O golfinho benevolente mais uma vez

Li um artigo intitulado Cada tarefa é um aprendizado, onde o head hunter Bernt Entschev fala sobre gente que começou de baixo e aproveitou as oportunidades para crescer na vida. “São muitos os casos de office boys que se tornaram grandes empresários (…)”, diz Entschev.

Como você não pensa nisso, de fato, ele prossegue como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Mas não é.

Vamos lá: quantos empresários você conhece que começaram como office boys? Poucos, talvez. Eu, particularmente, não consigo me lembrar de nenhum. Agora, quantos office boys você conhece que foram, são e sempre serão office boys? Uma porção, tenho certeza.

Golfinho sacana: nunca vi, mas acho que tem
Golfinho sacana: nunca vi, mas acho que tem

O que vemos aqui é um bom exemplo do Viés de Disponibilidade – quando você tende a se lembrar mais daquilo que é mais divulgado, independentemente de ser muito mais raro. E por que, então, pensamos que um office boy virar executivo é comum?

Porque mesmo que não seja comum, quando eventualmente um tem sucesso, alguém faz um escândalo sobre isso. Mas ninguém fala dos centenas de milhares de office boys que nascem e morrem office boys. E por que não falam? Porque não é interessante, não dá audiência, ninguém liga a mínima.

Isso ilustra muito bem a Parábola do Golfinho Benevolente. De vez em quando ouvimos a história de um náufrago que foi salvo por um golfinho bondoso. Mas será que não existem golfinhos sacanas, que afogam náufragos? Jamais saberemos porque estes náufragos morrem.

O suposto caráter bonzinho dos golfinhos é confirmado porque não é refutado. Ou seja, pela inexistência de uma prova em contrário, assume-se esta afirmação como verdadeira. Será que isso é suficiente?

6 pensamentos em “O golfinho benevolente mais uma vez”

  1. Como headhunter, não faz mais do que o esperado em enaltecer a rara excessão. A perversidade nisto reside no fato de que o atual office-boy passa a nutrir a ilusão de virar presidente de uma grande companhia ou então aqueles que estão na condição que realmente podiam alcançar, vivem vidas frustradas por não alcançarem o sucesso que estão lhes dizendo que seria o natural.
    Esse fenômeno é extremamente comum no futebol, onde centenas de milhares de garotos se iludem que virarão astros e, enquanto isto, deixam de correr atrás daquilo que realmente poderiam realizar.

  2. Essa é um dos temas tratados nos livros “Iludidos pelo acaso” e “A lógica do cisne negro” de Nassim N. Taleb. Ninguém olha para os perdedores e isso gera a ilusão de que só competência e trabalho duro levam a uma carreira de sucesso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *