O resgate do Rio de Janeiro

Destaque na mídia em todo o país – e boa parte do mundo – os recentes conflitos entre a Polícia e o Tráfico no Rio de Janeiro estão marcando uma definitiva mudança de postura do povo carioca – oxalá brasileiro – com relação ao crime.

6a00e554b11a2e88330148c6a00fb0970c-800wiPela primeira vez a polícia conta com o apoio irrestrito da população. Uma população que aplaudia operações dos militares brasileiros no exterior, nas forças de paz da ONU, mas destratavam e desdenhavam sua presença aqui. O Disque-denúncia, termômetro civil da segurança pública, passou de trezentas ligações diárias para mais de mil. A população, finalmente, define de que lado está.

Pela primeira vez traficantes fogem da polícia – e não o contrário. As ações coordenadas das forças de segurança locais – Polícia Militar e BOPE, mais Polícia Civil e CORE – com as federais – Polícia Rodoviária, Polícia Federal e Forças Armadas – sufocou os marginais que não tiveram opção.

Pela primeira vez traficantes se rendem e se entregam – às vezes acompanhados de seus pais. Na determinada operação deflagrada no mês passado, o ultimato dado pela Secretaria de Segurança rendeu algumas envergonhadas rendições.

Pela primeira vez houve a coordenação das forças locais  – conseguiu se articular com as federais. E, diferentemente da ECO-92 e do PAN-2007, esta união não foi combinada com os bandidos. Foi contra os bandidos.

6a00e554b11a2e88330148c6a00665970c-800wiPela primeira vez o orgulho brasileiro por suas Forças Armadas deu-se em território nacional. O povo aplaudia a presença das Forças Armadas no Haiti, mas repudiava suas ações aqui. Não sei se ainda pelo ranço da ditadura militar ou pelo desdém imbecil com que se tratam os símbolos locais.

Parte do crédito desta mudança de mentalidade pode ser creditada aos dois Tropa de Elite, que mostraram uma polícia forte e preparada, capaz de fazer frente às organizações criminosas. Deixaram claro, também, que há ao menos uma parte da corporação que não se corrompe, não se dobra, não recua e não faz acordo. Lamentavelmente, exceções ainda existem e algumas brutalidades foram registradas – o que precisa ser identificado e corrigido implacavelmente.

As pequenas vitórias iniciais deixam claro que é possível vencer esta batalha. E que a população tem que fazer a sua parte. Pesquisas sobre o tráfico mostram que os viciados respondem por apenas 20% do consumo de drogas no Estado. Os outros 80% são classificados como consumo recreativo. Então o tráfico é um resultado da recreação da população. Durmam com essa culpa.

O Governo precisa aproveitar o momento e criar símbolos inequívocos deste ressurgimento de suas instituições. A forma decidida como partiram para o confronto deve se tornar simbólica nesta luta.

6a00e554b11a2e88330147e096a1ff970b-800wiAs fortes imagens transmitidas ao vivo pela TV e pela Internet são emblemáticas na manutenção deste momentum. Tanto a entrada dos tanques na favela, demolindo os antes impenetráveis bunkers, quanto a desesperada fuga dos bandidos apavorados precisam ser exaustivamente repetidas como marcos de uma guerra que está apenas começando – mas cujas primeiras batalhas foram vencidas pelo bem. Ponto para a imprensa.

Bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro foram hasteadas no ponto mais alto do Complexo do Alemão, no que o New York Times classificou como “um raro momento de catarse e celebração, numa batalha para livrar as violentas favelas das quadrilhas de traficantes que já dura uma década”.

Já no site da CNN, a invasão do morro do Alemão foi uma das notícias mais lidas à época, destacando a presença de veículos blindados na operação de guerra, na tomada do “antes virtualmente impenetrável labirinto da favela”.

6a00e554b11a2e88330147e096a4e1970b-800wiO desfecho da ofensiva, vital para a imagem da cidade e do país prestes a sediar os mais importantes eventos esportivos do mundo – a Copa do Mundo de futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016 – ainda é incerto. Mas demonstra uma vontade crescente de se livrar de um mal pelo qual o próprio carioca é responsável. Por sua passividade e permissividade, pela sua promíscua relação com o tráfico e por sua recorrente preferência por políticos populistas.

3 pensamentos em “O resgate do Rio de Janeiro”

  1. Muito legal seu texto, eu também estou um grande fã do BOPE, e ri por cada traficante que morreu), mas o grande golpe dessa ação do governo foi de comunicação. Por um lado vemos todas as forças do governo contra um mal que assolava a população (que apoia sem hesitar a ação da policia), onde policiais-heróis invadiram o território dominado pelo inimigo, destituindo o mal da posição de rei das comunidades. Por outro, vemos a intransigência do poder publico ante a falta de estrutura das favelas e domínio de sujeitos que por razões pessoais acreditam que o governo que os abandonou sim é o mal (antagônico), e veem no trafico de droga um meio fácil de viver sua vida. Uma população que diz que traficante é sinônimo de bandido, mas que faz ser sinônimo de fornecedor. O problema aqui é cultural – o rico deve ficar mais rico, o pobre deve ficar mais pobre – a não ser quando gasto minha mesada em maconha. Só a comunicação muda a cultura, e a idealização de uma polícia heróica e governo (através do filme e dessas ações) talvez realize essa mudança. Resumindo: nada muda se a cultura não mudar, e acredito que essas ações (se não esquecidas) possam mudar essa cultura.
    Duas observações: (1) Suas resenhas e seus textos são muito foda, mas (2)você não posta nada que presta no twitter. Que tal um twitter do blog?

  2. O bobão deve ter rido pouco visto que quase nenhum dos 1500 bandidos morreu.
    Quanto a afirmar que não houve combinação…que coragem a sua.
    MAM

  3. Por favor, não deixem de ler o artigo: A Farsa da “Guerra às Drogas” acessível neste link: http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2010/12/482426.shtml?comment=on . *************************************************************
    Precisamos começar a tratar a droga como problema de saúde pública e não de polícia. Esta guerra não traz nada de bom, pois a polícia ao matar se iguala aos traficantes. Precisamos de saúde e educação, e quando tivermos isto de fato, não precisaremos mais de polícia. *************************************************************
    “Na América Latina o grande produtor de cocaína continua sendo Colômbia, com um plantio de 68000 hectares de coca em 2009, sob a vigilância estrita dos soldados estadunidenses que possuem 6 bases militares no país e contam com absoluta impunidade e liberdade de movimentos em suas atividades. Perú, o outro estreito aliado privilegiado dos EUA na América do SUl participa com entusiasmo no plantio de coca. Perú aumentou este plantio em 55% na última década. Enquanto que a área para o cultivo de coca na Colômbia siga sendo superior do que no Peru, os meios de comunicação locais e internacionais e funcionários da ONU informaram que o Peru superou a Colômbia em 2010 como o principal produtor de folha de coca do mundo. Entretanto, a DEA quis focalizar a guerra contra a droga na Bolívia, para fazer campanha contra o governo de Evo Morales. Em novembro de 2008, a DEA foi expulsa da Bolívia.” By Juan Luiz

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