The bed of Procrustes – Nicholas Nassim Taleb

6a00e554b11a2e88330148c6864110970c-120wi A primeira conclusão a que cheguei ao terminar The Bed of Procrustes: Philosophical and Practical Aphorisms (Random House, 2010) é que Nicholas Nassim Taleb perdeu o resto de fé que tinha na humanidade.

Três anos após o clássico A Lógica do Cisne Negro Taleb castigou seus fãs com uma obra sofrível – talvez não por seu conteúdo, mas certamente por sua forma.

Suas magras 112 páginas (contra 480 da obra anterior) reúnem uma coleção de sentenças raivosas, observações rancorosas e muito despeito. Dei-me ao trabalho de contar 402 frases divididas em 22 “temas”. Pois é, o livro é um apanhado de frases aleatórias cuspidas por uma metralhadora giratória, especialmente apontada, eu diria, para os economistas.

Minha maior decepção foi, talvez, pelo fato de Taleb ter desperdiçado um argumento excelente –  algo como o Paulo Coelho escrever sobre o assassinato do Kennedy. O título do livro refere-se ao mito grego de Procrusto, o esticador, um bandido filho de Posseidon, que morava numa fortaleza vizinha a Atenas.

Diz a lenda que Procrusto convidava os viajantes a passar a noite em sua casa e dormir em sua famosa cama. Ocorre que o anfitrião obrigava seus hóspedes a se encaixar perfeitamente no leito, seja esticando os mais baixos, ou cortando as pernas dos mais altos.

Ainda segundo a mitologia, Procrusto foi morto por Teseu (sim, o do Minotauro) em sua própria cama, usando o mesmo modus operandi de Hércules, que derrotava seus inimigos com suas próprias armas.

A Cama de Procrusto representa, portanto, uma ilustrativa metáfora para aquilo que é excessivamente padronizado e abusivamente imposto, independentemente das particularidades de quem a necessite*.

Taleb é, sim, um cara brilhante, dono de uma erudição invejável que ele não faz nenhuma questão de esconder. Até aí tudo bem, porque somente uma inteligência assim poderia nos dar algo do quilate de The Black Swan. Mas The Bed of Procrustes tem um ranço de “minha obra genial que ficará para a posteridade”.

A impressão que dá é que Taleb joga um monte de frases de efeito no ventilador, esperando que algumas se tornem lemas, ditados ou mesmo leis imutáveis. Pelo que você verá a seguir, em seleção e tradução próprias, ele passou longe de ser o novo Barão de Itararé…

Para falir um tolo, dê-lhe informação.
To bankrupt a fool, give him information.

Se pela manhã você souber com precisão como será o seu dia, você está meio morto – quanto mais precisão, mais morto você está.
If you know, in the morning, what your day looks like with any precision, you are a bit dead – the more precision, the more dead you are.

Procrastinação é a alma se rebelando contra o aprisionamento.
Procrastination is the soul rebelling against entrapment.

Elogiar alguém por sua falta de defeitos também implica na sua falta de virtudes.
By praising someone for his lack of defects you are also implying his lack of virtues.

Muitos alimentam suas obsessões tentando se livrar delas.
Most feed their obsessions by trying to get rid of them.

Rumores só têm valor quando negados.
Rumors are only valuable when they are denied.

As pessoas normalmente se desculpam para poder repetir o erro.
People usually apologize so they can do it again.

Os três vícios mais danosos são heroína, carboidratos e um salário mensal.
The three most harmful addictions are heroin, carbohydrates, and a monthly salary.

Você constantemente precisa se lembrar do óbvio: o charme está no não-dito, no não-escrito e no não-mostrado. É preciso maestria para controlar o silêncio.
You need to keep reminding yourself of the obvious: charm lies in the unsaid, the unwritten, and the undisplayed. It takes mastery to control silence.

Ciência de base dá resultados sensacionais através de um processo terrivelmente entediante; a filosofia dá resultados entediantes através de um processo sensacional; a literatura dá resultados sensacionais através de um processo sensacional; a economia dá resultados entediantes através de um processo entediante.
Hard science gives sensational results with a horribly boring process; philosophy gives boring results with a sensational process; literature gives sensational results with a sensational process; and economics gives boring results with a boring process.

Ainda me lembro daquilo que aprendi sozinho.
What I learned on my own I still remember.

O trágico é que muito do que você acha que é aleatório está sob o seu controle e, o que é pior, o contrário.
The tragedy is that much of what you think is random is in your control and, what’s worse, the opposite.

Você só convence as pessoas que pensam que terão benefícios se forem convencidas.
You can only convince people who think they can benefit from being convinced.

Evite chamar de heróis aqueles que não tiveram escolha.
Avoid calling heroes those who had no other choice.

Um homem ético adapta sua profissão às suas crenças, em vez de adaptar suas crenças à sua profissão.
Ethical man accords his profession to his beliefs, instead of according his beliefs to his profession.

Falar sobre a “matemática da incerteza” é o mesmo que falar sobre a “castidade do sexo” – o que é calculado não é mais incerto, e vice versa.
Saying “the mathematics of uncertainty” is like saying “the chastity of sex” – what is mathematized is no longer uncertain, and vice versa.

Um matemático começa com um problema e cria uma solução; um consultor começa oferecendo uma “solução” e cria um problema.
A mathematician starts with a problem and creates a solution; a consultant starts by offering a “solution” and creates a problem.

Ciências Sociais significa inventar um tipo de humano que possamos entender.
Social science means inventing a certain brand of human we can understand.

Você sabe que tem influência quando as pessoas começam a notar mais a sua falta do que a presença dos outros.
You know that you have influence when people start noticing your absence more than the presence of others.

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* Serviu, inclusive, como tema para a pergunta de abertura de minha entrevista com Nicholas Carr.

5 pensamentos em “The bed of Procrustes – Nicholas Nassim Taleb”

  1. Olá Rodolfo!
    É necessário ressaltar que, na capa, ele deixa bem claro que sua obra é uma série de aforismos filosóficos. Pelos exemplos que você transcreveu, nota-se que ele seguiu esta norma.
    Abraço!

  2. O melhor livro do Taleb, na minha opinião, é o “Fooled by randomness”. Apesar das idéias do “Black Swan” serem brilhantes o livro em si é chatíssimo de ler, parece mais uma homenagem do Taleb a si próprio, discorrendo sobre o quão inteligente, brilhante, interessante e único ele (acha que) é.

  3. Não vou negar, adorei as frases, e me renderam boas risadas.
    Principalmente pq vejo empresas investirem grandes somas em pessoas que deveriam cuidar dos processos, e no final, além de não conseguirem mudar o negativismo das equipes, terminam sofrendo desse mesmo mal do referido autor.

  4. Um dos poucos blogs que vale a pena ser lido. Obrigado por nos atualizar sobre a obra deste excelente autor. Cá pra nós, a impressão que tive – especialmente após seus comentários – é que Taleb está querendo escrever o seu próprio “Zaratustra” 🙂

  5. Para conseguir tirar proveito da obra de taleb, deve-se fazer um imenso esforço para superar a aparente arrogância do autor. Talvez taleb seja alguem proximo ao conceito do Alem-homem elaborado pelo Nietsche; ou talvez ele seja simplesmente full of shit. Go figure!

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