Terremotos e corrupção

Um recente estudo publicado pela Universidade do Colorado aponta que 83% das mortes causadas por terremotos ocorrem em países corruptos. Os pesquisadores Roger Bilham e Jim Scott cruzaram dados dos óbitos resultantes dos tremores de terra com os índices de corrupção apurados pela ONG Transparência Internacional para chegar a este resultado.

A título de ilustração, o terremoto de 7.0 graus na escala Richter que atingiu a Nova Zelândia em 2010 teve zero fatalidades, enquanto que outro de mesma magnitude matou centenas de milhares de pessoas no Haiti naquele mesmo ano.

San Francisco após o grande terremoto de 1906
San Francisco após o grande terremoto de 1906

O estudo é muito interessante para analisar a forma como dois fatos podem estar correlacionados, tendo relação de causalidade ou não. Bilham e Scott sugerem dois elos entre mortes em terremotos e corrupção:

O primeiro é o fato de que prédios são liberados pelas autoridades sem que os padrões mínimos de segurança em construção civíl sejam observados – tanto em termos de especificações quanto de qualidade/quantidade de material empregado.

O segundo é mais uma cadeia de fatos: corrupção e pobreza normalmente andam de mãos dadas; em países pobres, o nível educacional é mais baixo, desde o ensino de base até as faculdades – e isso inclui a de engenharia civil e os demais trabalhadores da construção. A consequente destruição seria fruto da baixa qualidade da mão-de-obra, do planejamento à execução.

Há, ainda, uma terceira hipótese sugerida por Bruce Bueno de Mesquita no formidável The Predictioneer’s Game: Using the Logic of Brazen Self-Interest to See and Shape the Future (Random House, 2009). Logo na Introdução ele diz: The difference between doing a good job and doing a lousy job is driven by how many people a leader has to keep happy1.

A relação disso com o tema é explicada um pouco adiante, quando Mesquita lembra que um ditador não precisa dar satisfação a ninguém – ou a poucas pessoas. Por isso, ele pouco liga para a satisfação ou a segurança do seu povo. Já numa democracia, uma tragédia como esta pode representar um retumbante fracasso eleitoral.

Sua hipótese é, portanto, que desastres naturais tendem a ser mais fatais em ditaduras do que em democracias.

De certa forma, ambas as teorias estão em sintonia, já que na maioria das vezes as ditaduras são extremamente corruptas.

Ainda assim, são três hipóteses para o mesmo desfecho. Certamente um sinal claro de que precisamos buscar mais fundo as explicações para problemas complexos. Tão fundo que às vezes a terra treme.

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1. “A diferença entre fazer um bom trabalho e um trabalho medíocre é função de quantas pessoas um líder precisa manter felizes”.

Veja outra interessante ideia de Bruce Bueno de Mesquita em Eu vejo o futuro repetir o passado.

4 pensamentos em “Terremotos e corrupção”

  1. Tem uma pesquisa que relaciona (de forma estatisticamente significativa) londrinos que comem banana e quantidade de filhos. Ou seja, londrinos que comem bastante banana, tendem a ter mais filhos.
    Na verdade, o que acontece (outro estudo fala isso) é que banana em Londres não é algo muito barato. Então quem tem acesso a essa fruta, acaba sendo também quem tem uma renda um pouco melhor. E, aí sim, a correlação faz sentido: quem possui maior renda, costuma ter mais filhos.
    Fico só devendo os links pros artigos, pois já tempo que os vi e nem faço mais ideia de onde/quando isso aconteceu.=)

  2. Pois é, Ricardo, isso lembra a estória do estudante de estatística que percebeu que quando a venda de picolés subia, também aumentava o número de afogamento nas praias.
    Frequentemente estabelecemos uma relação direta entre dois eventos, sem considerar que pode haver um terceiro, responsável por ambos.
    Um abraço, Rodolfo.

  3. Na próxima edição deste livro, você poderia propor um capítulo especial sobre os desastres de verão no Brasil. Não que tenhamos uma ditadura mas certamente deve haver espaço para estudar sobre o nível de preocupação dos nossos políticos e autoridades com seus eleitores e “ex-eleitores”.

  4. O estudo tem tudo a ver. A corrupção é maior em países pobres, e países pobres tem menos infraestrutura para qualquer coisa. Interessante esses estudos.

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