Sobre tragédias e tragedistas

Ainda não formei uma opinião sobre o affair Luciano Huck e sua iniciativa de ajudar as vítimas das enchentes no Rio de Janeiro. Gostaria da opinião de vocês, queridas leitoras, para entender melhor o que está por trás das intenções do apresentador da Globo.

O pecado de Huck teria sido emprestar seu prestígio ao site de compras coletivas Peixe Urbano, do qual é sócio com 5% (cinco porcento), para angariar dinheiro para a ONG Move Rio, que reúne “profissionais de diferentes áreas interessados em promover transformações sociais no Rio de Janeiro, sem fins lucrativos ou viés político”.

Huck convocando seus 2,6 milhões de seguidores a contribuir
Huck convocando seus 2,6 milhões de seguidores a contribuir

O benefício colateral para o site – e indiretamente para seus sócios – residiria na divulgação do serviço e o necessário cadastro do doador como usuário. Algo, segundo entendi, incompatível com a caridade pretendida.

Celebridades sempre foram pródigas em se aproveitar de momentos de dor alheia – individual ou coletiva – para se promover. Bono Vox, Angelina Jolie e Sting são figurinhas fáceis onde quer que a Terra chacoalhe, sopre um furacão ou possam ser fotografados ao lado de crianças esquálidas. Isso o Luciano Huck não pode.

Espero que entendam que não estou, de maneira nenhuma, defendendo a atitude de Huck. Parte do seu trabalho é explorar desgraças individuais em seu programa semanal, disfarçando de caridade quadros que dão migalhas a desventurados em troca de indecentes closes em seus olhos lacrimejantes. Sua audiência cativa aprova, adora e aplaude. Isso o Luciano Huck pode.

Os programas (que se dizem) jornalísticos passam horas a fio explorando tragédias – individuais e coletivas – em suas edições vespertinas em troca apenas de audiência. Raramente alguém recebe algum benefício pela escancarada exposição de seus dramas. Isso todos podem.

Haiti: só dói quando a Terra treme
Haiti: só dói quando a Terra treme

A dura verdade é que nem as fortes imagens das tragédias incansavelmente veiculadas pela mídia são suficientes para mover corações e mentes. Muita gente ainda precisa que sua celebridade favorita estimule sua caridade indolente. Só dói quando dói no seu ídolo. Só doa quando doa seu vizinho.

Oportunidades sempre atrairão oportunistas. Não importa quem morreu, todos querem chorar. Se for em horário nobre, tanto melhor. Mas quando a água baixa – e o verdadeiro trabalho começa – todos somem. Quantos caridosos ainda estarão em Petrópolis, Teresópolis ou Friburgo depois do Carnaval? Quem deixará sua fantasia de lado e passará o feriado virando argamassa na Região Serrana fluminense? Quem se lembra do Haiti?

ADENDO: Qualquer um que faça campanha de donativos acaba se promovendo indiretamente, queira ou não, além de promover o canal – seja Twitter, Facebook ou o Peixe Urbano.

9 pensamentos em “Sobre tragédias e tragedistas”

  1. Olá,
    Sou portuguesa e imune ao carisma desse Luciano Huck, contudo, conheço a figura porque o programa já passou por cá. Triste, muito triste, ter de comprar um cupom para ajudar essas pessoas. Parece cena de supermercado. Pior seria ele fazer o programa directamente do local da desgraça, com a câmara seguindo.
    Estou com você, concordo com tudo. Não suporto a cena do Bono, ligando até para presidentes dos concertos. Mas vende, e muito.
    Está para durar a cena dos tradegistas.

  2. Achei interessante a cara da apresentadora do “Bom dia Brasil” de hoje. Ela estava indignada com dois homens que foram presos por desviar doações. Ninguém fica indignado com os políticos que fazem as leis, e deixam canais evangélicos pedirem doações, produtos milagrosos e gente como Luciano Huck, atuarem como mestres de cerimônia desse circo dos horrores.

