (Veja meus…

  3. Rodolfo recomendo o livro Emotional Vampires e 101 Solution for Surviving Office Insanity do mesmo autor. Ambos sao voltados para o mundo de negocios mas aplicam-se tambem a vida privada. Muito bons e engraçados!
    Com relacao ao lado obscuro que muitos nao falam:
    1.Why Smart Executives Fail? And what you can learn from their mistakes (lembra muito o Halo Effect, e fala sobre o conceito “Silver Bullet”).
    2.Maximum Success: Changing the 12 Behavior Patterns.
    Sao eles:
    1. Never Feeling Good Enough (acrophobia or fear of career progress)
    2. Seeing the World in Black and White
    3. Doing Too Much, Pushing Too Hard
    4. Avoiding Conflict at Any Cost
    5. Running Roughshod over the Opposition
    6. Rebel Looking for a Cause
    7. Always Swinging for the Fences
    8. When Fear Is in the Driver’s Seat
    9. Emotionally Tone Deaf (Mr. Spock from Star Trek, low emotional intelligence)
    10. When No Job Is Good Enough
    11. Lacking a Sense of Boundaries
    12. Losing the Path (Alienated people)
    3. Meeting the Shadow – The Hidden Power of the Dark Side of Human Nature
    Esse tende mais para a filosofia, mas é bem interessante!
    *Ja li todos eles, mas seria interessante ver uma resenha sua, ja que voce escreve muito bem e faz analogias com outras obras.

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