O maior risco do medo é o medo

Apesar da aparente inconsistência, o título deste post não está errado – ao menos no que se refere à sua grafia.

Após a recente tragédia no Japão, o perigo muda de figura e toma corpo numa ameaça global: um desastre nuclear. Em pavorosas cenas transmitidas online por todos os meios disponíveis, acompanhamos em tempo real o derretimento dos reatores das usinas japonesas, um após o outro.

Alimentados pela parte da mídia que tira seu sustento do pânico e da desinformação, a população vê crescer o temor de um desastre de proporções bíblicas e busca proteção ante o iminente avanço de um Quinto Cavaleiro Apocalíptico.

TVs e jornais pintam em cores vivas e fosforescentes um monstro radioativo que a todos destruirá, espalhando sua praga cancerígena por todo o planeta.

6a00e554b11a2e8833014e86bfe0e1970d-300wi Mais do que a contaminação radioativa, o medo de tal catástrofe é capaz de gerar mais danos do que a própria ameaça em si. No rastro da ignorância coletiva, a disseminação do pânico cresce e amealha apavorados seguidores mundo afora.

A contaminação radioativa tem posição de destaque no ranking de medo que povoa o imaginário popular, alimentado pela ficção que transforma em monstros aqueles expostos a algum tipo de material nuclear.

Tratados como párias leprosos, muitos experimentam preconceitos pelo simples fatos de serem oriundos de locais atingidos por este tipo de tragédia, seja Chernobyl ou mesmo Goiânia.

Moradores da costa oeste americana já esgotaram os estoques de pílulas de iodo para se prevenir da radiação que, imaginam, pode pegá-los na curva. Os laboratórios contam os lucros, tal como fizeram ao vender vacinas para uma mortífera epidemia de gripe que nunca chegou.

Do mesmo modo, milhares de pais deixaram de vacinar seus filhos aos primeiros boatos de que as vacinas poderiam causar autismo, dando margem ao retorno de uma doença erradicada há décadas. É o típico caso de trocar uma especulação por um perigo real e imediato.

O estresse e a ansiedade causados pelo pânico generalizado, mesmo em áreas afastadas, têm efeitos tão ou mais nocivos do que a própria radiação, segundo Fred Mettler, da Universidade do Novo México.

Estudos com 80.000 sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki relatam que cerca de 9.000 morreram de algum tipo de câncer, apesar de apenas 500 deles terem sido efetivamente causados pela exposição à radiação das bombas lá detonadas – mesmo aqueles artefatos tendo sido destinados com fins de destruição.

Segundo os cientistas, a radiação emitida pelas bombas atômicas aumentam em 40% as chances de uma pessoa desenvolver câncer de pulmão, por exemplo, enquanto que fumar um maço de cigarro por dia eleva o mesmo risco em 400%.

Um reator nuclear não causa uma explosão com aquele cogumelo que cobriu Hiroshima e Nagasaki. Fora os trabalhadores da própria usina, os demais moradores receberiam uma carga semelhante a um raios-X convencional, segundo Gregg Easterbrook.

O mesmo autor lembra que desde o último grande acidente numa usina nuclear (Chernobyl, 1986) passaram-se 25 anos sem que nenhum outro incidente grave fosse registrado. Menos de cem mortes foram registradas em desastres deste tipo, enquanto que usinas termelétricas ou perfurações de poços de petróleo matam aos milhares.

Embora os especialistas da área se esforcem para conter a histeria coletiva causada pela liberação de material radioativo das usinas japonesas, parte da população já se apressa numa inócua prevenção, esperando sempre pelo pior. Mas neste caso específico, o pior é exatamente o medo que você escolhe sentir.

6 pensamentos em “O maior risco do medo é o medo”

  1. Sem nomes, obviamente, mas já conheci engenheiros civis que trabalham com construções de pontes que “brincam” dizendo que a mistura da massa usada na construção de um ponte só “dá liga” com uma pitada humana. Ou seja, a construção de uma ponte sem morte de algum(ns) operário(s), não é uma construção de fato.
    Se considerarmos a quantidade e porte de pontes existentes por aí e a quantidade de desastres radioativos, mais gente morre construindo ponte do que afetado por desastres dessa ordem.

  2. Boa Tarde Rodolfo! O que mais me chama a atenção, apesar de todo medo e caos no Japão é a organização e o bom senso dos japoneses. Filas de 6 horas para abastecer o carro, filas para receber comida, filas para todos os lados e não ouvi falar em pessoas sendo roubadas, lojas sendo saqueadas ou qualquer tipo de desordem generalizada. Tomara que nenhum Tsunami venha visitar o Brasil.

  3. Boa tarde!
    Não é só a mídia que se aproveita do medo, as empresas também. Outro dia liguei para o banco para resolver um problema qualquer e quando ia desligar, o atendente me ofereceu um seguro para o cartão por (apenas) R$ 2,00 ao mês. Caso ocorra um sequestro-relâmpago o tal seguro cobre o eventual prejuízo, blá, blá, blá. O argumento: o possível prejuízo seria muito maior que o valor da mensalidade.

  4. A questão de comparar o número de mortes não passa de sofismas, sinceramente.
    Você comparar a quantidade de pessoas que morrem ao andarem de moto e elevador é pura mé-fé.
    Gosto dos seus textos, acho que o medo pelo medo gera ainda mais o caos. Concordo com o amigo acima que lembrou do bom senso japonês.
    Nuclear pode ter matado menos do que a construções de pontes. Mas a pergunta que não quer calar, o urânio livre na atmosfera vai tornar uma região inabitável por séculos, POR SÉCULOS. Já uma ponte ou uma hidrelétrica pode matar mais, mas não torna o local inabitável…
    Outra coisa, com certeza os defensores das Usinas Nucleares não contam as mortes correlatas, como na construção da própria Usina, como fez o amigo das pontes…
    Ps.: não tá dando pra comentar utilizando o facebook…

  5. Não existe outra saída para o mundo fora a nuclear. Todo grande líder sabe bem disso. A reação de políticos mundo a fora, só tem uma única (ou duas) justificativa, ganhar votos e aumentar o tamanho da propina paga pelas empresas que dominam o setor nuclear.
    Outra lendas recentes falam de bio-combustiveis, carros elétricos e economia de papel graças ao uso de computadores (essa é a maior de todas as piadas).
    Para fazer combustível bio, florestas estão sendo derrubadas, e soja está deixando de virar comida para ser combustível. Carros elétricos usam baterias gigantes, e isso quer dizer mais chumbo e produtos químicos. Essa tragédia no Japão só irá fortalecer ainda mais o uso de usinas atômicas, que agora irão ser repensadas. Já se acontecer um terremoto na China, na maior hidrelétrica do mundo, os danos simplesmente não teriam como serem calculados. Seria (ou será) a maior tragédia da historia. Quer um mundo melhor? Com mais qualidade de vida? Duas saídas, fique muito rico ou convença toda a população mundial a parar de ter filhos e consumirem como loucos. É mais fácil ficar rico.

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