Olho por olho, vaga por vaga: a Indignação Cega

É possível que você já tenha visto o vídeo em que colocam uma cadeira de rodas numa vaga para carros, dizendo que o seu dono foi ali e já volta. É igualmente provável que você tenha retuitado, curtido ou compartilhado o vídeo, em solidariedade à causa da inclusão social.

Mas mais provável do que isso tudo é que você tenha caído no viés da Indignação Cega – um termo que acabei de criar, para ilustrar aqueles casos nos quais você é levado a acreditar que os direitos de alguém estão sendo desrespeitados, sem se dar conta da verdadeira mensagem embutida no engodo. Veja o vídeo e depois eu continuo:

O bilhete afixado na cadeira de rodas diz: “Peguei o carrinho elétrico do mercado e precisei deixar a minha cadeira aqui. VOLTO EM 1 MINUTO”. O vídeo fecha com a seguinte mensagem:

 

6a00e554b11a2e8833014e88058a4b970d-320wiA frase tem um quê de revanche, um sentimento de vingança. Um erro justificando ou punindo outro. Prega exatamente o que deveria combater. A lição final ainda diz:

 

6a00e554b11a2e883301538e11ce43970b-320wiPois respeito é exatamente o que falta a esta campanha. Se fosse real, respeito é algo que o dono da cadeira não demonstra, embora exija a retribuição.

Claro que a indignação é justa, mas esta não é a forma correta de demonstrá-la, muito menos de pregar sua reciprocidade.

Algumas imagens têm o efeito de criar empatia imediata, independentemente do que realmente esteja por trás do restante do conteúdo. Cadeiras de rodas, crianças famintas, animais abandonados e idosos têm este resultado. Mas isto não é suficiente, pois a reivindicação precisa, antes de tudo, ser justa.

Vi um comentário no Facebook onde uma moça dizia que “a vaca que retirou a cadeira deveria levar uma multa e ser linchada”.

Linchada. Espancada até a morte, sem julgamento prévio. Este é o nobre sentimento que uma campanha dessas pretende inspirar?

8 pensamentos em “Olho por olho, vaga por vaga: a Indignação Cega”

  1. Caro Rodolfo – Quase sempre concordo com seus textos, sempre inteligentes. Neste, concordo totalmente com aquele parágrafo no qual você afirma que as imagens tem o poder de criar empatia mesmo que a causa não seja correta ou, acrescentaria ainda, que a mensagem pregada não seja a melhor maneira de resolver o problema.
    Porém, acho que, nesse caso específico, o vídeo faz todo o sentido. O vídeo não afirma que o dono da cadeira de rodas está correto. Pelo contrário, ele mostra que o cadeirante está obviamente errado. O que o autor quer, com a “inversão do erro” é mostrar como os cadeirantes se sentem quando a o não-cadeirante toma sua vaga.
    Achei o vídeo inteligente e o recurso utilizado atinge seu objetivo.

  2. Olá Rodolfo,
    Infelizmente, tudo hoje em dia é muito barato. Uma camera, uma idéia e um idiota. Basta isso para se criar “arte” e “entretenimento”. Mesmo que algumas propagandas sejam engraçadas, note como uma empresa vê seus clientes, estou me referindo a Skol. Um das propagandas um grupo de idiotas tem que pegar cerveja na geladeira, que dá choques elétricos e eles se divertem levando choques. Será que o público virou masoquista?
    Ou será que a nossa realidade passou a ser igual a do filme Idiocracy?
    Falando em filme sobre distopia, não deixe de ver “Never Let Me Go”, é um prato cheio para essa seara de conflitos.
    Isso me lembrou as centenas de comentários numa matéria do terra.com.br sobre a Alanis Morissette, que vangloriava a maconha e que suas composições e criatividade dependiam da erva. E foi ai que descobri porque os seus últimos trabalhos estavam um lixo. Provavelmente não é culpa da maconha, mas sim do caminho que ela resolveu trilhar, chamar atenção com polêmica. Por outro lado, os comentários deixavam claro que maconheiros tem voz e que na internet falta inteligência e sobram evangélicos, crianças alienadas e adultos perdidos.
    Acredito que o maior desafio atual das métricas de audiência e filtrar o que é público, lixo e conteúdo.

