Fica, Ricardo Teixeira!

Este movimento que toma as redes sociais é mais uma daquelas campanhas infantis, bobinhas e inócuas. Ricardo Teixeira ri desta gritaria que fazem em torno do seu nome – e ele tem muitas razões para isso.

A principal delas é que a CBF é uma entidade privada, uma empresa. E como empresa, não há o que dizer da figura do seu presidente. Ela tem um faturamento gigantesco e uma margem de lucro absurda. Assim como a Apple.

Na gestão de Ricardo Teixeira (desde 1989 no cargo) o Brasil ganhou duas Copas do Mundo (quase ganhou três seguidas), três Copas das Confederações, duas medalhas Olímpicas e cinco Copas América. Fora o futebol feminino. Neste período, a Apple lançou o iPod, o iPhone e o iPad, em várias versões.

Como presidente desta empresa, o senhor Ricardo Teixeira tem todo o direito de dizer quanto custa o seu produto (os jogos da seleção) e em que canal de TV ele vai passar. E quando ele diz que vai fazer o que quiser na Copa do Mundo, é porque o presidente de outra entidade privada, a FIFA, o autorizou a tal. A Apple só vende seus produtos aplicativos em suas lojas, pelo preço que quiser.

Assim como acontece nas demais empresas privadas, o mercado deve regular o que acontece. Se você não concorda com o que faz o presidente da empresa, então não consuma o seu produto. Mas se você não consegue ficar sem este produto, se precisa comprar uma camisa oficial da seleção e assistir aos jogos, então você está de acordo com o plano. Pessoas dormem nas portas das lojas para comprar o primeiro iPhone 4, o primeiro iPad 2.

Se há dinheiro público envolvido na Copa do Mundo, aí é outra história. Mas é uma história que deve ser cobrada do Governo – Kassab, Dilma etc. – e não da CBF ou do senhor Ricardo Teixeira. A Apple terá incentivos fiscais para a sua fábrica no Brasil.

O resto é mimimi. E eu nunca vi um movimento “Fora Steve Jobs!”

- Denúncias? Morro de rir!
– Denúncias? Morro de rir!

Escrevi na semana passada que quanto mais se fala de uma campanha na Internet, menor a chance de ela dar certo. Mas por que isso? Porque a campanha que começa na Internet, termina na Internet.

José Sarney até hoje morre de rir do #ForaSarney que você tuitou com entusiasmo. E com igual sarcasmo, Paulo Maluf se diverte ao lembrar do #FichaLimpa, que você curtiu no Facebook por semanas, orgulhoso e cheio de brio.

As redes sociais têm o mérito de facilitar interações interpessoais, aproximar pessoas e cultivar laços que, de outra forma, se perderiam com o tempo. Mas há, também, o pernicioso efeito colateral de pensarmos que isso basta, que é suficiente.

O mesmo ocorre nos movimentos, nas manifestações. As pessoas tuitam, Curtem e pronto! Já acham que fizeram a sua parte e que o mundo vai mudar em questão de horas, quiçá minutos. Só que nada acontece. E o que é pior, ninguém aprende com isso. No próximo escândalo começam a encher as timelines alheias com a mesma lengalenga de sempre.

Em Por que os brasileiros não reagem?, Juan Arias, correspondente do jornal espanhol El País, perguntou por que o povo brasileiro não vai para as ruas protestar contra a corrupção. Uma resposta lúcida veio em forma de carta aberta de Reinaldo Azevedo, colunista da Veja: o brasileiro não protesta porque não sabe protestar.

Segundo Azevedo, manifestações não nascem por geração espontânea, não são amealhadas aleatoriamente pelas ruas. Elas são convocadas, organizadas, planejadas. Historicamente, porém, quem sempre cumpriu este papel foram o PT e os movimentos sindicais – também filiados ao partido.

Mas agora que eles estão no poder, a oposição não consegue se mobilizar. Simplesmente porque não sabe e não tem esta cultura. Claro que você pode descontar a repulsa visceral que Reinaldo Azevedo nutre pelos petistas, mas ele está certíssimo quando diz que a oposição é apática, conformada e acomodada – por mais que goste de tuitar o contrário, para parecer bacana.

A permanência de Ricardo Teixeira na presidência da CBF – assim como José Sarney e Paulo Maluf – é a incômoda confirmação de que pareço estar certo. Embora, desta vez, eu preferisse estar errado.

9 pensamentos em “Fica, Ricardo Teixeira!”

