O astronauta argentino

Educação é um tema sempre polêmico e parece mexer com os brios de todos. Sendo assim, parece ideal aqui para o blog. Vamos a ele!

Já escrevi algumas vezes sobre o perverso sistema de ensino público brasileiro, onde os alunos vão passando de ano independentemente do seu nível de aprendizado, que isso é apenas uma estratégia do governo para dizer que todas as crianças estão na escola (apesar de analfabetas), maquiar os números e ficar bonito na foto.

Nestas ocasiões, sempre aparece algum petista para dizer que isso tem o seu lado positivo e que “nunca antes na história desse país, blá, blá, blá…”

Sendo assim, vou aproveitar a publicação de um artigo muito interessante para mudar o foco da análise e ver a quantas andam o sistema de ensino americano.

Duas semanas atrás, Richard Arum e Josipa Roksa assinaram o artigo Your so-called Education (algo como “Aquilo que você chama de Educação”) no The New York Times, abordando um assunto que tem sido muito debatido por lá: a bolha educacional.

Um bucólico piquenique numa Universidade americana
Um bucólico piquenique numa Universidade americana

No fim do último ano letivo, uma pesquisa verificando o nível de satisfação dos alunos, ao concluir o curso universitário, revelou que 90% deles afirmavam ter desenvolvido habilidades específicas para a vida profissional, bem como melhorado sua capacidade de raciocínio crítico. Sem dúvida números animadores!

O problema é que um estudo paralelo desenvolvido pelos autores mostrou exatamente o contrário, mas de forma bem mais objetiva. Segundo eles, a maioria dos estudantes avaliados (milhares ao longo de quatro anos) se dedicou pouco aos estudos e obteve progressos pífios.

Pelos dados de Arum e Roksa, num semestre típico, 32% dos alunos não tiveram matérias que exigissem mais do que 40 páginas de leitura por semana (algo como dois textos como este por dia); e 50% deles não precisou escrever mais do que 20 páginas de texto num semestre. Na média, estudaram cerca de 12 horas por semana – metade da carga estimada na década de 1960.

No decorrer do curso, os pesquisadores avaliaram os progressos, por assim dizer, dos alunos universitários. Examinando as notas de testes-padrão para a medição de habilidades em redação, pensamento crítico e raciocínios complexos, eles concluíram que 45% dos alunos não tiveram nenhum progresso nos dois primeiros anos de faculdade. E, pior, 36% manteriam este pavoroso número até o final do curso. Isto é: um em cada três alunos passou quatro anos na universidade para nada.

Uma das principais causas apontadas pelos autores foi a mudança na relação entre alunos e instituições de ensino. A transformação dos estudantes em “clientes” ou “consumidores” deu a eles poderes que antes não tinham e, a partir de então, passaram a se comportar como tal, buscando um diploma sem esforço algum – afinal de contas, o cliente tem sempre razão, certo?

Hoje vemos uma geração que se vangloria por não respeitar hierarquias – estejam elas dentro ou fora de casa. São jovens sobre os quais os pais têm pouquíssima autoridade, que dirá os professores.

É interessante fazer uma comparação deste quadro com o contexto histórico traçado por Clayton Christensen e Michael B. Horn em Disrupting Class: How Disruptive Innovation Will Change the Way the World Learns (McGraw Hill, 2008), basicamente associando a qualidade do ensino aos ciclos políticos e econômicos – mas de forma inversa!

- ¡Hola macaquitos! ¿Que tal?
– ¡Hola macaquitos! ¿Que tal?

Primeiro quando os EUA começaram a perder competitividade para as indústrias alemãs no início do século passado.

Mais ainda quando, meio século depois, os russos colocaram Yuri Gagarin no espaço.

Ao perceberem que haviam ficado muito para trás na corrida tecnológica, os investimentos jorraram e ensino e pesquisa americanos conheceram sua época de ouro e platina, cravejada de diamantes.

Com a derrocada da União Soviética, não havia mais bárbaros à espreita. A competição fora ganha e não havia mais a ameaça latente dos competidores. Os investimentos em educação minguaram à mesma proporção que os arsenais atômicos. Hoje os cursos de química, física e matemática são povoados de chineses e indianos (cujos países estão no nível dos americanos, quando eles iniciaram a corrida educacional), enquanto que os americanos dedicam a maior parte do seu tempo ao Facebook.

Mas se isso é um motivo de preocupação para os americanos, por seu ensino universitário, o que dizer da educação de base no Brasil, onde metade das crianças até 14 anos de idade são consideradas analfabetas – apesar de estarem na escola?

Nos EUA, quando falam em bolha na educação, significa que o número está inflacionado e não reflete o quadro real. No Brasil, cada vez mais pessoas entram em cursos universitários que proliferam como Pet Shops (aqui há mais faculdades de Direito do que todos os outros países do mundo somados). Muitos saem piores do que entraram, porque além de não aprender nada, gastam dinheiro e carregam um título que não vale nada. É como usar um colete à prova de balas feito de seda: você acha que está preparado mas cai ao primeiro desafio.

Universidades que anunciam na TV as menores mensalidades do mercado respondem pela bolha educacional brasileira: muitos alunos, pagando pouco, aprendendo nada. Um enorme contingente de universitários que dará com a cara na porta do mercado, apesar de portarem o diploma das estatísticas do Governo. Infelizmente também engrossarão outras estatísticas, nem tão favoráveis.

A lamentar, acrescento o fato de nenhum argentino jamais ter ido ao espaço (no sentido literal) ou pisado na Lua (idem). Ao menos essa argentinice poderia dar uma sacudida nos brios locais e provocar alguma reação.

6 pensamentos em “O astronauta argentino”

  1. Hahahha! Essa cutucada nos irmanos foi boa.
    Até o sistema de ensino o PT copiou FHC. Conseguindo piorar o que já era um caos. O preço dessa maquiagem virá em forma de atraso ao tão falado, progresso.

  2. Olá Rodolfo.Aqui em Portugal passou-se o mesmo. Abriram-se faculdades, com cursos que a economia e sociedade portuguesa não procuram, eludiram-se pais e estudantes, que até se endividaram para pagar as altas propinas do ensino privado. Há quem diga, por aqui, ter um cursos supeior é meio caminho para o desemprego.

  3. Muito bom!
    Seria interessante verificar a relação entre a implantação das universidades-boites e o aumento do tráfico de drogas nas cidades de porte médio.
    MAM

  4. gostei muito deste texto.
    Estou me formando em Marketing,numa faculdade que gerou muita polêmica, em canoas RS, e não aprendi quase nada. Durante todo o curso, creio que não tive nenhuma dificuldade.. não por ser inteligente ou algo assim, mas por que não foi colocado nenhum desafio.
    estando com as mensalidades em dia, e assinando a lista de presença é 80% de chance de aprovação.

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