O próximo desastre da produtividade

Enquanto nuvens negras pairam sobre Estados Unidos e Europa, o Brasil experimenta um período de formidável prosperidade. Impulsionado por grandes eventos que talvez ocorram aqui em 2014 e 2016, o país ganha prestígio no exterior ao mesmo tempo em que transforma-se em xodó dos investidores estrangeiros. Um crescimento tão espetacular quanto irreal. Patologicamente megalômano e irremediavelmente fadado ao desastre.

Em primeiro lugar, a enxurrada de dinheiro que entra no país vem atrás dos juros mais altos do mundo, necessários para sustentar uma máquina estatal que desepeja votos a cada quatro anos. Não se ouve falar em capital estrangeiro empregado em produção ou crescimento interno. No máximo financiam obras públicas ou privadas, remunerando agiotas internacionais.

É capital especulativo cujo preço virá no futuro, quando os malabarismos contábeis do governo não conseguirem mais esconder o buraco negro em que se transformaram as contas públicas. Quem financia o boom imobiliário, por exemplo, é a poupança interna e o próprio FGTS, que remunera o trabalhador com juros de Primeiro Mundo, enquanto bancos e construtoras cobram juros de Terceiro Mundo dos incautos, digo, compradores.

Em segundo lugar, porque não é apenas nos imóveis que o Brasil é um dos países mais caros do mundo. Tudo o que se compra e vende aqui é caríssimo. Por muito tempo nos acostumamos a culpar os impostos – que obviamente têm sua parcela de culpa – mas essa desculpa não cola mais. Os próprios empresários se acostumaram a se esconder atrás dela, mas eles sabem a verdade. Eles sabem que suas margens de lucros são indecentes.

O grande causador disso é que durante muitos anos fomos um mercado fechado às importações, de forma a incentivar a produção nacional. O resultado foi exatamente o oposto. Sem a concorrência estrangeira e sem um parâmetro de comparação, a indústria nacional acomodou-se e não investiu um Cruzeiro em inovação, melhorias ou aprimoramentos.

Lada: uma verdadeira revolução no mercado automobilístico nacional
Lada: uma verdadeira revolução no mercado automobilístico nacional

Ao contrário, engordou e prosperou. Enriqueceu e se acomodou. Tudo muito em linha com a preguiça indolente característica do brasileiro. Quando o mercado se abriu, no início da década de 1990, percebemos o estado lastimável em que nossa sucateada indústria se encontrava.

O russo Lada era considerado um carro digno de ser importado. Uma maravilha da tecnologia e do design especializado, diretamente de Moscou.

Novamente para proteger a produção interna, impostos altíssimos foram criados para evitar uma a perda de competitividade de uma indústria que já nascera atrasada. Neste momento crucial, os brasileiros irremediavelmente se acostumaram a pagar um preço muito alto por tudo o que compravam. Um mal que mostra seus reflexos até hoje.

O primeiro grande choque da produtividade veio com o fim da inflação. Muitas empresas viviam  de ganhar dinheiro na virada do mês, quando a hiperinflação corrigia as tabelas de preços em 10, 20 ou 30%, todo mês. Ninguém sabia o valor das coisas.

Quando isso acabou, com o Plano Real, a quebradeira tirou do mercado quem não agregava valor àquilo que fazia. Operações que antes podiam ser deficitárias – porque tudo se arrumava na virada da tabela – evaporaram junto com a inflação. É comum ouvir até hoje o lamento dos incompetentes falidos que gostariam de vê-la de volta.

O segundo grande choque da produtividade está rondando nossas cabeças enquanto você lê este texto: é o das margens de lucro. Mesmo com os altíssimos impostos que pagamos para importar – desde os diretos, na transação, até os indiretos, como IOF – comprar coisas no exterior está saindo muito mais barato. Bens produzidos nos Estados Unidos, onde a mão-de-obra é muito mais cara, são muito mais baratos do que aqui. Se compararmos com a China vira covardia.

Tomemos a indústria automobilística, por exemplo. Pagamos pelos carros aqui, duas ou três vezes o preço do mesmo carro lá fora. Ainda assim é uma comparação injusta, porque apesar de os modelos serem internacionais, não se pode comparar o acabamento de um automóvel aqui com o seu primo mais rico produzido lá fora. Um estofamento de couro de um carro importado parece um móvel italiano, enquanto que num carro nacional você se sente num sofá das Casas Bahia.

Já imaginou isso dentro do Chevettão?
Já imaginou isso dentro do Chevettão?

Um carro popular – que hoje é apenas um apelido carinhoso, já que de popular ele não tem nada – custa US$ 20 mil. Com este dinheiro você compra um excelente carro em qualquer lugar do mundo – inclusive na Argentina ou no Chile. Mas este mesmo carro excelente, lá de fora, aqui custaria pelo menos US$ 40 mil. E assim vai.

Mas achamos lindo e pagamos o preço pedido. Nunca antes na história deste país foram vendidos tantos carros como nestes últimos dois ou três anos. E a disparidade de preços nunca foi tão grotesca. Como se isso não fosse suficiente, ainda abastecemos os carros com os combustíveis mais caros do planeta – apesar das alardeadas reservas de Pré-Sal.

Isto tudo tem um motivo muito simples: lá fora a inovação acontece num ritmo muito acelerado – em contraste com o Brasil, lugar onde a inovação é uma piada de mau gosto (mas isso é tema para outro post). Então, o que é novidade hoje, amanhã já é commodity. E, sendo assim, o preço cai drasticamente. Aqui, ao contrário, o preço se mantém igual e é a margem de lucro que sobe.

O que vai acontecer com esta indústria quando a Tata trouxer o seu carro de US$ 2 mil? Como a indústria eletrônica vai vender TVs a US$ 1.500,00 se elas custam US$ 400 lá fora? Quem está preparado para o doloroso, embora necessário, corte nas margens? Que empresa sobrevive a uma concorrência justa com um rival estrangeiro?

Um terceiro choque de produtividade poderia ser deflagrado com uma reforma fiscal que acabasse com a vergonhosa disputa por receitas entre os estados. Há setores inteiros da indústria que não sobreviveriam sem incentivos fiscais. Ooperações gigantescas que dependem do financiamento público sob a forma de renúncias, rebates. substituições tributárias e outras aberrações tupiniquins.

Veja a Indústria Farmacêutica, por exemplo: uma empresa fabrica produtos aqui em São Paulo e vende para uma distribuidora aqui em São Paulo. Mas a carga é entregue em Brasília ou Goiânia, onde se troca a Nota Fiscal antes de trazer a mercadoria de volta. Dois mil quilômetros depois e temos um desperdício estúpido como única forma de viabilizar uma operação. E depois ninguém entende por que os remédios são tão caros.

Para o choque da margem de lucros, no entanto, é questão de tempo. As empresas que não estão adequando suas estruturas de custos lá fora estão virando pó. A China e a Índia não perdoam. São dois bilhões contra um povo preguiçoso. Haverá choro e ranger de dentes.

9 pensamentos em “O próximo desastre da produtividade”

  1. Eu simplesmente cansei… A única vez que vi analistas financeiros (famosos) acertar, foi na data da quebra dos EUA, 2012. O Brasil irá viver os próximos 4 anos em plena Sodoma e Gomorra, e após isso, nem Deus sabe. Mais uma vez o ciclo se repete, e as pessoas que não estudam historia econômica ficarão com a conta do prejuízo.
    OFF Topic: Cadê você no Google+ ?