  3. Considero que o maior erro do Huck foi em seu discurso, que soou deveras mercantilista. As palavras “e” “muito” “via” “@peixeurbano” e “compra” atrapalharam a imagem de bem feitor do global em questão, que passou a ser visto como aproveitador da desgraça alheia. Se ele tivesse dito algo como “Quer ajudar as vítimas da serra Fluminense*? Veja como aqui. Link” provavelmente sairia com a imagem menos desgastada e todo mundo ia achar lindo.
    Tb concordo demais que as pessoas acabam se promovendo. Isso cai naquela velha história que já falei 100 vezes do altruísmo x fazer bem a si próprio x cota liberada para praticar a maldade. Outro dia vi um cara na TV que disse que estava doando pois estava se sentindo mal em não fazer nada. Ou seja, estava doando para se sentir bem. Não para fazer o bem ao próximo. Há¡ Será que ele percebeu a sua própria fala?
    Quase a mesma coisa com o vídeo do oGlobo e da polícia civil. vc viu? Me dê a sua opinião 😉 http://glo.bo/hyLBbB
    Ps: e vc aí querendo ganhar audiência no blog!

  4. Bem, meu ponto de vista é outro.
    Acho o Huck foda! Sabe aproveitar as oportunidades e utiliza a tragédia alheia para se promover sim. Mas quem não o faz?
    Tive um professor de sociologia que dizia:
    – Tudo que você faz na vida, é esperando algo em troca.
    Quando ajudamos alguém, mesmo que seja na melhor das intenções, esperamos algo em troca. No caso de ajuda aos necessitados, nos sentimos superiores capazes de ajudar, ou seja, IMPORTANTES, base dos princípios de Dale Carnegie.
    Enfim, a diferença entre o Huck, Jolie, Vox e nós é apenas a escala… ah! E a grana (e poder) que ganham com isso também.
    Abraços.

  5. Suzana, acho que você matou a charada: o problema foi a escolha infeliz dos termos. Em sua frase Huck transforma doar em comprar.
    Sobre o vídeo, eu acho válido. A polícia carioca também precisa recuperar sua imagem junto à população – o que começou com as invasões dos morros no Rio.
    Provavelmente ninguém estranharia se fosse um vídeo dos bombeiros. Bom, na verdade, vindo de brasileiro eu não duvido de nada…
    Abraço, Rodolfo.

  6. Incrível como realmente temos memória curta. Um dia desses lembrei no Twitter a tragédia da Região Serrana do Rio, a do Morro do Bumba em Niterói, as enchentes no Maranhão, em Alagoas, em Santa Catarina e suas vítimas, os episódios que nos comovem e que são tão explorados por quem não precisa de ajuda nenhuma. Não costumo fazer doações por telefone ou por meio dessas campanhas, não sei quem audita, não sei para onde nem como são destinados os recursos. Prefiro ir e ajudar diretamente e não esquecer que aqulas pessoas precisam de ajuda não apenas naquele momento.

  7. “Dois amigos caminhavam em uma praia, essa praia servia de ninho de tartarugas, milhares de tartaruguinhas se desviavam do mar e iam em direção da calçada, guiadas pelo brilho das luzes do poste, um dos amigo foi até lá e passou a virá as tartaruguinhas. Colocado-as na direção certa pra que elas
    caminhassem em direção ao mar, o outro amigo falou não seja bobo, você não vê que não faz diferença, ha milhares de tartaruguinhas aqui. O amigo respondeu, pra esta eu estou fazendo a diferença.” Chego a visualisar os nobres intelectuais, dos comentarios acima, sentados em uma cadeira acochoada, dentro de um qurto quente, em frente a um compultador, bem alimentados e seguros. Criticando uma atitude que pode até ter outras intenções, mais no fundo ajuda pessoas que realmente precisa, e muitas vezes só precisavam de uma ajudar pra viver dignamente. As pessoa vêm o mundo através de seus paradigimas, se vcs vêm as outras pessaos assim, é porque vcs são assim. Prefiro acreditar que existe bondade no coração de algunhas pessoas.

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