As mentiras que nós gostamos

Alguns desavisados lerão a capa da Veja desta semana com sincero temor pela economia do país. “CORTE NA CARNE – Não é só a picanha: o preço de quase tudo o que você consome está subindo muito mais do que a inflação”, diz a revista.

6a00e554b11a2e8833014e5f4e660d970c-250wi Alguém mais crítico verá de cara que há algo errado nesta frase. Algo conceitualmente equivocado e propositadamente tendencioso. Senão vejamos:

Sem precisar entrar numa definição acadêmica, a inflação é uma média ponderada que reflete o aumento de determinados preços, durante um período específico.

Dependendo do instituto de pesquisa ou da finalidade, o índice sofrerá variações de acordo com os produtos escolhidos para serem monitorados, o peso de cada um em relação a uma dada renda familiar e a data de corte para a coleta dos dados.

Isto posto, é muito improvável que o “preço de quase tudo” esteja “subindo muito mais do que a inflação”. Uma das maneiras de isto acontecer é modelando uma média ponderada bastante desequilibrada, atribuindo um peso muito alto para algo sem importância ou que não esteja subindo tanto.

Imagine que carne, leite e passagem de ônibus tenham peso 1 e, em janeiro, tenham subido 10%. Suponha, agora, que a meia de lã tenha peso 10, mas seu preço aumentou apenas 1%. Esta inflação fictícia ficaria 3,1%, ou seja, completamente dissociada daquilo que você realmente consome.

Claro que este exemplo é bem bobinho, mas o seu exagero serve para mostrar o quão absurda é a afirmação da revista. Daí surgem algumas hipóteses para justificar a manchete:

– Quem escreveu não sabe o que é inflação ou como ela é calculada, então parece perfeitamente normal que todas as observações sejam maiores do que a média – ainda que ponderada;

– Quem escreveu propositalmente escolheu itens que subiram mais do que a inflação para justificar o seu título, incorrendo num sério viés de amostra;

– Quem escreveu sabe que a forma de calcular a inflação é que está errada, que isto torna o título um absurdo, mas falar que os preços estão subindo vai vender mais revistas e aborrecer menos gente.

Por outro lado, se a forma de cálculo da inflação realmente permite que estas aberrações aconteçam – ou seja, se a manchete estiver correta – então ela é que está muito errada. E se está muito errada, porque continua mostrando ao povo um número irreal? Por que o Governo diz que a inflação está baixa enquanto que “os preços de quase tudo o que você consome” continuam subindo desenfreadamente?

Mas se o Governo entender que a forma de calcular a inflação realmente está correta, então quem está errada é a pessoa que escreveu a capa da Veja. Se eu fosse o Governo, neste caso, pediria explicações à revista.

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Se quiser ler um pouco mais sobre como identificar incoerências nos noticiários, dê uma olhada nessa resenha que escrevi sobre o livro Lies, Damned Lies, and Science (FT Press Science, 2009), de Sherry Seethaler.

12 pensamentos em “As mentiras que nós gostamos”

  1. há algo ainda mais errado com essa capa: na semana que o Egito derruba seu ditador pelas manifestações populares, a Veja (como sempre) não dá capa e ainda por cima, na pequena chamada é tendeciosa ao falar de militares e temor… lembra as capas sobre anjos, dietas e outras que a revista inventa em semanas que assuntos de maior importância não favorecem o viés direitista da revista…

  2. “…falar que os preços estão subindo vai vender mais revistas e aborrecer menos gente.”
    Podia ter parado por aí, porque explicou tudo.
    Tem muito tempo que não compro mais VEJA…
    Não dá mais…

  3. Sempre gosto do que vc escreve mas dessa vez, me desculpe… a “Veja” não está de tudo errada, pois itens de 1ª necessidade como alimentos (nem cito a picanha, posso citar mesmo uma carne de 2ª), itens de limpeza e higiene básica estão sim caríssimos. A inflação está controlada? Jura? Com a alta carga tributária que pagamnos, acho que pelo menos, nosso dinheiro deveria sobrar nas áreas de saúde e educação. Mas não é o que se vê na prática: TUDO É MUITO CARO, E AINDA PAGAMOS PELO BÁSICO:SAÚDE, EDUCAÇÃO E, SE DUVIDAR, ATÉ PELA SEGURANÇA.

  4. Nunca levei a Veja a sério. Mas nos tempos atuais, acho que falar mal dela dá audiência. Se tem uma coisa que a Veja fez de bom, foi ficar na cola do Lula. Mas se eles expuseram tanta roubalheira e não deu em nada, agora eu pergunto:
    A Veja mente e o governo não rouba?
    A veja mente e o governo mente?
    A Veja falou a verdade, o governo mente e o povo ama ser roubado?
    Ou todas as alternativas estão corretas?
    🙂

  5. Assim como existe a imprensa marrom, qual seria a cor da revista VEJA? A cor do partido republicano (EUA)? A cor da ingerência americana na cultura, na comunicação social e na política de vários países? A cor das campanhas militares pela “liberdade e democracia” (diga-se: petróleo)? A cor do neoliberalismo? Creio ser mais apropriada a cor da ilegitimidade… Por isso apoio o governo brasileiro na criação do conselho nacional de jornalismo. Como já fazem outros países, o Brasil tem que se proteger desse tipo de imprensa estrangeira.

  6. “Os índices de inflação são perfeitamente aplicáveis a um anoréxico que ande a pé”
    Parafraseando oq um certo comentarista americano (não estou lembrando qual) falou sobre o CPI (consumer price index) e o insensato baixo peso relativo de itens essenciais como alimentação e energia/combustível 🙂

  7. O jornalista que disse que o preço de quase tudo está subindo muito mais do que a inflação é primo do George W. Bush que, segundo dizem, ficou chocado quando soube que aproximadamente 50% dos americanos tinha QI abaixo da média.

  8. por que o “VOCÊ” não é o Brasileiro cujo preço de consumo é medido pelo IPCA.
    “VOCÊ” é o público ALVO da revista, de preferência assinante.
    E o autor do blog SABE disso, pois se vende como um ultra modafoca bem sucedido e inteligente líder empresarial.
    Mas é bom falar mal da Veja, ainda que se tenha um blog na casa.

  9. Oi salvador, fico feliz de você acompanhar meus textos fora deste blog e saber que escrevo na Você S/A. Apesar de ter um blog na Editora Abril, continuo à vontade para falar mal do seu carro-chefe. Se precisar escolher, prefiro continuar falando mal do que ficar lá.
    Sobre meu perfil ultrafoda e bem sucedido, vou tentar entender de onde você pode ter tirado essa ideia lendo meus textos. Se eu não encontrar, serei forçado a entender que isso é coisa da sua cabeça. A parte do inteligente eu vou aceitar sem brigar, obrigado.
    Atenciosamente, Rodolfo.

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