  2. Me lembro bem de quando comecei a ouvir esta história da reserva de mercado – na época, era pré adolescente, e ansiava por novidades, pois o que tinha na época era um CP-200 (um sinclair com teclas de verdade).
    Por muito tempo, quando adulto, reconheci nessa reserva de mercado, a origem de todo o atraso de nossa indústria da época.
    Porém, tive contato com dois argumentos relevantes, que me obrigaram a “pensar”:
    – O primeiro, é lembrar de como era a indústria anterior à decada de 80. Ou mesmo, como eram nossos “empresários” da época – que maquiavam produtos, como muitos ainda maquiam hoje.
    A tal da inovação, quando soprava, era ridicularizada, como no saudoso Gurgel, que podia ser o nosso Tata, e esmagada sem dó, pelos concorrentes de peso.
    – O segundo dado relevante, é reconhecer que grandes economias industriais, passam por uma fase de proteção de mercado, como incubadoras, ganham incentivos, até ter porte para serem auto-suficientes: Basta ver o caso das indústrias japonesas, oriundas de tradicionais senhores feudais ou familias de samurais, extremamente xenófobas, mas que souberam capitalizar o estímulo (e até mesmo das indústrias chinesas, onde sempre as portas estão abertas ao investimento gringo, desde que haja um sócio chinês).
    Se faltou “porta de saída” para os incentivos, ou se as famílias souberam que era melhor investir na firma, ao invés de construir casinhas em condomínios fechados e comprar carros importados blindados, é difícil saber. Mas do mesmo jeito que proteger não garante que os protegidos tenham sucesso, desidratar empreendedores, muito menos.
    Aqui no teu blog, podemos entender muito melhor certos porquês. Pegamos técnicas de fora, só que adaptamos (mal) à cultura daqui – onde os índices de Hofstede, apontam para um senso coletivo baixíssimo, um individualismo extremo, e uma altíssima distância do poder (que permite desmandos de chefes medíocres).
    Conseguimos ter uma cultura com o pior do oriente e dos EUA.
    Muitos de nossos admirados empreendedores, são déspotas saqueadores (como o Ricardo Teixeira), que se julgam acima da lei dos homens e de Deus!

  3. É preciso melhorar o sistema econômico, produtivo, político, social… evitar o consumismo fútil, buscando a felicidade… preservando o meio ambiente, melhorando o mundo em que vivemos… Temos que evoluir nossa condição humana, individual, coletiva…

  4. Rodolfo,
    parabéns pelo texto brilhante…
    Mas eu acho que cabe um adendo… O brasileiro (pessoa física rs) não se perde nas contas só porque toca tudo pro crediário, pagando valores exorbitantes… Ele também p faz “repassando o prejuízo”… Já passamos da época em que se fazia festa de aniversário e se levava presente… Hoje, paga-se, indiretamente, um pedaço da festa… E os casamentos? São pagos valores exorbitantes com margens delucro absurdas para empresas em função da idéia midiática do “noiva”… E aí o q os casais fazem pra “repasse” do prejuizo? Eventos de casamento em que o foco é o presente… Chá de panela agora tem cota de, pelo menos 50 reais… Aliás, virou chá de lingerie… E de de bar, pq aí se convidam os homens também e se ganha mais um presentinho… rs! Acho que pior que nos endividarmos pelas besteiras que fazemos, é entrarmos nesse redemoinho de contrangimentos sem fim à que estamos expostos pra não ficarmos mal vistos perante a sociedade. Pode observar… existem muitos exemplos pra isso… O churrasqueiro cobra um “extra” de quase 100% sobre a carne que compra, o aniversariante não tem como pagar e faz o que? Repassa o prejuízo para os convidados…

  5. JAC Motors X BR Motors

    Tomei emprestado do amigo Pierre Lucena parte do título deste post, fazendo alusão ao lúcido texto do Acerto de Contas, JAC Motors X incompetência nacional. Em seu blog, o futuro reitor da UFPE destaca o verdadeiro alvo da covarde medida…

  6. Cara,sem querer achei seu Blog na net e por isso,estou aqui comentando esse post em 2012!
    Você simplesmente usou palavras bonitas e bem colocadas,mas exatamente tudo o que eu também penso sobre a matéria sem tirar nem por.
    Meus parabéns! Fiquei surpreso como nossas opiniões são tão parecidas!
    Abraços!

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