  3. Rodolfo, isso é uma questão de interpretação.
    Ao meu ver não tem esse caô todo que você disse.
    A propaganda quer justamente criar empatia.
    Ela não está dizendo para você viver de revanchismo, só que preste atenção nas suas atitudes e veja se você gostaria se você sofresse com elas.
    É o que acontece. Muita gente estaciona indevidamente nas vagas de deficiente. Essa tipo de educação o brasileiro está perdendo. O respeito pelo outro.
    O sentimento é tão egoístico que nós não paramos para refletir nas nossas ações, só queremos que elas nos tragam proveito.
    Aí o que faz a propaganda? Inverte a situação para nos levar a reflexão. Só isso. Um momento para nós refletirmos. Aí nem aborda toda a dificuldade do deficiente.
    É uma tentativa de criar empatia entre quem estaciona na vaga de deficiente e o deficiente.
    Só. Se outra pessoa disse que a mulher deveria ser linchada só mostra o fracasso educacional que estamos vivendo, aonde esta o respeito dessa garota? Ela provavelmente colocaria o carro na vaga de deficiente…
    Enfim, não achei isso tudo da propaganda. Muito pelo contrário achei que ela é válida. E se as pessoas não sabem distinguir uma propaganda da vida real, aí meu caro, o problema é outro…

  4. Seria mais interessante pegar um cadeirante e ir em vários shoppings tentar estacionar no final de semana, por exemplo em um sábado a noite. Dai parar na frente das vagas ocupadas, cronometrar o tempo e quando a pessoa for retirar o carro perguntar a deficiência dela.
    Eu fico rodando um tempão no shopping para achar uma vaga e fico puto de ver todas as de deficientes ocupadas por não-deficientes.

  5. Olá, Rodolfo,
    Realmente acredito que o seu texto se refere a uma visão muito pessoal. Achei a propaganda interesante e não vejo nenhum sentimento de revanche ou vingança apresentado nela. No fundo, a peça pergunta a cada um de nós: Você gostaria que fosse com você?
    Essa é uma pergunta que cada um devia fazer para si mesmo, quando pensa em fazer (ou deixar de fazer) algo que possa prejudicar o outro.
    No mais, parabéns pelo blog!

  6. Rodolfo, creio que isso venha do fato de que todo ser humano querer que o seu próprio bem seja feito, sem se importar com o dos outros. O problema, ao meu ver, não é a utilização indevida de vagas reservadas a deficientes, é a ausência de vagas suficientes pra atender a todos.
    Claro que se em todo país houvesse transporte público abundante e de qualidade, haveria menos carros, e menos necessidade de vagas, etc. Mas é mais fácil arrumar soluções paliativas e defendê-las a todo custo! E danem-se os demais!
    Não sou contra vagas exclusivas de deficientes, mas a cada dia me irrita mais a intolerância dos que são ou se sentem “handicapped” socialmente (e agora fiquei pasmo com os que são fisicamente) em relação a todos os demais. Não importa que os outros também tenham necessidade, o que importa é que A MINHA NECESSIDADE SEJA SUPRIDA, CUSTE A QUEM CUSTAR! Esse é o espírito de milhares de pertencentes a supostas minorias (felizmente não todos), e eu fico embasbacado com a facilidade com que essas idéias são vendidas aqui no Brasil.
    É como se as pessoas tivessem uma necessidade latente de se sentirem superiores a outras, e essa fosse suprida ao “ceder misericordiosamente” seu direito a um “coitadinho” que sofre discriminação ou qualquer coisa do tipo.
    Enfim, não sei se você está tão revoltado quanto eu com esse contexto geral (exclua-se o exemplo específico “vagas para deficientes físicos” do post), mas compartilho de suas idéias.
    Abraços!

  7. Olá Rodolfo, gosto muito de seus textos, mas neste acredito que você tenha cometido um erro de interpretação, ou interpretado a propaganda da pior maneira possível. Contudo em outros textos tem se mostrado um cara com boas idéias.
    Boa sorte na próxima!
    Abraço.

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