  1. Eu concordo com Aldo Rebelo ao dizer que a CBF não é uma entidade privada. É uma entidade civil.
    Segue um trecho da entrevista dele ao Roda Viva:
    “… Porque seria negócio privado se qualquer um de nós pudéssemos chegar na rua da Alfândega, no outro lado da CBF, abrir uma CBF, convocar uma seleção brasileira, vender os direitos para a Nike, vender os direitos para a Ambev, vender os direitos de transmissão por oitocentos mil dólares cada jogo e fazer com o dinheiro o que bem entender. A CBF é quase uma para-estatal é quase uma concessão, só ela pode convocar a Seleção, só ela pode vender os direitos de imagem da Seleção. Então, não é um negócio privado, é uma entidade civil, como o estatuto que o próprio Ricardo Teixeira desconhecia define, e eu espero que ele haja de acordo com a consciência dele, está certo? …”
    http://www.tvcultura.com.br/rodaviva/programa/PGM0752

  2. Daniel, até onde eu sei (não sou especialista na questão) qualquer um pode abrir uma CBF sim! Não há nada que impeça isso. Se você quiser, você pode juntar 11 caras quaisquer, vestí-los com o uniforme oficial da seleção brasileira e vender um amistoso para quem estiver disposto a comprar.
    Mas a CBF chegou primeiro – esse é o problema. Então os clubes têm contrato com ela e não vão ceder seus jogadores. Lembra da seleção de Masters do Luciano do Valle? Não tinha nada a ver com a CBF.
    Recentemente o Dunga e o Romário participaram de um jogo deste tipo, independente da CBF.
    O Clube dos 13 foi organizado desta forma, para fazer oposição à CBF.
    Abraço, Rodolfo.

  3. Bom, retomando o ponto levantado pelo “Outliers”, de Malcolm Gladwell, eu reitero o fato dos índices de Hofstede brasileiros, ostentarem baixo senso coletivo, grande individualismo e um índice de Distância do Poder imenso, para explicar “porque o brasileiro não protesta”:
    – Não protesta por que ele não sente que isto lhe diga respeito;
    – Não protesta por que ele respeita demais a autoridade, mesmo ela fazendo imensas asneiras – estar certo vem depois de ter direito de mandar.
    Além disso, carecemos de estruturas de cidadania. Não há mais centros acadêmicos voltados para o aluno. Onde se encontravam os grêmios estudantis, hoje viraram repartições de carteirinha de estudante!
    Associações de bairro?
    Quem é que vai perder “seu precioso tempo” para cuidar de coisas da primeira pessoa do plural ? Eles (nós, para ser mais preciso) vão é cuidar da primeira pessoa do singular!
    Para alguém sair na rua, é preciso que haja uma possibilidade de ganho clara! Ou por que já está f…, ou por haver identificação forte.
    Não é por “democracismo”, a confusão que existe entre as opiniões majoritárias expressas “estatisticamente”, e o que realmente mobiliza as pessoas. Por que se não, em todos os países do mundo, todos os cidadãos sairiam às ruas protestando contra a mera existência de impostos (tem coisa mais impopular do que isto ?)!

  4. “estruturas sociais” aliás, como as desenhadas em outro livro do MG, o “Tipping Point” – com a participação de “experts”, “comunicadores ” e “vendedores”…
    – Nossos experts estão vendidos – haja conflito de interesse explícito, ou chapa-branca, ou com oposição tacanha de rasa…
    – Nossos comunicadores andam só tuitando…
    – E os vendedores estão aproveitando nossas bolhas e enchendo os bolsos…

  5. Mais uma coisa:
    Na minha humilde opinião, ao invés de comparar com Steve Jobs, vale a pena lembrar de pessoas mais, mmm, “eticamente comprometidas” da iniciativa privada, como por exemplo, o Bernard Madoff e a Martha Stewart.

  6. Mas como seria bom discordar de você e estabelecermos um conflito … mas… posso não!
    Tenho a percepção idêntica de que o “curtir” e o “retweet” aliviam as consciências e trazem bem estar às almas inquietas em grande número de oportunidades!
    De todo modo também me parece que as sociedades acabam descobrindo suas próprias formas de seguir em frente…
    Porque se a economia vai bem… A sensação de não mexer fica mas forte, não?

  7. O brasileiro é acomodado, além de não entender bulufas de futebol, não entende o que está acontecendo.
    Ricardo Teixeira é o presidente, é ele quem paga, portanto é ele quem manda.

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