E os pobres carrapatos?

Deve haver alguma coisa nessa celeuma das capivaras de Campinas que eu não entendi direito. A história – segundo a péssima reportagem do jornal O Globo* – é a seguinte: após uma infestação de carrapatos-estrela nas capivaras do Lago do Café, a prefeitura decidiu exterminar os roedores, para evitar a transmissão da febre maculosa, causada pelos parasitas citados.

Ainda que a doença tenha cura se identificada a tempo, ela foi responsável pela morte de três funcionários da prefeitura que trabalhavam na região, além de um número de habitantes que o jornal até o momento não conseguiu somar direito.

Eis que surgem, então, as entidades de defesa dos animais para protestar contra o abate das capivaras. Mesmo tendo os maiores especialistas no assunto afirmado que esta era a melhor solução e o sacrifício dos animais obedecido a todos os protocolos para um abate indolor, ainda há gente que se dispõe a protestar?? Santa falta do que fazer!!

Pergunto-me: como será que as famílias dos que morreram da tal febre maculosa se sentiram com este protesto? Estariam elas se sentindo culpadas pelas pobres capivaras? Vinte capivaras são mais importantes do que toda uma cidade em risco?

Pobres mosquitinhos...
Pobres mosquitinhos…

E por que estas preocupadas almas ambientalistas, ecologistas, vegans ou sei lá como se chamem não levam as capivaras para suas casas, para cuidar de seus igualmente exterminados carrapatinhos?

Será que os aedes aegyptis também não merecem semelhante protesto, tendo em vista a indiscriminada matança da qual são vítimas todos os verões, simplesmente porque, alheio à sua vontade, transmitem a dengue e a febre amarela?

E os pobres ratinhos que transmitem raiva, peste bubônica (através de suas inocentes pulgas) e leptospirose, também não deveriam ter clemência? Tadinhas das baratas, elas também não têm alma?

Não haverá causas mais nobres pelas quais lutar? Ou estes ecochatos de plantão abraçam a defesa de qualquer vida, mesmo que elas causem a morte de seus semelhantes?

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* Os futurólogos do jornal dizem, no segundo parágrafo, que três funcionários morreram de febre maculosa entre 2006 e 2088. O sonolento revisor deixou o erro se propagar no copy/paste da segunda matéria sobre o caso. Na frase seguinte dizem que sete pessoas morreram na cidade vítimas da doença. Mas no último parágrafo, uma conta canhestra revela cinco mortes em 2009 e quatro em 2010. Estranho, muito estranho…

9 pensamentos em “E os pobres carrapatos?”

  1. Meu caro,
    Os recursos para cuidados especiais de capivaras por problemas tão comuns são simples e nada onerosos, portanto, vejo plena coerência em protestar contra o sacrifício dos pobres animais.
    Em minha sincera opinião, antes de sacrificar uma capivara, porque não repensar na forma de como tratá-las. Obviamente, nós invadimos o ambiente delas e não o contrário.
    Não há algo mais valioso e nobre para se lutar do que por uma vida que não comete mal algum intencionalmente.
    Forte abraço,
    Alê

  2. pensemos.. matar 20 capivaras pra “proteger” uma cidade inteira. ok, é justo. e se fosse pra matar 20 pessoas pra “proteger” uma cidade inteira?
    antes que pensem que sou um ecochato, deixo claro que eu acho justo ambos os casos. o problema é que são dois pesos e duas medidas.

  3. Sim, capivara não é gente. Mas o que define o julgamento moral nessa história é o fato de não ter capacidades cognitivas superiores ou de ser um animal não-humano?
    Se ao invés de capivaras fossem extraterrestres mamíferos e com mesmas capacidades cognitivas humanas, incluindo o uso da linguagem, consciência e planejamento? Aí a coisa muda de figura? Sei que parece besteira, mas capivaras, ratos e mamíferos em geral podem ser considerados (e são, por alguns que põe a cara a tapa) com o mesmo intelecto de uma criança de alguns meses de idade.
    A diferença é que humanos evoluem pra muito além disso e os outros mamíferos não. O mosquito já não concordo porque eles sequer desenvolvem capacidade cognitiva relacionadas a emoções, relações ou mesmo de planejamento. São apenas organismos vivos que buscam os princípios básicos da vida: alimentação e reprodução.
    Ah, e no meu caso não sei se é bem o problema do bonde, porque sendo gente ou “não-gente”, eu acho que o sacrifício de alguns para o benefício de muitos é válido, mas não rejeito por inteiro a outra escolha.

  4. Ricardo, aí as vacas e bois que matamos para comer também entram nesta categoria.
    Os que não comem carne por causa disso, simplesmente romperam com a raça humana, porque o homem é um animal carnívoro. Sempre foi.

  5. Pois é, meu caro. Por isso que eu parei de comer carne vermelha e frango. Peixes eu continuei. Mas não rompi com a raça humana – entendo ela como bem mais do que “o que se come”. Até porque o que se come é uma questão cultural, não natural da raça. Por um tempo me senti cínico por comer aquilo que não tenho coragem de matar (aposto dinheiro que a maioria das pessoas não tem coragem de matar um boi ou vaca).
    Mas, enfim, como humano que sou, com “minhas” dissonâncias cognitivas (como se escolhêssemos isso, oras), voltei a aceitar o cinismo de comer coisas que não tenho coragem de matar.
    Apesar de loucura, não vejo muita diferença entre Hannibal Lecter e nós. A diferença é que ele não vê problema em matar e comer um certo tipo de carne que nós achamos inaceitável.
    Mas qual era o assunto do post mesmo? 🙂

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